domingo, junho 14

Uma surpresa para
os que não conheçam:


Saíra Santo António do convento
a dar o seu passeio costumado
e a decorar num tom rezado e lento
um cândido sermão sobre o pecado.

E andando andando sempre repetia o seu
o seu divino sermão piedoso e brando
e nem notou que a tarde escurecia
que vinha a noite plácida baixando

E andando andando achou-se num outeiro
com árvores e casas espalhadas
que ficava distante do mosteiro
uma légua das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe
e fraco por haver andado tanto
sentou-se a descansar, o bom do monge
com a resignação de quem é santo.

O luar! um luar claríssimo nasceu
e num raio dessa linda claridade
o menino Jesus baixou do céu
e pôs-se a brincar com o capuz do frade

Perto, uma bica d'água sussurrante
juntava o seu murmúrio ao dos pinhais.
Um rouxinol ouvia-se distante,
o luar mais alto iluminava mais.

De braço dado para a fonte
vinha um par de noivos todo satisfeito.
Ela trazia ao ombro a cantarinha
Ele trazia o coração no peito.

Sem suspeitarem que alguém os visse
trocaram beijos ao luar tranquílo.
O menino porém ouviu e disse:
«Ó Frei António, o que foi aquilo?»

O Santo, erguendo a manga do burel
para tapar o noivo e a namorada
mentiu numa voz doce como o mel:
«Não sei que fosse, eu cá não ouvi nada.»

Uma risada límpida, sonora
vibrou em notas de oiro pelo caminho
«Ouviste, Frei António, ouviste agora?»
«Ouvi Senhor, ouvi... ah, eh ... é um passarinho!»

«Tu não estás com a cabeça boa.
Um passarinho! a cantar assim!»
E o pobre Santo António de Lisboa
calou-se embaraçado, mas por fim

corado como as vestes dos cardeais
achou esta saída redentora:
«Se o menino Jesus pergunta mais
faço queixa a sua Mãe, nossa Senhora.»

E voltando-lhe a carinha contra a luz
e contra aquele amor... sem casamento
pegou-lhe ao colo e acrescentou:
«Jesus, são horas... » e abalaram para o convento


Augusto Gil

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3 Comentários:

Às 14 junho, 2009 10:49 , Blogger Peter disse...

Recordando com prazer João Villaret.

Lembro-me dele recitando este poema, do qual não conhecia o autor.

 
Às 14 junho, 2009 19:48 , Blogger Meg disse...

Vasco,
Também para mim uma surpresa... mas ouvir o João Villaret foi uma delícia e ao mesmo tempo uma saudade que acordou.

Um abraço

 
Às 15 junho, 2009 18:20 , Blogger vbm disse...

:))

É realmente um poema melodioso
superlativamente valorizado
na voz e entoação
de João Villaret!

O poeta é mesmo Augusto Gil,
o autor do "Batem leve, levemente..."

:)

 

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