conversas de xaxa
"Amar esta sombra que desliza e que é talvez já a presença que nos foge" (António Ramos Rosa)
domingo, julho 26
sexta-feira, julho 10

«Cada porção da matéria pode ser concebida
como um jardim pleno de plantas e como um lago pleno de peixes.
Mas cada ramo da planta, cada membro do animal,
cada gota de seus humores é ainda um tal jardim ou um tal lago.
E embora a terra e o ar interpostos entre as plantas do jardim
ou a água entreposta entre os peixes do lago,
não sejam nem plantas nem peixes,
eles os contêm ainda,
as mais das vezes de uma subtilidade
imperceptível para nós.
Assim,
não há nada de inculto, de estéril, de morto no universo,
não há caos nem confusão senão na aparência,
mais ou menos como num lago à distância
no qual se veria um movimento confuso e buliçoso, por assim dizer,
de peixes no lago sem discernir os próprios peixes.
Por isso se vê que cada corpo tem uma enteléquia dominante,
que é a alma no animal;
mas os membros deste corpo vivo
são plenos de outros corpos vivos,
plantas, animais,
dos quais cada um tem ainda
a sua enteléquia ou a sua alma dominante.»
(Leibniz, Monadologia, §§ 67-70)
como um jardim pleno de plantas e como um lago pleno de peixes.
Mas cada ramo da planta, cada membro do animal,
cada gota de seus humores é ainda um tal jardim ou um tal lago.
E embora a terra e o ar interpostos entre as plantas do jardim
ou a água entreposta entre os peixes do lago,
não sejam nem plantas nem peixes,
eles os contêm ainda,
as mais das vezes de uma subtilidade
imperceptível para nós.
Assim,
não há nada de inculto, de estéril, de morto no universo,
não há caos nem confusão senão na aparência,
mais ou menos como num lago à distância
no qual se veria um movimento confuso e buliçoso, por assim dizer,
de peixes no lago sem discernir os próprios peixes.
Por isso se vê que cada corpo tem uma enteléquia dominante,
que é a alma no animal;
mas os membros deste corpo vivo
são plenos de outros corpos vivos,
plantas, animais,
dos quais cada um tem ainda
a sua enteléquia ou a sua alma dominante.»
(Leibniz, Monadologia, §§ 67-70)
domingo, maio 3

«Au début des années soixante, alors qu’il cherchait
à affiner les méthodes de prévisions, le météorologue
Edward Lorenz s’est aperçu qu’en modifiant
imperceptiblement une variable parmi
d’innombrables autres, le pronostic
changeait du tout au tout…
Il suffit d’une seule différence infime,
et apparemment négligeable, pour que le résultat
du système tout entier s’en trouve bouleversé.
Selon sa formule devenue célèbre, le battement
d’ailes d’un papillon en Chine peut déclencher
une tornade à l’autre bout de la planète.
Cette réaction en chaîne, aujourd’hui connu
sous le nom d’«effet papillon», montre à quel point
le comportement de systèmes complexes à variables
multiples est imprévisible…
Non pas imprévisible pour nous, qui serions trop
ignorants ou obtus, mais imprévisibles de par leur
nature même…
Parce que notre monde est un système particulièrement
complexe, dont l’évolution reste impénétrable, les prédictions
ne seront jamais que des hypothèses plus au moins hasardeuses.
Si l’avenir est imprévisible, c’est qu’il est indéterminé.
À tout moment, le cours des événements peut bifurquer…»
Zygmunt Bauman, ’’Et si… l’avenir, c’était le présent ?’’
in philosophie-magazine, avril 2009
domingo, abril 5
domingo, setembro 28

A metáfora da memória como aviário
img in externalismo.blogspot.com
«Vê então, se também é possível possuir assim o saber, sem o ter.
É como se alguém tivesse caçado umas aves silvestres, pombas
ou quaisquer outras, construísse em casa um pombal e
tomasse conta delas; diríamos que de certo modo
sempre as tem, porque sem dúvida as possui,
não?» (Platão, Teeteto, 197c)
sábado, setembro 27

