sexta-feira, julho 10


(P. Charteres de Azevedo)


Aquela

Minha amada é de carne, de pele e pêlo.
Ora é negra, ora é loura, ora é vermelha.
Minha amada é três. É trinta e três.
Minha amada é lisa, é crespa, é salgada, é doce.

Ela é flor, é fruto, é folha, é tronco.
Também é pão, é sal e manga-rosa.
Minha amada é cidade de ruas e pontes.
É jardim de arrancar flores pelo talo.

Ela é boazuda e é bela como uma fera.
Minha amada é lúbrica, é casta, é catinguenta.
Minha amada tem bocas e bocas de sorver,
de sugar, de espremer, de comer.

Minha amada é funda, latifúndia.
Minha amada é ela, aquela que não vem.
Ainda não veio, nunca veio, ainda não.
Mas virá, ora se virá. A diaba me virá.

Darcy Ribeiro

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domingo, julho 5


s o que me fascina nas ciências?
É o facto de aí encontrar a poesia suprema:
com a matemática, a embriagante vertigem dos números;
com a astronomia, o enigmático murmúrio do Universo.
Mas, por favor, não me venham falar de verdade!


Omar Khayyam, Rubaiyat

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domingo, junho 21



LÁPIDE

Luís Vaz de Camões.
Poeta infortunado e tutelar.
Fez o milagre de ressuscitar
A Pátria em que nasceu.
Quando, vidente, a viu
A caminho da negra sepultura,
Num poema de amor e de aventura
Deu-lhe a vida
Perdida.
E agora,
Nesta segunda hora
De vil tristeza,
Imortal,
É ele ainda a única certeza
De Portugal.


Miguel Torga

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domingo, junho 14

Uma surpresa para
os que não conheçam:


Saíra Santo António do convento
a dar o seu passeio costumado
e a decorar num tom rezado e lento
um cândido sermão sobre o pecado.

E andando andando sempre repetia o seu
o seu divino sermão piedoso e brando
e nem notou que a tarde escurecia
que vinha a noite plácida baixando

E andando andando achou-se num outeiro
com árvores e casas espalhadas
que ficava distante do mosteiro
uma légua das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe
e fraco por haver andado tanto
sentou-se a descansar, o bom do monge
com a resignação de quem é santo.

O luar! um luar claríssimo nasceu
e num raio dessa linda claridade
o menino Jesus baixou do céu
e pôs-se a brincar com o capuz do frade

Perto, uma bica d'água sussurrante
juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Um rouxinol ouvia-se distante,
o luar mais alto iluminava mais.

De braço dado para a fonte
vinha um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha
Ele trazia o coração no peito.

Sem suspeitarem que alguém os visse
trocaram beijos ao luar tranquílo.
O menino porém ouviu e disse:
«Ó Frei António, o que foi aquilo?»

O Santo, erguendo a manga do burel
para tapar o noivo e a namorada
mentiu numa voz doce como o mel:
«Não sei que fosse, eu cá não ouvi nada.»

Uma risada límpida, sonora
vibrou em notas de oiro pelo caminho
«Ouviste, Frei António, ouviste agora?»
«Ouvi Senhor, ouvi... ah, eh ... é um passarinho!»

«Tu não estás com a cabeça boa.
Um passarinho! a cantar assim!»
E o pobre Santo António de Lisboa
calou-se embaraçado, mas por fim

corado como as vestes dos cardeais
achou esta saída redentora:
«Se o menino Jesus pergunta mais
faço queixa a sua Mãe, nossa Senhora.»

E voltando-lhe a carinha contra a luz
e contra aquele amor... sem casamento
pegou-lhe ao colo e acrescentou:
«Jesus, são horas... » e abalaram para o convento


Augusto Gil

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domingo, maio 31




Equinócio

Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro o pano dum teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gin enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe


David Mourão-Ferreira

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domingo, maio 24



«Porque um dos detalhes característicos da minha atitude espiritual
é que a atenção não deve ser cultivada exageradamente,
e mesmo o sonho deve ser olhado alto,

com uma consciência aristocrática de o estar fazendo existir.


Dar demasiada importância ao sonho
seria dar demasiada importância, afinal,
a uma coisa que se separou de nós próprios,
que se ergueu, conforme pôde,
em realidade,

e que,
por isso,

perdeu o direito absoluto à nossa delicadeza para com ela.»

:)

Bernardo Soares, Livro do Desassossego,
Assírio & Alvim, ed. Richard Zenith,
Lisboa 1998, #199.

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domingo, abril 26




















«Vou-lhes contar um segredo: a vida é mortal.»

Clarice Lispector, Onde estiveste de noite,
Relógio dÁgua, p. 97

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domingo, abril 12


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domingo, março 29



«Não sei se precisamos de notícias; precisamos,
certamente, de saber. O jornal apaga os passos
que foi dando, ficando à espera de que haja mais.
O espaço vazio é mero arquivo. Decorrido um
ror de tempo nessa aventura (tendo-lhe eu, entretanto,
pago uma fortuna), as notícias sempre e sempre,
vai tornando o saber mais evasivo. «Não sei que
pensar», não é certamente um objectivo.»

:)


Maria Gabriela Llansol, O começo de um livro é precioso
Assírio & Alvim, Lisboa, 2003, p.103

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domingo, março 15


Tamara de Lempika


Sou eu que te penso
antes de teres existido.
Pensando te crio
um nome
como te invento
um rosto
e nos olhos a cor
onde me reflicto
mas não o exacto lugar
onde moras
e me fixo.
No ontem perdido
em ti recupero
o tempo e o cisco.
No sonho redimo
o que só a viver
tem sentido.


