segunda-feira, dezembro 1



Não há como vê-lo
nesta noite sem luar —
estou deitada e desperta,
os seios ardendo em desejo
e o coração em chamas.


Ono No Komachi (834?-?)

Etiquetas: ,

segunda-feira, novembro 24


img in blog 'coisas minhas'

«Diz toda a Verdade mas di-la tendenciosamente –
O êxito está no Circuito
É demasiado brilhante para o nosso enfermo Prazer
A esplêndida surpresa da Verdade

Como o Relâmpago se torna mais fácil para as Crianças
Com uma amável explicação
A Verdade deve ofuscar gradualmente
Ou cada homem ficará cego –»


Emily Dickinson

Etiquetas: ,

terça-feira, novembro 11



«La vida es sueño y sueño de un sueño.» (Calderon)

Etiquetas: ,

sexta-feira, novembro 7



SEGREDO

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar


Maria Teresa Horta

Etiquetas: ,

terça-feira, setembro 30

fernando pessoa



«Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!»


:))

Etiquetas: ,

terça-feira, setembro 2


Mitsutani Kunishiro, Nu feminino (1930)

Desde que o meu corpo
foi esquecido por aquele
que prometeu vir,
não faço senão pensar
se esse corpo existe mesmo.

Ono No Komachi (834?-?)

Etiquetas: ,

domingo, agosto 10


Kunishiro Mitsutani, imagem in Modus Vivendi

Não posso dizer
das duas qual é qual
em seu esplendor:
a ameixeira florida ou
a lua da Primavera.

Isumi Shikibu (974?-1034?)

Etiquetas: ,

sábado, julho 26



ESPLANADA

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

manuel antónio pina

:)

Etiquetas: ,

sexta-feira, julho 11



A RAPARIGA INGLEZA, tam loura, tam jovem, tam boa
Que queria casar commigo...
Que pena eu não ter casado com ella...
Teria sido feliz
Mas como é que eu sei que teria sido feliz?
Como é que eu sei qualquer coisa a respeito do que teria sido
Do que teria sido, que é o que nunca foi?

Hoje arrependo-me de não ter casado com ella,
Mas antes que até a hypothese de me poder arrepender de ter casado com ella.
E assim é tudo arrependimento,
E o arrependimento é pura abstracção.
Dá um certo desconforto
Mas também dá um certo sonho...
Sim, aquella rapariga foi uma opportunidade da minha alma.
[ ]

:)

Álvaro de Campos, Vida e Obras do Engenheiro

Etiquetas: ,

terça-feira, junho 10


Este amor será
real ou um sonho apenas?
Como hei-de sabê-lo,
se a realidade e o sonho
existem sem existir?

Ono No Komachi (834?-?),
in "O Japão no Feminino I - Tanka - Séculos ix a xi",
organização e versão portuguesa Luísa Freira,
Lisboa, Assírio & Alvim, 2007

Etiquetas: ,

domingo, junho 8


Ernst Ludwig Kirchner (1912-13)

Aqui despi meu vestido de exílio
E sacudi de meus passos a poeira do desencontro

Sophia

Etiquetas: ,

terça-feira, maio 27



Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.

Eugénio de Andrade, «Matéria Solar»

Etiquetas: ,

segunda-feira, maio 26


.
- Isto disse o poeta -
.
Os dedos do amor esmagam
E deliram em seguida
Amo-te sivestre planta
amo-te fundo e o mundo
é o teu rosto de cânhamo
As mãos rainha minha
de um pajem de passagem
tocam em ti e abandonam-te
.
Toco-te eu da cicatriz ao ceptro
cheio de tacto e de talento lento
E com beijos de veneno venero-te
Soberana Madrepérola
Ouve esposa preciosa esposa extrema
.
Ouve-me em meu idioma de poema.
.
Carlos Edmundo de Ory, in
Herberto Helder, "Doze Nós Numa Corda"
Assírio & Alvim, Lisboa, 1997, p.42

Etiquetas: ,

domingo, maio 11


......O CONVITE À VIAGEM

...........Irmã, filha, escuta,
...........Pensa na doçura
......De irmos para lá viver, sim!
...........Amar à vontade,
...........Amar e morrer
......Nessa terra igual a ti!
...........Os húmidos sóis
...........Dos nevoentos céus
......Têm para mim os encantos
...........Assim misteriosos
...........Dos teus falsos olhos,
......Entre as lágrimas brilhando.

