quarta-feira, outubro 24

O PORTO: O MORRO E O RIO - 13º EPISÓDIO: O RIO

Se a Sé foi o coração do Porto, onde o descampado de há dez séculos germinou uma grande cidade, o rio foi o seu pulmão, por onde o Porto respirou, se abriu e desenvolveu.
O Morro e o Rio disseram onde era. O Portuense foi dizendo quando e como havia de ser. No Morro viveu. Com o Rio conviveu, com carinho e amizade como se por inteiro lhe pertencesse, desculpando-lhe as birras e maus humores, reconhecendo a dificuldade do seu percurso, tanto ou maior que a vida da própria cidade, adivinhando o seu próximo encontro com o mar, palco de dramas e naufrágios sucessivos.

Mas foi por aí que o Porto se ligou ao Mundo. Fácil ou difícil, foi por essa barra estreita que entraram os Cruzados, que Pedro Pitões, em Pena Ventosa, incentiva a conquistar Lisboa. E foi por ali, séculos passados, que saíram os barcos, com homens e mantimentos, rumo a Lisboa também, desta vez com o auxílio possível ao ainda Mestre de Aviz, cercado pelas tropas de Castela.
É ainda por esta barra, 450 anos depois, que numa operação desesperada as forças liberais rompem o cerco - sim, o cerco do Porto de 1832/33- desembarcam no Algarve, para dias depois entrarem em Lisboa, consagrando a vitória de D. Pedro IV.


Mas há a outra história, a do dia a dia, sem datas nem reis, em que a guerra é bem outra. Mas onde também a vida se joga, porque o rio de amigo passou a carrasco, cobrando o seu preço sem pena nem dó.
Com a zona ribeirinha como local de trabalho onde tudo converge, da estiva aos estaleiros, da tripulação do barco às hospedarias e a todos os meios de transporte, é o rio que dinamiza a cidade, que cria ao portuense o amor ao comércio, o gosto pelo risco, o espírito empreendedor. Mas é toda a região norte que também empurra, com os seus produtos que é preciso escoar pela barra fora; e os outros, de que carece e que vai receber na volta.
E a população do Morro extravasa a Cerca Velha; preenche mais tarde o espaço das Fernandinas; e hoje já mal se lembra que a sua Torre dos Clérigos ficava de fora...

Atravessar o Rio, ligando as duas margens, permitindo o trânsito de pessoas e coisas, foi desde sempre o terrível desafio colocado ao habitante do morro. Mas se por aqui passava a Via Romana, se Calem e Portus se situavam por estas bandas, então a passagem mais simples era mesmo esta – e daí derivou a localização de tudo o resto.
Foi preciso esperar por 1806 para haver uma ponte das barcas com carácter permanente: nasceu com má sina; três anos depois, 29 de Março, 4ª feira de cinzas, uma multidão alucinada, fugindo de Soult, era engolida pelo Rio, desta vez inocente. A tragédia ficou registada para sempre: o desastre da Ponte das Barcas.
1843 : A Ponte Pênsil ; 1886 : A Ponte de D. Luís. As duas margens ligadas, finalmente, por uma ponte que ainda hoje nos orgulha.


ANO : 2007

O Morro - A velha ponte de D. Luís, maravilha de resistência e harmonia, adaptou o tabuleiro superior ao metro e mantém o inferior, como antigamente, para pessoas e viaturas, garantindo o trânsito local entre as margens vizinhas.
Arrábida, Infante e Freixo encarregam-se de tudo o mais, retirando do Morro o movimento febril que até 1963 (inauguração da Arrábida) a Ponte de D. Luís, sozinha, garantia.
O Bispo continua a viver na zona onde sempre teve a residência, muito mais respeitado que nos tempos em que era Senhor da Cidade.
O Rio - Aquele barra não permitia mais nada.
O porto de Leixões (1895) esvaziou a Ribeira que, lentamente, se converteu ao turismo, como o próprio Rio que algumas barragens domesticaram.
O Morro e o Rio
Dois grandes Senhores.
Reformados? Os grandes Senhores não se reformam. Nem morrem.


Oh velho tristonho, de cara enrugada
Quem és afinal?
Eu sou este morro, ventoso, rochoso
Com porta fechada se alguém não me agrada
Mas sou Portugal.

Andei pelo mundo, já fui marinheiro
Em barco de vela.
Lutei com D. Pedro, João o Primeiro
Mas não por Castela

O tempo do Bispo foi duro p'ra mim
Então disse não
Mais vezes que sim.

Da Corte não gosto, ao fim e ao cabo
Que fiquem lá longe, que vão p´ro diabo

Teimoso e sisudo. Pois é. Sou assim.


E tu, Rio Douro, que vens das Espanhas
Ninguém te parou?
Eu não me detenho, conquisto sozinho,
Descubro o caminho perfuro as entranhas
Cheguei, aqui estou.

Custoso percurso, difícil entrada
Nas águas do mar.
Servi de fronteira, servi como estrada
Com pouco a cobrar.

Embora não saibam e tal não pareça
Se o Morro foi Porto
A mim me agradeça.

Porque eu fui a via que trouxe o progresso
Mas nada vos peço nem nada mais digo.

Fui bruto por vezes. Mas sou vosso amigo.


F I M

(Fernando Novais Paiva)


NOTA FINAl

Chegados ao fim deste percurso, começado a descrever a 28 de Dezembro do ano passado, cumpre-me agradecer os diversos comentários, geralmente motivadores, que foram sendo publicados no decorrer dos episódios. Optei por só agora o fazer, de forma colectiva, para não cair na situação desagradável de responder a uns, ignorando outros - tanto mais que não foram postas questões que aconselhassem esclarecimento directo.
Para o meu amigo Peter aí vai um abraço. Sem o seu convite não teria tido o prazer de escrever estes episódios, na base do vídeo que o meu tempo livre me estimulou a fazer.
Algum trabalho também teve a preparar a sua publicação. Mas fê-lo com gosto. Como com gosto vive a gestão diária deste blog.
Aos outros dois "proprietários" um abraço também. Em certa medida fui um intruso que gozou da vossa anuência.

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domingo, setembro 30

O PORTO: O MORRO E O RIO - APENDICE Nº 2: TRES FILHAS EM CELANOVA

Filipa, preferida à meia-irmã Catarina, encontrava-se resguardada no Mosteiro de Celanova, ali pertinho, a meio caminho de Orense (Episódio nº 7)

Quem entrar na Galiza, pelo Gerez ou Lindoso, a caminho da velha cidade de Orense, vai encontrar, a 30 ou 40 km da fronteira, a povoação de Celanova, célebre pelo seu antigo Mosteiro de S. Salvador, fundado por S. Rosendo em 936. Festeja-se agora o Ano Jubilar (907 - 2007) em que se cumprem 1100 anos do nascimento do Santo, curiosamente com berço na zona de Santo Tirso, hoje terras de Portugal.
Igreja de grandes dimensões, planta em cruz latina de três naves, magnífico retábulo, dois coros e órgão, tudo se conjuga para celebrações religiosas e concertos, em que o público mistura devoção com o prazer pelo espectáculo. O mosteiro desenvolve-se na base de dois claustros: um grande, processional, barroco do Séc. XVI, contíguo à Igreja; outro, tipo balcão, terminado em 1722, neoclássico, que possibilita o acesso às celas situadas entre pisos, popularmente conhecido por “poleiro”.


