domingo, julho 1

O PORTO: O MORRO E O RIO - 10º EPISÓDIO: É O GRANITO, SENHOR!



Não é gosto nem desgosto
Nem ventura ou desventura
Não há nome mais bem posto
Que o nome da Rua Escura

Se agora, com o arranjo do Terreiro, a parte de cima já recebe sol directo, antes disso havia mesmo de ser bonito! De tal modo, que ao contrário de tantas outras ruas e ruelas, a esta ninguém ousou mudar o nome. Rua Escura era, rua Escura ficou. Mantendo toda a carga de um passado onde nem as histórias eram bonitas nem o cheiro era de cravos. Como que concentrando só em si as angústias e misérias de um bairro inteiro.

Cruz do Souto - o grande entroncamento do século XIII, sem direito a desnivelamento ou rotunda.
Pelames - varandim debruçado sobre Mousinho da Silveira, cobrindo o Rio de Vila que tanto trabalho dera, desde que Dª Teresa o designara por canalem maiorem (que me perdoem os Bispos da época, tão discordantes desta interpretação).



Mesmo ali por baixo era o Largo do Souto, tomando depois o nome da elegante capela de S. Roque, oitavada, encostada exactamente a este rochedo. Capela e Largo, incompatíveis com o traçado da nova Rua, deixaram como única recordação este bocado semicircular do seu limite nascente. Estávamos no ano de 1877.

E chegamos ao vértice do ângulo formado pelas duas grandes vias que rasgaram o velho coração da cidade, Mousinho da Silveira e Avenida da Ponte. Ali mesmo, na praça Almeida Garrett, antigo Largo das Freiras, à frente do desaparecido Convento de S. Bento de Avé Maria que durante quase quatro séculos constituiu uma notável referência para a cidade.

É lembrança de um Convento
Em frente dos padres Lóios.
Ficou o nome, S. Bento
Numa estação de comboios.

E então eu disse:
1518 - Foi D. Manuel I que o fundou. E logo a seguir mandou abrir a Rua de Santa Catarina das Flores. Foi um mosteiro muito ligado à vida da cidade. Demolido em 1894 para dar lugar à estação de S. Bento.
Lembra-se das antigas notas de 100$00? Não era a estação de S. Bento, não senhor...Era a fachada principal do Mosteiro virada para a Rua do Loureiro.



Do outro lado, do lado Norte, o Convento era limitado pelo pano da Muralha Fernandina que descia desde a Batalha, junto à actual Rua da Madeira.
E lá no fundo, em frente à igreja dos Congregados, a muito movimentada Porta dos Carros.

O outro lado do ângulo é esta Avenida da Ponte. Sempre em obras. Inacabada, sim, como tudo o que está em obras. Mas, o que é pior, inacabada sem a gente perceber como é que vai acabar.
Havia que se ligar o centro da cidade ao tabuleiro superior, pois não era mais possível continuar a fazê-lo pela Rua do Loureiro-Cimo de Vila. E assim se esventrou uma parte do coração do velho Porto, como uma auto-estrada que se abre pelo meio de uma aldeia.

Possivelmente foi a melhor solução. Mas hoje, que o tabuleiro superior deixou de ser a principal porta de acesso à cidade e o trânsito, por ali, se reduziu a nada, não será possível encontrar um enquadramento menos doloroso do que toda aquela coisa que, na verdade, não é coisa nenhuma?

Já não há quem se lembre do velho Largo do Corpo da Guarda, - nem ninguém quer reconstruí-lo ali no meio da Avenida. Nem as ruelas e recantos que se eliminaram, paraíso de gatos fedorentos sem o sentido de humor dos actuais. E se deste lado, da Sé, a sua imponência disfarça uma escarpa desajeitada, a modos que um campo de cultivo interrompido, do outro lado... parece a antiga pedreira da Trindade, encostadinha ao Hospital, rebentada aos bocados por métodos barulhentos.

É o granito, Senhor! O granito daquelas pedras, mas que também faz parte de nós, dos nossos corações, das nossas almas. E que tem que aparecer com a dignidade do granito, como tudo que é encosta por este morro fora!

Vim ao Mundo por aqui.
Não pretendo ser bonito.
Quero ser como o granito
Desta terra onde nasci.

E talvez fosse exactamente por aqui, ao lado deste morro de Pena Ventosa, acima da estação de S. Bento de hoje, pelo meio dessas pedreiras por onde já houve becos e vielas, que teria existido outrora uma Cividade, a celebrada CALE, que já fez correr rios de tinta, seduziu historiadores de mérito e aguçou a curiosidade de muitos.

E é disso que vamos ousar falar.

(continua)

(Fernando Novais Paiva)

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5 Comentários:

Às 01 julho, 2007 16:02 , Blogger Papoila disse...

Continuo deliciada a ler estas crónicas deste meu Porto de granito. E agora que o tabuleiro superior da ponte D. Luís é utilazada pelo metro porque não acabar a inacabada Avenida da Ponte. Bela as gravuras e fotos.
Bom Domingo!

 
Às 01 julho, 2007 22:46 , Blogger belakbrilha disse...

Vou conhecendo melhor o Porto por aqui! ;)

beijos daqui

 
Às 02 julho, 2007 13:30 , Blogger augustoM disse...

Enternecedora maneira de descrever a cidade. Talvez tenha sido a influência do granito que moldou a maneira de ser das gentes.
Um abraço. Augusto

 
Às 03 julho, 2007 09:01 , Blogger bluegift disse...

Demasiados desaparecimentos numa cidade rica em indícios de uma portugalidade perdida. Esperemos que tal chacina não se perpetue.
Vamos então desvendar o misterioso "CALE"!
Um grande Abraço.

 
Às 03 julho, 2007 23:34 , Blogger António disse...

Olá, Peter!
Gostei muito deste episódio, talvez por falar de muitas coisas que eu conheço.

Abraço

 

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