conversas de xaxa
"Amar esta sombra que desliza e que é talvez já a presença que nos foge" (António Ramos Rosa)
segunda-feira, dezembro 1
segunda-feira, novembro 24

img in blog 'coisas minhas'
«Diz toda a Verdade mas di-la tendenciosamente –
O êxito está no Circuito
É demasiado brilhante para o nosso enfermo Prazer
A esplêndida surpresa da Verdade
Como o Relâmpago se torna mais fácil para as Crianças
Com uma amável explicação
A Verdade deve ofuscar gradualmente
Ou cada homem ficará cego –»
Emily Dickinson
«Diz toda a Verdade mas di-la tendenciosamente –
O êxito está no Circuito
É demasiado brilhante para o nosso enfermo Prazer
A esplêndida surpresa da Verdade
Como o Relâmpago se torna mais fácil para as Crianças
Com uma amável explicação
A Verdade deve ofuscar gradualmente
Ou cada homem ficará cego –»
Emily Dickinson
terça-feira, novembro 11
sexta-feira, novembro 7

SEGREDO
Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar
Maria Teresa Horta
terça-feira, setembro 30
terça-feira, setembro 2
domingo, agosto 10
sábado, julho 26

ESPLANADA
Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,
agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.
O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.
manuel antónio pina
:)
sexta-feira, julho 11

A RAPARIGA INGLEZA, tam loura, tam jovem, tam boa
Que queria casar commigo...
Que pena eu não ter casado com ella...
Teria sido feliz
Mas como é que eu sei que teria sido feliz?
Como é que eu sei qualquer coisa a respeito do que teria sido
Do que teria sido, que é o que nunca foi?
Hoje arrependo-me de não ter casado com ella,
Mas antes que até a hypothese de me poder arrepender de ter casado com ella.
E assim é tudo arrependimento,
E o arrependimento é pura abstracção.
Dá um certo desconforto
Mas também dá um certo sonho...
Sim, aquella rapariga foi uma opportunidade da minha alma.
[ ]
:)
Álvaro de Campos, Vida e Obras do Engenheiro
terça-feira, junho 10
domingo, junho 8
terça-feira, maio 27

Cala-te, a luz arde entre os lábios
e o amor não contempla, sempre
o amor procura, tacteia no escuro,
esta perna é tua?, é teu este braço?,
subo por ti de ramo em ramo,
respiro rente à tua boca,
abre-se a alma à língua, morreria
agora se mo pedisses, dorme,
nunca o amor foi fácil, nunca,
também a terra morre.
Eugénio de Andrade, «Matéria Solar»
segunda-feira, maio 26

.
- Isto disse o poeta -
.
Os dedos do amor esmagam
E deliram em seguida
Amo-te sivestre planta
amo-te fundo e o mundo
é o teu rosto de cânhamo
As mãos rainha minha
de um pajem de passagem
tocam em ti e abandonam-te
.
Toco-te eu da cicatriz ao ceptro
cheio de tacto e de talento lento
E com beijos de veneno venero-te
Soberana Madrepérola
Ouve esposa preciosa esposa extrema
.
Ouve-me em meu idioma de poema.
.
Carlos Edmundo de Ory, in
Herberto Helder, "Doze Nós Numa Corda"
Assírio & Alvim, Lisboa, 1997, p.42
domingo, maio 11