Em fins de 1386, dia 1 de Novembro, o mosteiro de então acomodava quatro hóspedas distintas, vindas há pouco de Santiago. Apesar de ser dia de finados, olhos e ouvidos estavam dirigidos para Portugal, não para os lados da Serra de Xurés mas para uma pequena terra desconhecida, Rio de Mouro, junto ao Rio Minho, entre Monção e Melgaço.
Aí, o Rei de Portugal, D. João I, acordava com o Duque de Lencastre a forma de fazer guerra a Castela, inimiga comum, depauperada pelo desastre de Aljubarrota. Mas dizia-lhe também qual das suas filhas, alojadas em Celanova, tinha escolhido para sua Rainha.


João de Gand, quarto filho de Eduardo III de Inglaterra, contraíra o seu primeiro matrimónio em 1359, com Branca, falecida dez anos depois e de quem herdara o Ducado de Lencastre. Filipa e Isabel, 26 e 22 anos, frutos deste casamento, acompanhavam o pai, mas só a mais velha estava em Celanova; a outra, já com segundo marido e em adiantado estado de gravidez, achara mais prudente ficar em Santiago.
João, agora Duque, só fica viúvo durante dois anos: em 1371 casa com Constança, filha de Pedro I de Castela, sua herdeira na ausência de descendentes varões. E é nessa qualidade que procurava defender os seus direitos após a morte do pai, assassinado pelo seu meio-irmão Henrique de Trastâmara. Catarina, agora com 14 anos, filha do casal, aguarda também em Celanova notícias de Rio de Mouro.
A terceira filha alojada no mosteiro tem a idade de Filipa. Mais uma meia-irmã, esta fora do matrimónio, desporto muito em voga na época e que o Duque praticava com mestria. Chama-se Branca e já é casada...
Constança, madrasta e mãe, também estava atenta. Só duas podem ser escolhidas. Teria preferências?

As guerras com Castela, envolvendo D. Fernando, bem como o Tratado de Windsor desse mesmo ano de 86, constituíam uma boa base de cooperação que uma aliança de sangue devia garantir.
O Duque desembarca na Corunha em Julho, passeia até Santiago e Orense, combina as guerras e casamento de Filipa com D. João e, já no fim do ano, manda a filha para o Porto com comitiva real. Desagradado com os atrasos, ao que se julga, não assiste nem às bênçãos, a 2 de Fevereiro, nem às bodas, quinze dias depois. E já em Bragança passa um Inverno rigoroso que lhe reduz o efectivo a 1.200 ingleses, um terço dos que tinha trazido.
Em meados de Março agrupa-se o exército invasor, com a chegada de 9.000 homens de armas comandados por D. João, acompanhado de sua mulher, como que prolongando uma lua-de-mel que tinha sabido a pouco. Cumprimentos a pai e madrasta, adeus ao marido e lá vai Filipa agora para Coimbra, já grávida, esperar mais uma vez por D. João, enquanto este se dá ao luxo de invadir Castela, ainda não tinham passado dois anos de Aljubarrota. Bonito.

Mas D. João, o de Castela, lambia ainda as feridas enquanto continuava a dar tratos à imaginação para tentar perceber por que não era Rei de Portugal e dos Algarves. Fugindo sempre à batalha campal, forçando uma guerra de cercos e de pequenas escaramuças que a nada conduziam, perdeu uma soberana oportunidade de melhorar os seus níveis de auto estima, considerados já nitidamente alarmantes.
Ao fim de 10 semanas as tropas regressavam a Portugal por Almeida.

Numa guerra sem vencedor no terreno, quem ganhou e quem perdeu?

D. João de Castela, ao passar de invasor a invadido, não ficou com razões para sorrir. Três anos depois caiu do cavalo e morreu.

D. João de Portugal cumpriu o contrato com o sogro e levou a guerra a casa do inimigo. No regresso, já a caminho de Coimbra, em Paços de Curval, Terra de Santa Maria, ia morrendo de febres. Dª Filipa, com o susto, abortou.

O Duque estava a chegar a Trancoso e já recebia emissários a propor-lhe tréguas, firmadas com o casamento da filha Catarina (14 anos) com Henrique III (7 anos).
Mas a guerra ficou-lhe cara, a bolsa vazia e a mulher não gostou: não seria ela a sentar-se na cadeira do trono.

Filipa e Catarina sentaram-se, e bem, cada uma na sua. As duas venceram.
Filipa ganhou ao ser escolhida por um Rei. E continuou sempre a ganhar.
Catarina começou logo a perder para a irmã, serviu de moeda para secar as pretensões da mãe e deram-lhe para marido um miúdo de sete anos, que a história cognominou de El-Doliente. Sete anos depois começou a ganhar: casou, foi Rainha, enviuvou e morreu como regente em nome de seu filho D. João II.

Camões não se esqueceu das duas:

Dar os Reis inimigos por maridos
Às duas ilustríssimas Inglesas
Gentis, fermosas, ínclitas princesas (Lus. IV, 47)

E as duas filhas casadas?
Branca teve razões para chorar: o marido, Thomas de Morieux, um dos comandantes do exército do pai, morreu em Castela. Recebeu a notícia em Coimbra, onde aguardava o fim da guerra e fazia companhia a Filipa.
Isabel, que já ia no segundo casamento, efectuou ainda um terceiro. Por uma questão de coerência, o consorte chamou-se sempre João, como o pai e o cunhado. Não correu riscos de troca de nomes, principalmente em momentos de maior intimidade.

D. João, o nosso, soube escolher.
Filipa, mais que uma época, marcou a História.

(Fernando Novais Paiva)

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sábado, setembro 15

O PORTO: O MORRO E O RIO - 12º EPISÓDIO: VERDADE OU MENTIRA?

E agora, que vamos deixar o morro e iniciar a parte final deste percurso, voltamos a percorrer a Rua D. Hugo, envolta sempre num clima de tranquilidade e respeito, como se nada tivesse a ver com todo aquele emaranhado de outras ruas por onde temos andado. As casas que constituem o seu lado esquerdo fazem logo a diferença, como muito diferente será a classe social dos seus moradores. Não é a Sé da Rua Escura, das Aldas ou dos Pelames; mas o sentimento é igualmente forte: esta Rua não podia estar noutro sítio senão aqui.



A capela de Nossa Senhora das Verdades, particular e mal conservada, faz esquina com as escadas que nos irão conduzir ao Barredo. Faria também a delícia de pintores, se algum resolvesse passar por estes lados: teriam à disposição um magnífico cenário de cinco estrelas.
Mas por aqui não passa ninguém, salvo os moradores das poucas casas que ladeiam as escadas e algum turista mais afoito, com calçado apropriado, que sinta a curiosidade de descobrir o caminho mais curto – e mais antigo – entre o morro de Pena Ventosa e o Rio Douro.



Por aqui se localizava a outra Porta da Cerca Velha – a porta das Mentiras. Assim se chamava este pequeno lugar, alcandorado na vertente sul, como que isolado do resto da povoação a que estava encostado, mas muito cá em cima para fazer parte da zona ribeirinha.
Mentiras, porquê? Promessa não cumprida? Utilização abusiva de algum título ou mercê? Má-língua sobre as virtudes da filha da vizinha, encontrada à noite com um rapaz do Codeçal? Ninguém sabe.
Mas tudo se resolveu com a imagem de Nossa Senhora das Verdades, colocada num nicho da muralha, guardada hoje na capela com o seu nome e que teve o mérito (pode tratar-se até de milagre) de dar uma volta de 180 graus a um topónimo tão pouco prestigiante.

