domingo, junho 3

O PORTO: O MORRO E O RIO. 9º EPISÓDIO: E QUEM É QUE MANDA AQUI ?

Virado a Sul, não vá o diabo tecê-las, Vímara Peres parece mais alto que a Torre dos Clérigos. Sente as costas bem protegidas: hoje, por uma grande cidade, com identidade e carácter; em 868, quando aqui chegou, por um território reconquistado desde as Astúrias, consolidado pelo Reino de Leão.

Andando para trás, antes de árabes e visigodos, vamos encontrar os suevos e o seu efémero reino, com capital em Braga.
Pelos vistos gostaram deste morro: ocuparam-no em 417, construíram a Cerca Velha aproveitando o que restava da românica, e levaram a sua amabilidade ao ponto de fazerem ascender Portucale a sede episcopal. Em 569, no Concílio de Lugo, vem registada uma nova terra: Portucale Castrum Novun.
Que tal uma evocação de agradecimento aos simpáticos suevos por toda essa gentileza?
Ali, ao lado do Vímara?

Não se sabe bem porquê, mas a primitiva sede episcopal do território, que depois correspondeu à diocese do Porto, situava-se na paróquia de Magnetum, freguesia de Meinedo, concelho de Lousada. Muito possivelmente uma situação transitória, uma vez que em 589, no III Concílio de Toledo, a diocese de Portucale já é representada por um Bispo, Constâncio de nome.
Daí até à invasão árabe, a civitas portucalense teve bispos residenciais, marcando presença regular nos concílios de Toledo, capital do reino visigótico.

Quando, em 716, os muçulmanos de Abdelaziz passaram por aqui, em passeio pouco amistoso, não sentiram necessidade de garantir a ocupação do burgo, mantendo-se o território abandonado, sem qualquer tipo de força política. Durante 150 anos, ninguém mandou em ninguém: a cidade estava deserta!


Assim, em 868, Vímara Peres, ao serviço de Afonso III de Leão, não precisou de desembainhar a espada para reocupar Portucale. Chama-se a isso tomar de presúria, designação que correspondia à apropriação de terras e instalações tomadas a muçulmanos durante a Reconquista Cristã.
Afonso III encara de frente o problema do repovoamento de toda a região, mas faz de Guimarães o centro de actividade política, onde Vímara Peres acaba os seus dias dando o seu nome, Vimaranis, à localidade que depois o aportuguesou para Guimarães. Quem lá nasceu, no entanto, guardou a palavra vimaranense até agora.

Daí em diante, até 1071, os Condes de Portucale, descendentes do presor, continuando a residir em Guimarães, representam uma linha de poder. Nascera o primeiro Condado que resistiria cerca de 200 anos às contingências da relação de forças e de interesses dos senhores do noroeste peninsular.
Na batalha de Pedroso, perto de Braga, o último Conde, Nuno Mendes, encontrou a morte e a derrota às mãos do Rei da Galiza: o primeiro Condado Portucalense tinha acabado e as suas terras passaram a fazer parte daquele Reino.



Mas não foi por muito tempo. Vejamos o que escreve o professor José Mattoso. Não é possível dizer melhor:
"Em data incerta, mas provavelmente em 1096, o Rei Afonso VI de Leão e Castela, preocupado com a defesa da área ocidental do seu reinado contra as crescentes investidas dos Almorávidas, entregou o governo dos antigos Condados de Portucale e Coimbra, destacados da Galiza, a Henrique de Borgonha, a título hereditário e deu-lhe em casamento a sua filha ilegítima Teresa."
"Este acontecimento marca, com grande precisão, o aparecimento do Condado Portucalense como entidade política. A partir dele constituiu-se o futuro Reino de Portugal."
"A separação entre Portugal e Galiza e a vassalagem directa de Henrique a Afonso VI foram dois factores decisivos para a futura independência de Portugal."

E, por essa altura, quem é que mandava aqui? Este pequeno extracto de Armindo de Sousa (In História do Porto - Tempos Medievais) responde à questão: " Quando D. Hugo chegou ao Porto, encontrou uma comunidade vicinal dotada de auto-governo, isto é, uma sociedade civil revestida de autonomia no que respeitava à gestão do seu espaço, à prossecução dos seus interesses e à resolução dos seus conflitos."

Depois, em 1120, quando Dª Teresa faz doação do couto, os Bispos passam a ser os novos Senhores de uma Cidade que, pelos vistos, não estava habituada a ter Senhores. E, quando os teve, era fora de portas.



Como fora de portas - agora por ordem do Bispo - ficaram, durante séculos, cavaleiros e quejandos, o que constituiu um privilégio que o portuense soube defender e prolongar, muito para além do senhorio episcopal. Que o diga Rui Pereira, Senhor da Terra de Santa Maria, a fugir, chamuscado e apressado, da casa onde teimava pousar para além do permitido.

No próximo episódio, sem pousar, vamos ver o que falta da vertente Norte do Morro.

(continua)
(Fernando Novais Paiva)

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8 Comentários:

Às 04 junho, 2007 17:37 , Anonymous Anónimo disse...

Raras são as vezes em que encontro na blogosfera um artigo com o nível deste. É uma reportagem muito bem realizada aos antepassados deste Portugal. Parabéns.

Pedro Lacerda

 
Às 04 junho, 2007 21:26 , Blogger augustoM disse...

Hoje o motivo é outro não encontrar o que D. Hugo encontrou.
Tenho o prazer de convidar a estares presente na sessão de lançamento do meu livro “Onde estiveste, Jesus?”, que terá lugar no dia 21 de Junho de 2007 pelas 19h.30 no Bar Ondajazz, na travessa Arco de Jesus, 7 - Campo das Cebolas. Lisboa
Um abraço. Augusto

 
Às 04 junho, 2007 22:30 , Blogger Menina Marota disse...

Excelente crónica. Aguardo ansiosa a continuação.
Um abraço ;))

 
Às 05 junho, 2007 09:47 , Blogger Marta Vinhais disse...

Olá, Peter - é realmente uma crónica excelente...
A zona descrita é linda...
Obrigada pela partilha.
Beijos e abraços
Marta

 
Às 05 junho, 2007 22:12 , Anonymous Anónimo disse...

Arrumei melhor as minhas ideias e a origem da proibição dos próprios Reis dormirem na cidade.
Uma boa ligação com o passado.
Parabéns ao blog.
Eugénio Martins - Maia

 
Às 07 junho, 2007 23:08 , Blogger Nilson Barcelli disse...

Uma bela lição de História.
Há aspectos que já nem me lembravam e outros são completamente novos.
Abraço.

 
Às 08 junho, 2007 21:47 , Blogger António disse...

Olá, Peter!
Mais um episódio desta magnífica e, por vezes, surpreendente série histórica.
...e assim vou aprendendo...

Um abraço

 
Às 10 junho, 2007 20:07 , Blogger Papoila disse...

Uma bela licção de história e uma bela explicação das raízes do velho burgo.
Espero a continuação.

 

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