Fernando Namora

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domingo, março 8



«Mas a ti nem mil impropérios
seriam capazes de te morder.
Tal é o impudor inato que possuis.»


Eurípedes, Medeia (1344-5)

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domingo, março 1



«— Porque não fica cá esta noite?
A viagem para o Porto ainda me levaria
umas duas boas horas, era sábado, eu
sentia-me em boa forma e ela parecia
agora uma voluptuosa huri do Profeta
a acenar-me do Paraíso, entre as volutas
de fumo na meia-luz do aposento.

Disse-lhe logo que sim,
que tinha todo o prazer.
E tive, devo reconhecê-lo.»




Uma estória leve e divertida
com um notável suspense.

:)

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domingo, fevereiro 22



Vim há dias da minha terra
onde encetei a leitura
de uma colectânea
de poemas em
homenagem
ao Porto,

Abre assim


Ao Visitante

Entrego-te as chaves da cidade
A chave da torre que do alto nos abre
O voo das aves e os pórticos do mar
A chave das muralhas do burgo antigo
Que nos abre os mistérios do rio
A chave viva dos arcos da ribeira
Na livre expressão das falas do povo
E chave de cais, senhora zelando
Os tesouros do sol no ouro do vinho


(Luís Veiga Leitão)

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domingo, fevereiro 15



«Pela primeira vez, há muito tempo,
pensei na minha mãe.

Julguei ter compreendido porque é que,
no fim de uma vida, arranjara um “noivo”,
porque é que fingira recomeçar.

Também lá, em redor desse asilo
onde as vidas se apagavam, a noite
era como uma treva melancólica.

Tão perto da morte, a minha mãe
deve ter-se sentido libertada
e pronta a tudo reviver.


Como se esta grande cólera me tivesse limpo
do mal, esvaziado da esperança, diante
desta noite carregada de sinais
e de estrelas, eu abria-me
pela primeira vez
à terna indiferença do Mundo.»

(Albert Camus, O estrangeiro)

Um texto mágico,
a que costumo associar este outro:


«Em que meditas, meu amigo?
Será nos teus antepassados?
Todos eles são pó no pó.
Meditas nas virtudes deles?
Repara só como sorrio.
Toma desta copa e bebamos,
Ouvindo sem inquietação
O grande silêncio do mundo
.»


Omar Khayyam, Rubaiyat

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domingo, fevereiro 1



«Chamar-me-ia um cobarde e uma nulidade,
se tivesse de te ceder naquilo que me ordenas.

A outros dá as tuas ordens, mas não penses mandar
em mim. Pois penso nunca mais te obedecer.»

Ilíada, I. 293-96

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quinta-feira, janeiro 29



«Rei voraz com o próprio povo,
é sobre nulidades que tu reinas.»

(Ilíada, I.231)

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domingo, janeiro 25


Eis um poema de Torga
que conheci e recolhi
n'aluaflutua :);

mostra bem
o modo vero
de comunicar
e amar.

Terra Maninha

Se é um poema fraterno que pedis,
Arrancai-o de mim, escavando-lhe a raiz,
E plantai-o no vosso coração.

Nunca pegou nenhum? Tão infeliz
Era o terreno da plantação!



Miguel Torga
in Poesia Completa
Ed. D. Quixote, 2000

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domingo, janeiro 18

Sim, este ano celebra-se a Astronomia entre as nações!

E o que os astrónomos têm observado com os seus radio-telescópios
deixa-nos a todos atónitos com a imensidão do universo.


Já as explicações de como ele terá e estará a evoluir
deixam muito a desejar e são francamente
questionáveis: 96% do universo
ser matéria não-estelar,
não-atómica

é de bradar aos céus!
- passe a ironia :)

Mas eu gosto é de contrapor à grandeza do cosmos
a in-finita questionabilidade da res cogitans, nela

incluida a imensidão da 'res desiderandum',
à qual o universo pode mostrar
a sua olímpica indiferença

em todo caso, comparável ao nosso recíproco
alheamento pelo seu destino,
desde que inconforme
à nossa felicidade.


Exemplifico esse duelo

com
Um verso

Um verso. Nada mais que um verso cintinlante
contra o equilíbrio cósmico e a expansão do universo
na cauda do cometa mais errante
no coração do espaço e seu avesso
uma sílaba cantante
um verso.

Para além dos buracos negros e das linhas interestelares
um som no espaço
um eco pelos ares
um timbre um risco um traço.

Um som de um som: alquimia
de signos e sinais
não mais do que outra forma de energia
imagens espectrais
de um sol inverso
um ponto luminoso dos fractais
um verso.


Manuel Alegre
in Senhora das Tempestades
Ed. D. Quixote, 1998


Imagem e poema in aluaflutua

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domingo, janeiro 11


Man Ray, imagem in Modus Vivendi

O corpo nunca é triste;
o corpo é o lugar
onde o lume canta.
Só na alma a morte faz a casa.


Eugénio de Andrade

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segunda-feira, dezembro 29



Julgas que fizeste à Alice
Tudo o que não fizeste
Pequeno fingidor
De mundos não possíveis

O teu objectivo
Era fugir do inferno
Do reino do desejo e da atracção
Da sua enorme sedução
E só tu sabes
Se conseguiste ou não

Mas entretanto
Alice superou-te
E entre a paródia e o sonho
É ela quem subsiste
E a ti para sempre resiste


ana hatherly, A neo-Penélope

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