E o homem cansado, mais rugas que idade
Voltou a sorrir e deu o recado:
Se queres a verdade, não podes mentir.


Alguns metros abaixo, um arco pitoresco que nada tem com a Cerca Velha: é o resto do aqueduto que levava a água das Fontaínhas para os Grilos.
À beleza daquele recanto contrapõe-se, logo a seguir, o espectáculo insólito de uma rua caricata, com casas em adiantado estado de ruína, estabelecendo a ligação entre duas escadas: as do Barredo com as do Codeçal, que de Santa Clara descem até ao tabuleiro inferior da Ponte de D. Luís.
Sobrepondo-se a estas, de forma avassaladora e incontornável, marcando impiedosamente o cenário cinzento e pesado que rodeia toda aquela zona, o tabuleiro superior, passando-lhes por cima, materializa, ali, o preço da ligação histórica à outra margem (1). Segundo teto, indesejado, dos prédios a quem protege da chuva e priva do sol, proporciona igualmente aos seus moradores um inquietante ruído de fundo - dantes, contínuo, hoje com o horário do metro - impossível de evitar e penoso de ter por companhia.




Eu gosto de ser quem sou
Com sol, com chuva ou com vento.
Aqui vivo e aqui estou
Não choro nem me lamento

Exteriores à Muralha Fernandina, correm as escadas dos Guindais, mais afastadas e tristemente mais conhecidas, local de derrocadas que a inclinação do terreno tanto favorece. Às desgraças impostas pela Natureza, acrescente-se o aparatoso desastre, em Junho de 1893, ocorrido com o seu elevador, em funcionamento apenas há dois anos, o que desmotivou qualquer nova experiência durante um século.
Agora está lá um novo. Mau era que ao fim de tanto tempo não houvesse tecnologia e vontade para pôr outro a funcionar, com a segurança que se impõe, poupando o desgaste dos seus 293 degraus.


Verdades/Barredo, Codeçal e Guindais: a rede das 3 escadas que durante séculos estabelecia a ligação da cidade alta à zona ribeirinha.
Antes de haver ruas, havia degraus que homens e animais subiam e desciam, numa incessante necessidade de ligação à maior de todas as estradas: o Rio Douro.
Sem o Rio não tinha havido Porto.

(1) - Já referida com a abertura da Av. Da Ponte - Epis. 10 .

E o próximo episódio será o último deste percurso. Olhando para o Rio e ouvindo o que ele nos diz.

(continua)

(Fernando Novais Paiva)

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sexta-feira, julho 20

O PORTO: O MORRO E O RIO - 11º EPISÓDIO: CALE



Perpena, general Romano de Sertório - a quem assassinaria uns anos mais tarde - terá ocupado Cale em 74 antes de Cristo. Não devia ter sido feito militar de grande monta, nem pela importância do povoado, nem pelas implicações da conquista - e, assim, o mais natural seria dar-se ao acontecimento a importância reduzida que teve naquela época. É o que faz Salústio, historiador, falecido 40 anos depois, com uma brevíssima referência a este sucesso - e mesmo assim foi preciso esperar quatro séculos, mais ano menos ano, para se saber o que ele disse ( 1 ).
É a primeira vez que se ouve falar de Cale, mas só essa vez chegou para muita tinta fazer correr sobre o significado da palavra e a sua localização.
Por azar nosso, dos historiadores e do próprio Salústio, Cale vem situada na Gália - e por lá teria ficado se um notável Holandês, Gerard Voss (1577-1649) não procurasse demonstrar que se havia tratado de um lapso e que onde está Gália se devia ler Calécia.
De facto, as incursões militares de Perpena decorreram pelo Noroeste Peninsular (levaram-no até ao Rio Lima) pelo que a correcção de Voss, com tantos séculos de atraso, foi aceite pela generalidade dos historiadores.
Temos assim Cale situado na Calécia, o que a coloca a Norte do Douro, dado o rio fazer fronteira com a Lusitânia Romana.
Azar dos que defendiam Cale em V.N. de Gaia.
Um abraço para a Galiza, herdeira da Calécia, por ter acolhido o topónimo Cale, de um minúsculo povoado junto ao seu limite sul, para com ele formar o seu próprio nome.
Por muito inacreditável que pareça, esta foi a base para o baptismo de toda a faixa ocidental da Península.


O itinerário de Antonino, finais do século III, é um documento de compilação das vias romanas. Grandes Romanos! Deixaram pontes, estradas, legislação, costumes, uma língua para nos entendermos...Abençoada ocupação.
E é aqui que voltamos a ter notícias: na via Olissipo – Bracara Augusta, uma espécie de IP1 daquela época, numa extensão total de 244 milhas, Calem vem mencionada como a penúltima das suas estações. A análise das distâncias entre estas permite situá-la na vizinhança do Douro.
Para alguns, a Cale do Perpena nada tem a ver com a Calem de Antonino; para a maior parte, todavia, estabeleceu-se um certo acordo: trata-se de uma povoação pré-romana, de nome celta (Kal = pedra, rochedo, como hipótese mais aceite) situada a norte do morro de Pena Ventosa. Mais concretamente: entre os locais onde hoje se situam a estação de S. Bento e a Sé.



Dúvida parece não haver quanto à localização do porto fluvial que servia Cale.
Quando voltar à Praça da Ribeira – porque você já lá foi - repare na Rua de S. João, a que vem a descer, do seu lado esquerdo. Sim, você está de costas para o Rio.
Pense que por ali corria o tão falado Rio de Vila, prestes a encontrar o Rio Douro, pouco mais ou menos no sítio onde você está. Esse ponto de encontro, possivelmente, reunia condições mais favoráveis à acostagem de embarcações, já que as margens de granito das redondezas não deviam ser muito fofas para a manobra.


Repare agora na estreitíssima Rua dos Mercadores, a do seu lado direito, por onde dantes a Via Romana retomava o seu caminho na direcção de Bracara Augusta. Não tinha muito espaço para se alargar: de um lado, o morro; do outro o Rio de Vila; subia por ali, chegava à Rua Escura de hoje (ainda não havia Cerca Velha) e virava a Norte, passando pela estação de Calem.
Pois foi aí, onde você está, que tudo começou. O Portus (romano) de Cale (celta) deu origem a Portucale e o resto já se sabe. Por isso, esta história é também a sua história, a que não vai ficar indiferente.

(1) - Citação do gramático Sérvio, séc. IV, inserida num comentário sobre Virgílio.

No próximo Episódio (o penúltimo), vamos sair de Cale em direcção ao Rio.

(continua)

(Fernando Novais Paiva)

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domingo, julho 1

O PORTO: O MORRO E O RIO - 10º EPISÓDIO: É O GRANITO, SENHOR!



Não é gosto nem desgosto
Nem ventura ou desventura
Não há nome mais bem posto
Que o nome da Rua Escura

Se agora, com o arranjo do Terreiro, a parte de cima já recebe sol directo, antes disso havia mesmo de ser bonito! De tal modo, que ao contrário de tantas outras ruas e ruelas, a esta ninguém ousou mudar o nome. Rua Escura era, rua Escura ficou. Mantendo toda a carga de um passado onde nem as histórias eram bonitas nem o cheiro era de cravos. Como que concentrando só em si as angústias e misérias de um bairro inteiro.

Cruz do Souto - o grande entroncamento do século XIII, sem direito a desnivelamento ou rotunda.
Pelames - varandim debruçado sobre Mousinho da Silveira, cobrindo o Rio de Vila que tanto trabalho dera, desde que Dª Teresa o designara por canalem maiorem (que me perdoem os Bispos da época, tão discordantes desta interpretação).