......O CONVITE À VIAGEM
...........Irmã, filha, escuta,
...........Pensa na doçura
......De irmos para lá viver, sim!
...........Amar à vontade,
...........Amar e morrer
......Nessa terra igual a ti!
...........Os húmidos sóis
...........Dos nevoentos céus
......Têm para mim os encantos
...........Assim misteriosos
...........Dos teus falsos olhos,
......Entre as lágrimas brilhando.
......Lá tudo é beleza e luxo
......É ordem, calma e volúpia.
......Móveis reluzentes,
...........Polidos plo tempo,
......Decorariam a câmara;
...........As mais raras flores
...........Fundindo os odores
......Ao vago aroma do âmbar,
...........Riquíssimos tectos,
...........Profundos espelhos,
......O esplendor oriental,
...........Tudo falaria
...........Com a alma em surdina
......A sua língua natal.
......Lá tudo é beleza e luxo,
......É ordem, calma e volúpia.
...........Vê nesses canais
...........Dormir essas naus
......Cujo humor é vagabundo;
...........É pra saciar
...........As tuas vontades
......Que vêm do fim do mundo.
...........Os sóis, já deitando-se,
...........Envolvem os campos,
......Os canais, toda a cidade,
...........Com oiro e jacinto;
...........E o mundo dormindo
......Numa quente claridade
......Lá tudo é beleza e luxo,
......É ordem, calma e volúpia.
(Baudelaire, As flores do mal)
...........Irmã, filha, escuta,
...........Pensa na doçura
......De irmos para lá viver, sim!
...........Amar à vontade,
...........Amar e morrer
......Nessa terra igual a ti!
...........Os húmidos sóis
...........Dos nevoentos céus
......Têm para mim os encantos
...........Assim misteriosos
...........Dos teus falsos olhos,
......Entre as lágrimas brilhando.
......Lá tudo é beleza e luxo
......É ordem, calma e volúpia.
......Móveis reluzentes,
...........Polidos plo tempo,
......Decorariam a câmara;
...........As mais raras flores
...........Fundindo os odores
......Ao vago aroma do âmbar,
...........Riquíssimos tectos,
...........Profundos espelhos,
......O esplendor oriental,
...........Tudo falaria
...........Com a alma em surdina
......A sua língua natal.
......Lá tudo é beleza e luxo,
......É ordem, calma e volúpia.
...........Vê nesses canais
...........Dormir essas naus
......Cujo humor é vagabundo;
...........É pra saciar
...........As tuas vontades
......Que vêm do fim do mundo.
...........Os sóis, já deitando-se,
...........Envolvem os campos,
......Os canais, toda a cidade,
...........Com oiro e jacinto;
...........E o mundo dormindo
......Numa quente claridade
......Lá tudo é beleza e luxo,
......É ordem, calma e volúpia.
(Baudelaire, As flores do mal)
sexta-feira, maio 9
quarta-feira, maio 7

Imagem e comentário num post
de Modus Vivendi
«Não há diferença —
a borboleta nocturna
que se veio queimar,
e aqui este meu corpo
que o amor veio transformar.»
:)
Isumi Shikibu (974?-1034?), in "O Japão no Feminino
- I - Tanka - Séculos IX a XI" Organização e versão
portuguesa Luísa Freire, Assírio & Alvim,
Lisboa, 2007, p. 40.
domingo, abril 20
terça-feira, março 25
terça-feira, março 18
Posso continuar com ana hatherly?
Alguma ironia sobre o modo de
'apropriação' do in-finito?
Digam: sim! :)
Então, seja:

Era uma vez uma serpente infinita. como era infinita
não havia maneira de saber onde estava a sua cabeça.
de cada vez que se lhe tirava uma vértebra
não fazia falta nenhuma. podia-se mesmo
parti-la deslocá-la emendá-la.
ficava sempre infinita.
quem quisesse levar-lhe um bocado para casa podia pô-lo
na parede e contemplar um fragmento de serpente infinita.
:)
ana hatherly, 463 tisanas,
Quimera, 2006, # 68
terça-feira, março 11

«Era uma vez uma ausência
que andava em missão de viagem.
Quando chegava a uma encruzilhada
dava três voltas sobre si própria
para perder por completo
a noção do caminho
por onde viera
atingindo assim com regularidade
as regiões efémeras do esquecimento.
Depois regressava a casa.»
:)
ana hatherly, 463 tisanas,
Quimera, 2006, #72