......Lá tudo é beleza e luxo
......É ordem, calma e volúpia.

......Móveis reluzentes,
...........Polidos plo tempo,
......Decorariam a câmara;
...........As mais raras flores
...........Fundindo os odores
......Ao vago aroma do âmbar,
...........Riquíssimos tectos,
...........Profundos espelhos,
......O esplendor oriental,
...........Tudo falaria
...........Com a alma em surdina
......A sua língua natal.

......Lá tudo é beleza e luxo,
......É ordem, calma e volúpia.

...........Vê nesses canais
...........Dormir essas naus
......Cujo humor é vagabundo;
...........É pra saciar
...........As tuas vontades
......Que vêm do fim do mundo.
...........Os sóis, já deitando-se,
...........Envolvem os campos,
......Os canais, toda a cidade,
...........Com oiro e jacinto;
...........E o mundo dormindo
......Numa quente claridade

......Lá tudo é beleza e luxo,
......É ordem, calma e volúpia.


(Baudelaire, As flores do mal)

Etiquetas: ,

sexta-feira, maio 9



Desejando vê-lo,
para ser vista por ele —
se ele ao menos fosse
o espelho onde me olho
e que olho cada manhã!

Isumi Shikibu (974?-1034), [i]in[/i] "O Japão
no Feminino I Tanka - séculos ix xi",
Assírio & Alvim, Lisboa, 2007, p.53

Etiquetas: ,

quarta-feira, maio 7


Imagem e comentário num post
de Modus Vivendi

«Não há diferença —
a borboleta nocturna
que se veio queimar,
e aqui este meu corpo
que o amor veio transformar.»

:)

Isumi Shikibu (974?-1034?), in "O Japão no Feminino
- I - Tanka - Séculos IX a XI" Organização e versão
portuguesa Luísa Freire, Assírio & Alvim,
Lisboa, 2007, p. 40.

Etiquetas: ,

domingo, abril 20



E está o Sol aqui, depois de uns dias
com o jardim obscurecido a beber sombra.

(fiama hasse pais brandão)

Etiquetas: ,

terça-feira, março 25



Lavoisier

Na poesia,
Natureza variável
Das palavras,
Nada se perde
Ou cria,
Tudo se transforma:
Cada poema, no seu perfil
Incerto
E caligráfico,
Já sonha outra forma.

(Carlos de Oliveira in "Sobre o Lado Esquerdo")

Etiquetas: ,

terça-feira, março 18

Posso continuar com ana hatherly?
Alguma ironia sobre o modo de
'apropriação' do in-finito?
Digam: sim! :)
Então, seja:



Era uma vez uma serpente infinita. como era infinita
não havia maneira de saber onde estava a sua cabeça.
de cada vez que se lhe tirava uma vértebra
não fazia falta nenhuma. podia-se mesmo
parti-la deslocá-la emendá-la.
ficava sempre infinita.

quem quisesse levar-lhe um bocado para casa podia pô-lo
na parede e contemplar um fragmento de serpente infinita.

:)
ana hatherly, 463 tisanas,
Quimera, 2006, # 68

Etiquetas: ,

terça-feira, março 11


«Era uma vez uma ausência
que andava em missão de viagem.

Quando chegava a uma encruzilhada
dava três voltas sobre si própria
para perder por completo
a noção do caminho
por onde viera

atingindo assim com regularidade
as regiões efémeras do esquecimento.


Depois regressava a casa.»

:)


ana hatherly, 463 tisanas,
Quimera, 2006, #72

Etiquetas: ,