Mesmo ali por baixo era o Largo do Souto, tomando depois o nome da elegante capela de S. Roque, oitavada, encostada exactamente a este rochedo. Capela e Largo, incompatíveis com o traçado da nova Rua, deixaram como única recordação este bocado semicircular do seu limite nascente. Estávamos no ano de 1877.

E chegamos ao vértice do ângulo formado pelas duas grandes vias que rasgaram o velho coração da cidade, Mousinho da Silveira e Avenida da Ponte. Ali mesmo, na praça Almeida Garrett, antigo Largo das Freiras, à frente do desaparecido Convento de S. Bento de Avé Maria que durante quase quatro séculos constituiu uma notável referência para a cidade.

É lembrança de um Convento
Em frente dos padres Lóios.
Ficou o nome, S. Bento
Numa estação de comboios.

E então eu disse:
1518 - Foi D. Manuel I que o fundou. E logo a seguir mandou abrir a Rua de Santa Catarina das Flores. Foi um mosteiro muito ligado à vida da cidade. Demolido em 1894 para dar lugar à estação de S. Bento.
Lembra-se das antigas notas de 100$00? Não era a estação de S. Bento, não senhor...Era a fachada principal do Mosteiro virada para a Rua do Loureiro.



Do outro lado, do lado Norte, o Convento era limitado pelo pano da Muralha Fernandina que descia desde a Batalha, junto à actual Rua da Madeira.
E lá no fundo, em frente à igreja dos Congregados, a muito movimentada Porta dos Carros.

O outro lado do ângulo é esta Avenida da Ponte. Sempre em obras. Inacabada, sim, como tudo o que está em obras. Mas, o que é pior, inacabada sem a gente perceber como é que vai acabar.
Havia que se ligar o centro da cidade ao tabuleiro superior, pois não era mais possível continuar a fazê-lo pela Rua do Loureiro-Cimo de Vila. E assim se esventrou uma parte do coração do velho Porto, como uma auto-estrada que se abre pelo meio de uma aldeia.

Possivelmente foi a melhor solução. Mas hoje, que o tabuleiro superior deixou de ser a principal porta de acesso à cidade e o trânsito, por ali, se reduziu a nada, não será possível encontrar um enquadramento menos doloroso do que toda aquela coisa que, na verdade, não é coisa nenhuma?

Já não há quem se lembre do velho Largo do Corpo da Guarda, - nem ninguém quer reconstruí-lo ali no meio da Avenida. Nem as ruelas e recantos que se eliminaram, paraíso de gatos fedorentos sem o sentido de humor dos actuais. E se deste lado, da Sé, a sua imponência disfarça uma escarpa desajeitada, a modos que um campo de cultivo interrompido, do outro lado... parece a antiga pedreira da Trindade, encostadinha ao Hospital, rebentada aos bocados por métodos barulhentos.

É o granito, Senhor! O granito daquelas pedras, mas que também faz parte de nós, dos nossos corações, das nossas almas. E que tem que aparecer com a dignidade do granito, como tudo que é encosta por este morro fora!

Vim ao Mundo por aqui.
Não pretendo ser bonito.
Quero ser como o granito
Desta terra onde nasci.

E talvez fosse exactamente por aqui, ao lado deste morro de Pena Ventosa, acima da estação de S. Bento de hoje, pelo meio dessas pedreiras por onde já houve becos e vielas, que teria existido outrora uma Cividade, a celebrada CALE, que já fez correr rios de tinta, seduziu historiadores de mérito e aguçou a curiosidade de muitos.

E é disso que vamos ousar falar.

(continua)

(Fernando Novais Paiva)

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domingo, junho 3

O PORTO: O MORRO E O RIO. 9º EPISÓDIO: E QUEM É QUE MANDA AQUI ?

Virado a Sul, não vá o diabo tecê-las, Vímara Peres parece mais alto que a Torre dos Clérigos. Sente as costas bem protegidas: hoje, por uma grande cidade, com identidade e carácter; em 868, quando aqui chegou, por um território reconquistado desde as Astúrias, consolidado pelo Reino de Leão.

Andando para trás, antes de árabes e visigodos, vamos encontrar os suevos e o seu efémero reino, com capital em Braga.
Pelos vistos gostaram deste morro: ocuparam-no em 417, construíram a Cerca Velha aproveitando o que restava da românica, e levaram a sua amabilidade ao ponto de fazerem ascender Portucale a sede episcopal. Em 569, no Concílio de Lugo, vem registada uma nova terra: Portucale Castrum Novun.
Que tal uma evocação de agradecimento aos simpáticos suevos por toda essa gentileza?
Ali, ao lado do Vímara?

Não se sabe bem porquê, mas a primitiva sede episcopal do território, que depois correspondeu à diocese do Porto, situava-se na paróquia de Magnetum, freguesia de Meinedo, concelho de Lousada. Muito possivelmente uma situação transitória, uma vez que em 589, no III Concílio de Toledo, a diocese de Portucale já é representada por um Bispo, Constâncio de nome.
Daí até à invasão árabe, a civitas portucalense teve bispos residenciais, marcando presença regular nos concílios de Toledo, capital do reino visigótico.

Quando, em 716, os muçulmanos de Abdelaziz passaram por aqui, em passeio pouco amistoso, não sentiram necessidade de garantir a ocupação do burgo, mantendo-se o território abandonado, sem qualquer tipo de força política. Durante 150 anos, ninguém mandou em ninguém: a cidade estava deserta!


Assim, em 868, Vímara Peres, ao serviço de Afonso III de Leão, não precisou de desembainhar a espada para reocupar Portucale. Chama-se a isso tomar de presúria, designação que correspondia à apropriação de terras e instalações tomadas a muçulmanos durante a Reconquista Cristã.
Afonso III encara de frente o problema do repovoamento de toda a região, mas faz de Guimarães o centro de actividade política, onde Vímara Peres acaba os seus dias dando o seu nome, Vimaranis, à localidade que depois o aportuguesou para Guimarães. Quem lá nasceu, no entanto, guardou a palavra vimaranense até agora.

Daí em diante, até 1071, os Condes de Portucale, descendentes do presor, continuando a residir em Guimarães, representam uma linha de poder. Nascera o primeiro Condado que resistiria cerca de 200 anos às contingências da relação de forças e de interesses dos senhores do noroeste peninsular.
Na batalha de Pedroso, perto de Braga, o último Conde, Nuno Mendes, encontrou a morte e a derrota às mãos do Rei da Galiza: o primeiro Condado Portucalense tinha acabado e as suas terras passaram a fazer parte daquele Reino.



Mas não foi por muito tempo. Vejamos o que escreve o professor José Mattoso. Não é possível dizer melhor:
"Em data incerta, mas provavelmente em 1096, o Rei Afonso VI de Leão e Castela, preocupado com a defesa da área ocidental do seu reinado contra as crescentes investidas dos Almorávidas, entregou o governo dos antigos Condados de Portucale e Coimbra, destacados da Galiza, a Henrique de Borgonha, a título hereditário e deu-lhe em casamento a sua filha ilegítima Teresa."
"Este acontecimento marca, com grande precisão, o aparecimento do Condado Portucalense como entidade política. A partir dele constituiu-se o futuro Reino de Portugal."
"A separação entre Portugal e Galiza e a vassalagem directa de Henrique a Afonso VI foram dois factores decisivos para a futura independência de Portugal."