A inteligência do animal nasce do hábito
a que a sequência repetida dos eventos
do mundo o acostuma.
O mesmo é dizer que tudo são probabilidades
de grau maior ou menor, entre a certeza
da ocorrência, ou não, de um qualquer evento.
Ouvi dizer que os golfinhos têm um Q.I.
superior ao nosso. Eles, imersos no oceano;
nós, nesse outro verdadeiro oceano de ar,
que é atmosfera.
Numa expedição científica para observação
de um eclipse solar em pleno oceano,
os cientistas depararam-se com uma
anormal presença de golfinhos
na mesma zona do mar!
Tudo leva a supor, também eles
sabem formular a previsão de eclipses.
Será, então, que a inteligência do homo sapiens
não supera a dos golfinhos?
Colectivamente, eu creio que sim.
Por esta razão: enquanto aqueles mamíferos aquáticos
alcançaram, no oceano, uma adpatação perfeita ao seu meio,
nós, humanos, para lá de termos conseguido o mesmo,
no nosso próprio oceano, a atmosfera terrestre,
e para lá de conseguirmos modo de penetrar
em meios adversos como o do mar profundo
e o cosmos interplanetário,
nós, colectivamente, em sociedade,
na transmissão do saber pela instrução
de cada nova geração, alicerçamos
uma explicação do mundo
que independe do que dele desejamos
ou não desejamos, isto é, dispomos
de uma percepção inteligente
não-antropomórfica
do universo.
Não podem os golfinhos dizer o mesmo!
terça-feira, maio 6
quarta-feira, abril 23
Reflexões avulsas
Define-se o que é pel' o que há. Mas, como qualificar o que há?
O que há, existe, isso o diferencia do que não há. Contudo,
confrontar o que há com o que não existe
é uma desmesura infinita.
Para qualificar o que há, para distinguir entre si o que existe,
e assim pluralizar as manifestações de ser, nenhuma relação
se deve estabelecer com o que não há. O que existe só pode
relacionar-se com o que há, de que aliás depende
por composição.
Como discernir então diferenças no que existe? Arbitrando qualidades,
estados, eventos, cuja presença ou ausência imponha semelhanças/
/dissemelhanças entre as manifestações do que há.
Tal operação implica a co-possibilidade do observador com a coisa observada
o qual arbitra as diferenças que entender operar nas coisas que observa.
Especificando cada característica, o observador estabelece a dicotomia
do mundo pela presença ou ausência da qualidade que monitoriza.
Progredindo na análise, na bifurcação geométrica não/sim, 0/1,
de cada critério, modela a inteira descrição do mundo.
Mas explica-o? Não.
Tudo o que há não se explica pelo que não há e não pode explicar-se
pelo que há, por óbvia circularidade do explicado na coisa a explicar!
No Teeteto, Sócrates conta que, em sonho, lhe teriam revelado,
que «os elementos primeiros, dos quais somos compostos,
nós e todas as coisas, não teriam explicação;
cada um deles só poderia ser nomeado,
mas não seria possível dizer nada
sobre eles!
— lembra a física quântica mais os seis sabores dos quarks! :).
Na verdade, se fosse possível designar um elemento
e ele ter uma explicação própria,
então ele teria de ser nomeado
independentemente de tudo o mais!
Ora, tal é impossível.
{Pode algo independer de tudo!?
Só de um mundo 'fora do mundo',
o que requereria um 'terceiro mundo'
que integraria o mundo e a sua causa
independente, que, ipso facto
deixaria de o ser.} :)
Sendo assim, os compostos que derivam dos elementos primeiros,
inexplicáveis, só nomeáveis, como tal incognoscíveis, mas
denotáveis, observáveis (no mínimo, com a qualidade
de se distinguirem entre si,
— como os sabores dos quarks :) —,
já são passíveis de explicação pois que
«o entrelaçamento dos nomes (dos elementos)
é justamente aquilo que a explicação é»!
Assim a ciência,
que explica o que há
por aquilo que ignora!
:)
quarta-feira, abril 9

«O que presta às acções humanas o sabor da justiça
é uma certa nobreza ou coragem ( )
em virtude da qual se despreza
ficar devendo o bem-estar da vida
à fraude ou ao desrespeito pelas promessas.»
é uma certa nobreza ou coragem ( )
em virtude da qual se despreza
ficar devendo o bem-estar da vida
à fraude ou ao desrespeito pelas promessas.»
(Thomas Hobbes)
.
A quota de responsabilidade dos cidadãos
perante a inoperância da polícia e da justiça,
pode talvez filiar-se naquela falta de coragem
e de nobreza de que fala Hobbes...
.
O regime de delacção e opressão do corporativismo,
travestiu-se na demagogia dos direitos dos trabalhadores,
e na demissão dos governantes em dirigirem a sociedade.
sexta-feira, abril 4
Ainda um pouco a propósito das pertinências da cultura australiana deparei-me hoje com esta reflexão cartesiana de Ernest Gellner no seu livro Razão e Cultura, ed. Teorema:
«As outras nações sustentam crenças extravagantes e rídiculas. Quem somos nós para pensarmos que estamos isentos de confiantes ilusões? O argumento da ilusão é formulado por Descartes, como aliás deve ser, em termos de culturas inteiras, e não de erro individual. O que é perturbador é, não o facto de eu ser capaz de errar, mas de as convicções partilhadas por toda uma sociedade, insertas no seu modo de vida e por ele sustentadas, serem profundamente erróneas. [ ] Assim sendo, como podemos nós confiar nas nossas pr´prias convicções colectivas fortes? [ ] Estaremos nós isentos de insensatez? E porque nos haveríamos de nos considerar isentos dessa falibilidade?»
Como antídoto céptico a esta verdade, que nos persuade «apenas pelo exemplo e pelo costume», a dúvida purifica a inteligência nunca nos permitindo «ser persuadidos por outra coisa que não a evidência da nossa razão.» Este o fundamento e a utilidade do diálogo e da negociação política entre os estados do vários povos.




