sexta-feira, fevereiro 1

EXECUÇÃO DE UM REI - HERÓIS E PADRINHOS

Lisboa, 1 de Fevereiro de 2008

Não fará mal, creio, deitar os olhos para o que se passou há 100 anos nesta cidade de Lisboa, capital do Império, exactamente na sua Praça Nobre, o Terreiro do Paço.
Mas olhar a direito e reflectir sem preconceitos de monarquia ou república, atentos ao que conduz a demagogia, o populismo, a campanha de ódio, o incendiar de paixões, a actividade de sociedades secretas, a apologia do conceito de mártir.
E a notória incapacidade de resposta a tudo isso, o distanciamento progressivo em relação ao povo, a inabilidade em contrariar uma feroz propaganda de descrédito, a falta de sensibilidade para o excesso de despesas da Casa Real, uma arrogância de um poder já pouco ou nada efectivo, uma situação de impotência face à desordem parlamentar.
Tudo isso – e tanto ainda se podia acrescentar – conduziu a um regicídio anunciado.


Lisboa, 1 de Fevereiro de 1908, cinco horas e vinte da tarde

D. Carlos I e Luís Filipe, Rei e primogénito, recém-chegados de Vila-Viçosa, são abatidos a tiro por Manuel Buíça e Alfredo Costa, revolucionários convictos e membros da Carbonária. Os regicidas, de imediato eliminados, levam consigo o segredo da conspiração.

Quinze meses antes, Parlamento, Nov. de 1906

Afonso Costa, deputado republicano por Lisboa, a propósito dos adiantamentos ao Rei:
" E mais ordena o Povo, solenemente, que logo que esteja tudo pago, diga o Senhor Presidente do Conselho ao Rei: Retire-se, senhor, saia do País, para não ter de entrar numa prisão, em nome da lei"…"Por muito menos rolou no cadafalso a cabeça de Luís XVI ".

Simão, o Caçador
Simão, o 13º e último nome de D. Carlos.
A caça, a sua grande paixão. Mas chamar Caçador Simão ao Rei constituía prova de mau gosto e escárnio. E até dava para convidar ao crime:

" …. Desaba um trono em súbita explosão.
Papagaio real, diz-me quem passa?
- É alguém, é alguém que foi à caça
Do caçador Simão. " (Guerra Junqueiro)

Os outros tratamentos e caricaturas que os pasquins da época divulgavam, com lucro e prazer, ainda iam mais longe, ultrapassando as fronteiras da decência e mergulhando na obscenidade.


1907

A tempestade já mostrava sinais que muito dificilmente a fariam voltar para trás:

Março – Questão Académica em Coimbra;
Abril – Nova lei de imprensa, considerada repressiva;
Maio – Dissolução da Câmara dos Deputados, por falta de apoio dos progressistas a João Franco. Entrada em Ditadura.

A impopularidade crescente do governo abatia-se na figura do Rei, alimentando um ambiente pesado de conjura e anarquia.

No Café Gelo, feudo da Carbonária, sentado na mesa do costume, virado para a Rua do Príncipe (agora lº de Dezembro), o professor Buíça sonhava com uma boa carabina que materializasse a excelente pontaria de que era dotado.


1908

-27 de Janeiro, Vila Viçosa - Ao tirar esta última foto em família, quem havia de dizer ao jovem D. Manuel que, dentro de 5 dias, seria Rei de Portugal ?

-28 de Janeiro – Intentona do elevador da Biblioteca, dominada facilmente. Prisão de 120 implicados, entre os quais Afonso Costa.
Não vai com revolução?
Vai com atentado.

-31 de Janeiro, último dia em Vila Viçosa - Na sequência da revolução falhada, D. Carlos assina o decreto que prevê a deportação para as colónias dos inimigos do regime. Teria comentado que assinava a sua própria sentença de morte.

O dia seguinte deu-lhe razão. Mas, num ambiente que nada tinha de tranquilo, ter escolhido um landau aberto, sem qualquer escolta à sua volta – num trajecto por todos conhecido, sem ninguém preocupado com a sua segurança – foi um tipo de arrogância e imprudência que, pelo menos, facilitou a vida aos que tinham por missão tirar-lhe a vida.