E, por essa altura, quem é que mandava aqui? Este pequeno extracto de Armindo de Sousa (In História do Porto - Tempos Medievais) responde à questão: " Quando D. Hugo chegou ao Porto, encontrou uma comunidade vicinal dotada de auto-governo, isto é, uma sociedade civil revestida de autonomia no que respeitava à gestão do seu espaço, à prossecução dos seus interesses e à resolução dos seus conflitos."

Depois, em 1120, quando Dª Teresa faz doação do couto, os Bispos passam a ser os novos Senhores de uma Cidade que, pelos vistos, não estava habituada a ter Senhores. E, quando os teve, era fora de portas.



Como fora de portas - agora por ordem do Bispo - ficaram, durante séculos, cavaleiros e quejandos, o que constituiu um privilégio que o portuense soube defender e prolongar, muito para além do senhorio episcopal. Que o diga Rui Pereira, Senhor da Terra de Santa Maria, a fugir, chamuscado e apressado, da casa onde teimava pousar para além do permitido.

No próximo episódio, sem pousar, vamos ver o que falta da vertente Norte do Morro.

(continua)
(Fernando Novais Paiva)

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sexta-feira, maio 18

PORTO: O MORRO E O RIO - 8º EPISÓDIO: VANDOMA



Na solidão da aldeola serrana (ou terá sido lá pelo meio do Alentejo?) o homem velho, mais rugas do que idade, levantou a cabeça cansada.

E que faz El-Rei aqui
Por estas Terras de Além?
- Venho ver quem é ninguém.

Mas Senhor, aqui tão longe,
Só há fome... só há pó...
- Venho ver quem está tão só.

E disse El-Rei esta fala:
- Venho ver quem sofre e cala.
Lá na Corte todos pedem
Lá na Corte todos comem
Mas se aqui eu vejo fome
Também vejo o que é ser Homem.

Deixámos o leitor aqui na Sé, 620 anos atrás, em plena boda que el-rei D. João I fizera com sua mulher. Na história do Mundo, seis séculos nada são. No entanto, para este Povo que se afirmou com este Rei, foi o tempo para se fazer e desfazer um império; dividir ao meio o Mundo que havíamos descoberto ou iríamos ainda descobrir; mas tempo também para se perder o orgulho em sermos quem somos e deixarmos alimentar as aves da descrença, tão parecidas com aquelas que dantes piavam por Castela.
Tempo de haver Reis que defendiam a sua terra, ao lado dos mais humildes; tempo de haver outros que fugiam com a Corte para o Brasil. Só os primeiros são Reis.

E entrámos na Sé, apreciando o altar de prata, que D. João I não viu, pois é do século XVIII, uma das primeiras obras de Nicolau Nasoni. Em 1809, com outro João, o sexto, fugido no Brasil, a soldadesca de Soult, especialista em pilhagens, por aqui passou, mas também não o viu. Um sacristão habilidoso não funcionou como ave da descrença: teve a habilidade de o cobrir com uma camada de gesso.

E que faz El-Rei tão longe
Por esses Brazis distantes?
Já não é como era dantes.

O que faz El-Rei não sei
Precisamos de outro Rei.

Cá fora, para os lados da Calçada de Vandoma, o perfume barroco da galilé, mais uma jóia de Nasoni, dando um toque de elegância à estrutura norte do edifício.

A este italiano deve o Porto – e não só – um património artístico de incalculável valor: o Paço Episcopal de que falámos, Igreja dos Clérigos, Palácio de S. João Novo, fachada da Igreja da Santa Casa da Misericórdia, Palácio do Freixo, Casa de Despacho da Ordem Terceira de S. Francisco, casas, fontanários, esculturas em pedra...
Fora do Porto, entre outras, Igreja do Senhor de Matosinhos, Nossa Senhora dos Remédios em Lamego, Palácio de Mateus em Vila Real...


E na calçada de Vandoma deparei com um cubelo e um pequeno trecho da Cerca Velha, reconstruídos, na zona onde outrora se situava a Porta. Trazida por cavaleiros gascões e franceses, segundo dizem, a imagem de N.S. de Vandoma estava recolhida num nicho da Muralha e dera o nome à Porta e ao Arco. Quer uma sugestão? Volte a entrar na Sé e admire a sua beleza. Está mesmo ao lado do altar de prata de que falamos há pouco, capela de S. Vicente.


É Nossa Senhora de Vandoma que vamos encontrar nas Armas da cidade, ladeada por dois Castelos, com a legenda Civitas Virginis (Cidade da Virgem), inalterada de 1012 a 1813.

Por aqui era a saída da cidade para o Norte: as Eiras, o Corpo da Guarda, a Rua Chã.
Entre esta porta e a de Sant'ana ficava a de S. Sebastião, com acesso à importante Rua do Souto, que atravessava o Rio de Vila e, no século XIII, já chegava ao Olival...

Um dos romances de Alberto Pimentel," O Arco de Vandoma", decorre nesta zona.
-Oh minha Senhora, estão a deitar abaixo o Arco!!!
-Que dizes tu, mulher?
E deitaram mesmo. Estávamos em 1855.

Vinte anos antes - dois anos, apenas, depois do fim do Cerco - uma cidade comovida e em luto fizera um cordão desde a Praça da Ribeira até à Lapa, último destino do coração de um grande Rei. Em cada português que respeita a Liberdade ficou também um bocadinho desse coração generoso.
Mas no centro, bem no centro do Brasão do Porto, ficou inteiro.

E que faz El-Rei querer
Ter aqui seu coração?
Coisa assim eu nunca vi...
- Aqui os homens não cedem.
Aqui dão mais do que pedem
Vou ficar melhor aqui.

No próximo episódio também ficaremos por aqui. Na companhia de Vímara Peres.

(continua)

Colaboração de:
Fernando Novais Paiva – autor do texto e das fotos

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domingo, abril 8

O PORTO: O MORRO E O RIO (à margem de uma filmagem) - APENDICE Nº 1 : AS RAZÕES DE Dª TERESA

"Talvez seja do calor, mas há uma dúvida que não me sai da cabeça: Que razões teria Dª Teresa para uma tão grande generosidade em relação ao Bispo D. Hugo?
Lá que dá para pensar, lá isso dá... " (Episódio nº 5 )

EM 1120, PORTANTO HÁ 887 ANOS, O DOMINGO DE PÁSCOA CALHOU A 18 DE ABRIL. É PRECISAMENTE ESSE DIA QUE VAMOS EVOCAR:

Ano : 1120
Nada fáceis, com toda a franqueza, os oito anos de viuvez de Dª Teresa.
D. Henrique falecera inesperadamente em Astorga a 14 de Abril de 1112, pondo fim a cerca de 16 anos em que, com sagacidade e ambição, governara o Condado Portucalense que o sogro, D. Afonso VI, fizera juntar à mão da filha Teresa.

Que Dª Teresa era ambiciosa, parece bem demonstrado só pelo facto de ter passado a utilizar o título de Rainha a partir de 1117. Faltava-lhe, no entanto, o apoio que D. Henrique havia granjeado junto à nobreza regional, para além dos seus méritos de guerreiro e de político, aliando-se a uns e a outros conforme os objectivos que pretendia atingir. Inimigos hoje, aliados amanhã, de acordo com os ventos que soprassem em Leão ou na Galiza.
Dª Teresa gostava mais dos ventos da Galiza, principalmente se soprados pelos Travas. E com esse gosto perdeu o apoio dos senhores da guerra portucalenses, pouco interessados que os amores da sua "rainha" ultrapassassem a intimidade do seu leito.
Foi uma rainha enfraquecida que em 1117 se viu cercada dentro das muralhas de Coimbra, na sequência da invasão almorávida comandada pelo próprio emir de Marrocos, Ali ben Yusuf.


Mas se pelo Sul foi uma humilhação, para os lados do Norte ainda foi pior, ao ter que se refugiar no Castelo de Lanhoso e sujeitar-se à mana Urraca que invadira e saqueara aquelas terras, acompanhada do poderoso arcebispo de Compostela, Diego Gelmirez.
É nessa situação de constrangimento (será a palavra certa?), eventualmente recolhida no Castelo de Lanhoso, que em 18 de Abril de 1120 - domingo de Páscoa - outorga a carta de doação e couto do burgo do Porto ao Bispo D. Hugo e seus sucessores.

Directa ou indirectamente, uma imposição do Arcebispo de Compostela, colocando a cereja em cima do bolo, por ele bem cozinhado sete anos atrás: a designação de Hugo como Bispo do Porto, aquando da restauração da antiga diocese portucalense.
Francês, oriundo do poderoso Mosteiro de Cluni, viera para Compostela onde cedo estabeleceu uma forte ligação com Gelmirez., apoiando-o na sua eleição a Bispo. Delegado deste, vai a Roma defender interesses da diocese, recebe com rapidez as honrarias de arcediago e é elevado a Bispo do Porto, na sequência natural de uma carreira fulgurante.
Já falamos do que encontrou em Pena Ventosa: uma pequena ermida a servir de Sé e um minúsculo burgo à sua volta. Do outro lado do Rio era já o Bispado de Coimbra.

As vitórias conseguem-se no sítio próprio, no momento exacto e com a pessoa certa. Não foi em Pena Ventosa que D. Hugo iria continuar a somar sucessos, mas em Roma, onde foi obtendo o alargamento das fronteiras da diocese, incluindo a tão disputada Terra de Santa Maria, subtraída a Coimbra. E é em Roma que está aquando da carta de doação.
Três anos mais tarde D. Hugo concede um foral generoso aos burgueses do Porto.



Que pensar de tudo isto?
Quem não tem condições para exercer o poder ou o delega, ou o perde. E é numa mistura destas duas situações que temos que encarar a doação de Dª Teresa, retirando-lhe a componente de generosidade.
Tão adequada parece, no entanto, aproveitando o prestígio de D. Hugo e o apadrinhamento de Compostela, que apetece retirar-lhe também o peso de não se tratar de uma medida tomada com total liberdade.
E assim se compreende que, 18 anos mais tarde, D. Afonso Henriques não só confirmasse a decisão da Senhora sua Mãe como até alargasse os limites do couto.

E assim falamos dos três primeiros documentos fundamentais para a história da Cidade do Porto:
1120 - Carta de doação de Dª Teresa ao Bispo D. Hugo
1123 - Carta de foro do Bispo D. Hugo aos moradores do Porto
1138 - Confirmação da doação e ampliação do Couto concedido por D. Afonso Henriques ao Bispo D. João, sucessor de Hugo.

O tempo que se seguiu, até 1405, foi um permanente jogo do poder: Bispo - Coroa - Burgueses. Com estes num papel decisivo na decisão dos conflitos.
Vai valer a pena falar sobre isso. . .

BIBLIOGRAFIA
História de Portugal - Vol III - A Monarquia Feudal - José Mattoso
História de Portugal - António Ennes - V I - Livro I - O Condado de Portugal
História de Portugal – Fortunato de Almeida – V I – Livro I –
Memória de Portugal - O milénio Português - Coorden. de Roberto Carneiro
História da Cidade do Porto - Vol I - Os Bispos Senhores da Cidade
História do Porto - Luís A. Oliveira Ramos
O Censual da Mitra do Porto - Cândido Dias dos Santos
O Tripeiro - 5ª Série - Artigos diversos

(Colaboração de Fernando Novais Paiva, autor do texto)





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quinta-feira, março 15

O PORTO: O MORRO E O RIO - 7º EPISÓDIO: A VODA DE EL REI COM SUA MOLHER (à margem de uma filmagem)

1387 - 2 de Fevereiro.
Há festa no Porto. Casamento real. Nunca tal se viu nem voltará a ver-se.
Talvez que só mais um Rei tivesse merecido casar-se por aqui: D. Pedro IV. Mas quando o mereceu já era casado e pela segunda vez.

O consórcio fora aprazado três meses antes, dia de Todos os Santos, em Ponte do Mouro, margens do Rio Minho, no conforto da tenda real que havia pertencido a D. João de Castela e que este deixara, contrafeito, nos campos pouco hospitaleiros de Aljubarrota. Dª Filipa, com a mãe e irmã, encontrava-se resguardada no mosteiro de Cela Nova, ali pertinho, a meio caminho de Orense.

D. João I, terminadas as falas com o futuro sogro, correu de imediato para a fronteira alentejana, menos segura que os conventos da Galiza. Não tratou de ir ver se a noiva era bonita. Seria só no Porto, em vésperas de casamento, que ficaria a saber.

Dois meses depois do acordo de Ponte do Mouro, fins desse ano ou princípios do outro, Dª Filipa entrara na cidade, pela Porta do Olival, com a sua numerosa e garrida comitiva. E que comitiva! Até um Bispo vinha, tudo escoltado por mais de cem lanceiros e duzentos archeiros de cavalo.

"...e estamdo entã ( D. João) em Evora, foy emtamto tragida muy homrradamente de mamdado de seu padre a Ifamta dona Felipa aa çidade do Porto...homde foy reçebida com graõ festa e prazer." ..." E pousou nos Paços do Bispo que saõ muito perto da See dese loguar. Ell Rey partio d'Evora e o Comdestabre com elle, e quoamdo cheguou ao Porto achou ahy a Ifante dona Felipa, sua molher que avia de ser, e pouzou em São Francisco .E em outro dia foi ver a Ifamta que aimda naõ vira..."

"...E ell Rey esteve ally poucos dias e foyse caminho de Guimarãis..."



E estando naquela vila, ordenando feitos de guerra, vieram dizer-lhe que o casamento tinha que realizar-se no dia seguinte, porque entrava a Septuagésima onde não se podiam fazer tais ofícios. Então el-Rei cavalgou esse dia à tarde e andou toda a noite... E indo direito à Sé, o Bispo lançou-lhes as bênçãos. E cada um, assim abençoado, voltou para sua casa e aguardou pelo dia 14. Aí sim, com toda a cidade em festa,

“E ell Rey sayo daqueles paços em çima de huu cavalo bramquo, em panos douro reallmente vestido; e a Rainha em outro tall, muy nobremente guoarnida”...”A jemte hera tamta que se nõ podiaõ reger nem ordenar, por ho espaço que era pequeno dos paços a igreija. E asy cheguarão a porta da See que era dally muy perto...”





O átrio da estação de S. Bento está decorado, além de outros temas, com quatro painéis históricos do mestre Jorge Colaço, obras-primas de azulejaria.
Quando passar por lá, repare para o da parte superior, virado para a Rua do Loureiro, mas não acredite, quando vir por aí escrito, que se trata "da entrada solene de D. João I no Porto pela Porta do Campo do Olival, com sua noiva D. Filipa de Lencastre."
A Porta do Olival (onde hoje é o café com o mesmo nome, junto à antiga Cadeia da Relação) alguma vez pode ser representada encostadinha à Sé?
Aquela porta é a de Vandoma, da Cerca Velha. Essa sim, era ali ao lado... E porquê a fantasia de ambos entrarem juntos no Porto? D. João estava em Évora, não é?
Jorge Colaço leu Fernão Lopes e respeitou o cronista. Nem todos o fizeram.