Lisboa, (Terreiro do Paço), 1 de Fevereiro de 1908, cinco horas e vinte da tarde
(Diário de D. Manuel II)

"Eu estava olhando para o lado da estátua de D. José e vi um homem de barba preta, com um grande gabão. Vi esse homem abrir a capa e tirar uma carabina" … " O homem saiu do passeio e veio-se pôr atrás da carruagem e começou a fazer fogo" …” Quando vi o tal homem de barbas, que tinha uma cara de meter medo, apontar sobre a carruagem percebi bem, infelizmente, o que era. Meu Deus, que horror. O que então se passou, só Deus, minha Mãe e eu sabemos; porque mesmo o meu querido e chorado irmão presenciou poucos segundos porque instantes depois era varado pelas balas.”…
…”Imediatamente depois do Buíça começar a fazer fogo saiu debaixo da Arcada do Ministério um outro homem que desfechou uns poucos de tiros à queima-roupa sobre o meu pobre Pai; uma das balas entrou pelas costas e outra pela nuca, que O matou instantaneamente.”

Nota 13 de “ D. Carlos” de José M. de Castro Pinto, pág. 233:
“ O Buíça não usara o seu humilde revólver, mas sim uma carabina Winchester, semiautomática, americana, que era uma das armas mais modernas e mais caras do mundo, apresentando grande calibre e espantosa eficácia. Alguém se encarregara de a dar antes ao Buíça, que era um professor de modestos recursos.”

Quinze dias depois: Admiração e Carinho
16 de Fev. de 1908 / Jornal: A Pátria / Autor: Guerra Junqueiro
"E diante do cadáver dos homicidas, descubro-me, ajoelhando-me, com frémitos de terror, lágrimas de piedade e, porque não hei-de confessá-lo? de admiração e de carinho. Mataram? É certo. Ferozes? Sem dúvida. Mas cruéis por amor, ferozes por bondade." … "São heróis os dois regicidas portugueses. Libertaram, morrendo, sacrificando-se."

Buíça e Costa mataram – considerados heróis por grande parte de uma Nação que outros se encarregaram de envenenar, com armas que outros se encarregaram de dar.
Para trás ficavam anos de uma campanha ignóbil contra o Rei, alimentada por políticos ambiciosos do poder, sociedades secretas, intelectuais e escribas.
A Monarquia morreu com D. Carlos, no próprio Terreiro do Paço, faz hoje 100 anos.
Não foi preciso matar D. Manuel II dois anos depois. Perdeu-se assim uma oportunidade soberana para mais um regicídio com louvor.


(Fernando Novais Paiva)

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terça-feira, novembro 27

“Adeus à francesa”

Lisboa, 27 de Novembro de 2007

Duzentos anos se completam hoje sobre o triste dia em que Lisboa presenciou uma das mais tristes e chocantes cenas da sua longa história. Por onde dantes saíram caravelas à procura de um mundo novo, à vista de uns Jerónimos que testemunhava uma epopeia sem par, saia agora uma corte, numerosa e atarantada, ao som dos gritos da rainha louca.
O filho, regente, havia decidido rumar ao Brasil, para não cair em mãos francesas.
É esse período terrível da 1ª invasão que se pretende evocar, com uma mensagem muito clara: os reis podem fugir; o povo pode ser calcado por botas estranhas. Mas é o povo quem se levanta primeiro e cria condições para que a corte regresse. Não com choro, nem lamúrias. Muitas vezes com as forquilhas em vez de mosquetes.

D. João VI, príncipe regente nem para fugir tinha jeito. Demorou tanto a fazê-lo que ainda deu tempo a que Junot lhe fosse dizer adeus a S. Julião da Barra, pela manhã de 29 de Novembro de 1807, um mês depois da assinatura do infame Tratado de Fontainebleau que riscava Portugal do mapa, retalhando-o em três bocados, cada um já com o seu dono.