E a cerimónia acabou – e outra, mais íntima, ter-se-á iniciado - com a bênção do leito conjugal pelo Arcebispo de Braga. Teria começado ali a Ínclita Geração? Vou ver a data de nascimento de D. Duarte...
Não. Antes de D. Duarte houve dois filhos: a 30 de Julho de 1388 nascera D.ª Branca (morreu com 1 ano) e depois D. Afonso (morreu com 10). O leito foi abençoado, mas não com efeitos imediatos.

Mas não perturbemos as festas, que duraram 15 dias, com justas reais por homrra desta voda. Vamos respeitar a intimidade do jovem casal, esperar que a cidade se recomponha de tanto bulício e associar o leitor a um merecido descanso, ao fim destes sete fatigantes episódios.
Ao darmos por finda esta primeira fase da nossa peregrinação pelo velho burgo - que fizemos com muito gosto na sua companhia - procurámos lembrar coisas que nem só ao portuense respeitam. Se tiverem sido do seu agrado, então valeu a pena tê-las escrito.”

(Colaboração de Fernando Novais Paiva, autor do texto)

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segunda-feira, março 5

O PORTO: O MORRO E O RIO - 6º EPISÓDIO: A SÉ E O SEU TERREIRO - (à margem de uma filmagem)




E com este trajecto que escolhemos, entramos finalmente no Terreiro, virados para a Sé.
Assim como quem entra num palácio pela porta da frente, encarando toda a sua magnitude e imponência.
Sé, Casa do Cabido ao lado. O Paço Episcopal estabelecendo o limite Sul.

Não é. Não sinto o Terreiro como a sala de visitas do Porto. Parece-me mais como a Sala do Trono que teria sido, se este espaço fosse assim quando o Bispo do Porto era o Senhor da Cidade. Mas não o foi, porque este desafogo só passou a existir por volta de 1940, quando se demoliram vielas e casario que por aqui se apinhavam.


Sala do Trono era esta Sé e um dos antigos Paços, até 1405, ano em que o último Bispo Senhor da Cidade, D. Gil Alma, negoceia com D. João I a transferência para a Coroa do couto que Dª Teresa doara ao primeiro Senhor, D. Hugo chamado. O Senhorio havia durado 285 anos. A sala do Trono rumava para o Sul.

O Paço Episcopal é, apenas, o mais notável edifício da Cidade. Demolido o Paço velho, constrói-se este desde os alicerces, segundo projecto de um homem notável de que falaremos várias vezes: Nicolau Nasoni. Sumptuoso, de estilo barroco, demorou 100 anos a ser concluído (1771 - 1871). Mas valeu a pena.
Para o lado do Rio, sobrepondo-se à própria Sé, é o Paço Episcopal que tudo domina, com uma altura que o desnível do morro mais acentua. Visto do Terreiro, só com dois andares, seis pares de janelas de cada lado, combina robustez, beleza e sobriedade em proporções admiráveis.
Ironias do destino: o poder da cidade, na pessoa do Bispo, nunca ali habitou. Mas foi ali exercido pela Câmara Municipal do Porto, de 1916 a 1957, enquanto o seu novo edifício se construía.


Num enorme descampado, aqui no cimo do morro da Pena Ventosa, encontrou D. Hugo uma pequena ermida, quando em 1114 tomou conta da diocese, então restaurada.
Era a Sé do Porto.
No seu lugar e ainda em tempo de Dª Teresa (falecida em 1130), começou esta mesma a ser construída, terminada apenas no reinado de D. Diniz (1279-1325). A sua imponência era desproporcionada em relação ao Burgo, como que antecipando a grandeza de uma cidade que só mais tarde viria a despertar.
Daí em diante foram inúmeras as modificações introduzidas, exteriores e interiores, em épocas e estilos diferentes, alterando-lhe gradualmente a arquitectura românica da construção primitiva. Mas o seu carácter, a força que nos transmite, ficaram inalteráveis.
Na verdade, do velho Burgo, defendido primeiro pela Cerca Velha, é a Sé que se mantém imorredoura, marcando uma presença vigilante até aos limites das Muralhas Fernandinas.
Nas suas duas torres abrem-se seteiras, no corpo central recortam-se ameias.
Não era para ouvir missa com certeza.

No próximo episódio, falaremos de um casamento. Aqui na Sé. Com missa.

(continua)

Colaboração de Fernando Novais Paiva, autor do texto e das fotos.


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quarta-feira, fevereiro 21

O PORTO: O MORRO E O RIO (à margem de uma filmagem) - 5º EPISÓDIO: A DOAÇÃO DE Dª TERESA

Ano: 1120. Domingo de Páscoa.

Dª Teresa, filha de D. Afonso VI de Leão, dotada a título hereditário com a terra portugalense, viúva do Conde D. Henrique, outorga a carta de doação e couto do burgo do Porto passada a favor do Bispo D. Hugo e seus sucessores.
Ainda não havia Portugal. A cidade do Porto assume um estatuto próprio, 23 anos antes do tratado de Zamora.
O senhorio passaria para a Coroa apenas em 1405, por negociação, obra e graça de D. João I.
Na Sé residia o poder. Seria da forma como Garrett o descreve no seu Arco de Sant’Ana?


Nessa altura, o povo comprimia-se por este morro, como que inventando mais cantos, recantos e vielas, no aproveitamento possível de todos estes socalcos.
O morro do Olival, ali em frente, só mais tarde começaria a ser povoado, no meio de hortas e silvados e ainda muito longe de vir a ser chamado Vitória.

E então eu disse:

«Entre os dois morros corria o Rio de Vila, onde hoje é Mousinho da Silveira e Rua de S. João. E este rio, pouco mais que um regato, foi de uma importância que hoje custa a acreditar.
Foi considerado ser o limite oeste do Couto doado por D. Teresa, em 1120, ao Bispo D. Hugo. E porquê este “foi considerado”? Porque, no documento de doação, este limite vinha designado por “canalem maiorem”. E a Mitra e o Cabido entendiam que esta expressão correspondia ao riacho que corria pelas Virtudes, atrás do Olival…O que eles ganhavam! Não eram nada tolos…
Estas duas interpretações originaram um interminável litígio: o que era do Bispo e o que era da Coroa.»

Compreende agora a má vontade de D. Pedro Salvadores em relação aos franciscanos, a que me referi no episódio anterior? Que o levou a embargar a construção do Mosteiro e a mandar pôr a ferros o benemérito que doou o terreno? Aquela zona pertencia ao couto, na sua interpretação. Não senhor, não pertencia, diziam os franciscanos; não precisamos da sua licença para construir o Mosteiro…

Quanto ao Olival, o mesmo D. João I – até parece que o Porto não conheceu outro Rei – mandou edificar, por volta de 1386, uma grande judiaria, dentro das muralhas, onde reuniu diversos núcleos dispersos, dentro e fora do burgo. Durante cerca de 100 anos coexistiram com o resto da cidade, até que D. Manuel I quis agradar à mulher e decidiu expulsá-los do Reino.* Dizem que o Olival passou a Vitória para consagrar a vitória sobre os judeus. Não me orgulho. Celebrou-se uma asneira com uma estupidez…



Atrás de mim, os miúdos refrescam-se no bonito chafariz do Pelicano, trazido da Rua Escura, quando das obras de reestruturação de toda esta zona. O dia está quente e por aqui não há piscinas.

Talvez seja do calor, mas há uma dúvida que não me sai da cabeça: Que razões teria Dª Teresa para uma tão grande generosidade em relação ao Bispo D. Hugo?

Lá que dá para pensar, lá isso dá...
No próximo episódio, a Sé e o seu Terreiro.

* Leia “A última Dona de S. Nicolau” de Arnaldo Gama e fica com uma visão daquele tempo.

(continua)

Colaboração de Fernando Novais Paiva, autor do texto e das fotos.






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quinta-feira, fevereiro 1

O PORTO: O MORRO E O RIO (à margem de uma filmagem) - 4º EPISÓDIO: NO CIMO DAS ESCADAS

E aqui, no cimo das Escadas do Colégio, chegamos a uma janela privilegiada sobre um Porto que se estende, como massa compacta de telhados, a ocidente do morro.
Mas tanta coisa existe ainda que os telhados não deixam ver…Ou tanta coisa que já desapareceu e onde se voltou a construir, nuns casos com respeito pelo passado, noutros como se as pedras existentes fossem apenas um obstáculo ao alargamento de uma
viela que foi sempre estreita, ou alinhamento de uma rua que foi sempre torta.
Sente-se aqui o nascimento de uma cidade, que sai do seu primitivo Castelo, Portucale - onde os fidalgos já não entravam – e salta os limites da sua Cerca Velha para ocupar o novo espaço que as Muralhas Fernandinas, mais tarde, lhe proporcionaram.



A fachada da Igreja dos Grilos é o taipal que nos baliza a visão pelo lado esquerdo; as traseiras da primeira casa da Rua das Aldas estabelecem o limite do lado direito.
Olha-se para o Rio e pressente-se a cidade baixa, ribeirinha, começando a afirmar-se nos inícios do século XIV. Antes, tudo aquilo era um descampado, a Redondela, nas faldas da Colina de Belomonte, onde se erguia o Mosteiro de S. Francisco e a sua Igreja, de costas viradas para a Sé, como resposta pelas dificuldades levantadas pelo Bispo, D. Pedro Salvadores, aquando da instalação da Ordem na Cidade.
O tom severo da estrutura gótica da Igreja contrasta com a linha neoclássica do Palácio da Bolsa, edificada nos terrenos do Mosteiro, que a Artilharia de D. Miguel, durante o Cerco, do outro lado do Rio, se permitiu incendiar.

Olhando agora para o outro lado, temos este mar de telhados dominados por duas Igrejas: lá no alto, a Igreja paroquial de Nossa Senhora da Vitória, silhueta elegante a projectar-se no horizonte; lá no fundo, a de S. João Novo, com as duas grandes Torres a merecerem um contraste que a encosta do outro lado do rio lhes não permite.
Daqui não dá para se ver a fachada: é irmã gémea desta. Até com a mesma orientação.




Também não se vêm, mas estão lá, dali até ao Rio, escondidas mas ainda preservadas, quase encostadas ao lado mais distante da Igreja… É isso mesmo: o troço do Caminho Novo das Muralhas Fernandinas, entre a Porta da Esperança e a Porta Nobre, únicas que ainda resistem, juntamente com os Guindais.
Fronteira com Miragaia, era o remate ocidental da Muralha, terminando na sua Porta Nobre, lateral, por onde entravam Bispos e Reis, a quem se entregava a chave da Cidade. E assim foi com D. João I, na sua primeira visita ao Porto, antes de Aljubarrota, que desde ali sentiu que bem podia contar com uma cidade que não queria ser castelhana.
O outro troço sobrevivente, o dos Guindais ou Santa Clara, ganhou o estatuto de símbolo da cidade, no enfiamento da velha ponte de D. Luís, que se tornou, ela própria, uma outra Porta Nobre. E que continua a sê-lo.

No próximo episódio vamos continuar por aqui. E você continue também, se não quer perder o fio à meada.

(continua)

Colaboração de Fernando Novais Paiva, autor do texto e das fotos.

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segunda-feira, janeiro 22

O PORTO : O MORRO E O RIO (à margem de uma filmagem) - 3º EPISÓDIO: O LARGO DO COLÉGIO ( II )

Entrou tarde, esta Igreja de S. Lourenço, na história da Cidade:
Foi em 1560 que os Jesuítas se instalaram na Ribeira, próximo da Capela da N.S. da Lada, onde começou o Colégio de S. Lourenço – assim baptizado porque o dia da festa do mártir foi o dia da instalação. Mas logo depois conseguiram este terreno e construíram Colégio e Igreja, graças ao donativo de 30.000 cruzados de Frei Luís Álvares de Távora, Bailio de Leça, que a partir de 1614 assume o papel de fundador. E se referirmos que a fachada só se concluiu em 1709, podemos adivinhar as dificuldades.

Em 1759 os Jesuítas são expulsos do Reino, tendo o seu património passado para a posse da Universidade de Coimbra em 1774 (um ano depois de Clemente XIV ter suprimido a Companhia). Seis anos depois, os Agostinhos Descalços, os frades Grilos de Lisboa, compraram Colégio e Igreja. E o povo que adora baptizar pessoas e coisas, entendeu por bem trocar-lhe o nome.
Da obra notável dos Jesuítas, no seu Colégio, largos benefícios vieram para a Cidade. Apesar de muitas vezes hostilizados pelos burgueses e pela própria Câmara, porque isto de filhos demasiadamente cultos podia trazer dissabores.

Este soberbo edifício do antigo Colégio, varanda privilegiada sobre a zona ribeirinha, onde hoje funciona o Seminário Maior e o Museu de Arte Sacra, serviu de quartel, em 1832, durante o cerco do Porto, ao Batalhão Académico onde o soldado voluntário nº 72, de nome Almeida Garrett, começou a escrever o tão apreciado “Arco de Sant’Ana”.
E então eu disse:

«Vale a pena lê-lo, nem que seja só para nos deliciarmos com o que D. Pedro diz ao Bispo, ali em cima, na Sé. Que bonito, também é este Largo!»



Pois é! Mas se tivesse cá vindo à data desta fotografia, teria dito a mesma coisa?
Interrogar-me-ia, sim, como fora possível que o Centro Histórico do Porto, tão cheio de tradições, tivesse atingido este lamentável estado de degradação.
A sua recuperação, lenta mas segura, tem sido um trabalho notável de querer, eficácia e persistência - a merecer o respeito e gratidão de todo o portuense. Bem hajam todos os que nele se empenharam. Rumaram o caminho certo!


Encostado à escarpa, como que transportada para o seu interior, foi edificado um Café/Restaurante, bom exemplo de como é possível construir uma unidade nova, perfeitamente enquadrada num ambiente que pretende manter o cunho especial de uma época que já não é do nosso tempo.
Quando for visitar o Largo, almoce por lá, retemperando forças para subir as Escadas.
A Fernanda terá gosto em o servir, tanto como teve em dançar, antecipando a noite de S. João.

No próximo episódio, do cimo das Escadas, vamos olhar para o Porto, num dos melhores miradouros que o Porto tem. E não vamos ter tempo de sair de lá.

(continua)

Colaboração de Fernando Novais Paiva, autor do texto e das fotos.

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