Para o executar aqui estava Junot. Tinha vindo bem depressa, pela Espanha fora e pelas nossas Beiras, que a família real nas suas mãos era uma boa caçada. Não gostou nada de os ver sair do Tejo. O primeiro objectivo não tinha sido atingido e fora em vão que, de tanta marcha forçada, o seu exército se tivesse transformado num bando de maltrapilhos, exaustos e esfomeados.

Resistência, pelo caminho, só a encontrou nas forças da Natureza. O que seria se uma Ala dos Namorados, bem colocada numa dessas serranias por onde a tanto custo passou, decidisse não estar de acordo com o desaparecimento da sua terra?

Lisboa resistira ao cerco de D. João de Castela. Agora fora ocupada por um bando. Naquele tempo, o nosso João estava dentro dos muros. Agora, este João fugia para o Brasil.

Mas é esse bando que o povo deve acolher com amizade, conforme proclamação do príncipe. Então, se são amigos, de quem foge D. João? E para quê complicar-lhes o caminho até Lisboa?

É esse povo, traído, roubado, humilhado, que primeiro se levanta, mesmo antes da chegada do auxílio inglês que tão caro tivemos de pagar.O primeiro grito vem do Porto, 6 de Junho de 1808 e alastra de imediato a todo o Norte. O País acordou e agora está numa guerra implacável a tudo que lhe cheira francês.
A Junta do Porto toma a direcção suprema da revolta, proclamando a independência nacional. É presidida pelo Bispo, D. António de S. José e Castro como se reencarnasse poderes perdidos quatro séculos atrás…

Loison, o célebre maneta (1), parte de Almeida com destino ao Porto, mas em Mesão-Frio recua e regressa à base, deixando no caminho orgulho, homens, material e a devastação como resposta.
O mais temido dos generais de Junot registara um fracasso do tamanho da sua crueldade. Não fora numa batalha, com forças regulares do outro lado, em que tudo é decidido. Foi durante uma incursão para assumir o comando das províncias de Trás-os-Montes e do Porto, em que a grande parte dos seus inimigos são paisanos e milícias populares com rudimentos de armas e sem qualquer preparação militar.
Uma figura começa a destacar-se: Francisco da Silveira, transmontano de gema, na altura tenente-coronel de Cavalaria.

A rebelião tem um outro efeito determinante, para o qual a Junta muito contribui: os Ingleses privilegiam Portugal para teatro de operações e a 1 de Agosto desembarca em Lavos o primeiro contingente.

Roliça, Vimeiro, Convenção de Sintra. A 15 de Setembro, Lisboa, atónita, assiste ao embarque tranquilo da tropa francesa em navios ingleses, com armas, bagagens e tudo o mais. Estranhas condições de um armistício, em que o exército vencido, transportado em navios do vencedor, leva para a sua terra o produto do saque ininterrupto durante nove meses e meio!

"Não sucedeu o mesmo no Porto. Aí a população amotinou-se, chegou a ir assaltar os navios onde embarcara a guarnição francesa de Almeida e o seu comandante viu-se forçado a consentir que lhe revistassem as bagagens, sendo-lhe arrancadas as preciosidades que levava consigo como suprema consolação". (2)

A primeira invasão tinha acabado. E a passadeira estendida aos Franceses também.

Junot voltou a Portugal com Massena, mas não voltou a entrar em Lisboa. Tudo lhe passou a correr mal. O melhor remédio que encontrou foi o suicídio em 1813.

(a): Azulejo existente na praça da vila de Vimeiro alusiva ao desembarque inglês
(1): Origem da expressão “Ir para o maneta”: punir impiedosamente.
(2): História de Portugal – Empr. Lit. de Lisboa, 6º V, M.Pinheiro Chagas, pág 113
(3): Numa cena “que se espera tenha acontecido perto de Lisboa”, representa-se Wellesley em primeiro plano, cortando o rabicho a Junot após a batalha do Vimeiro. (Museu Nacional Soares dos Reis - Água-forte, aguarelada a cores, Grã- Bretanha, Setembro 1808, autor desconhecido.)

(Texto de Fernando Novais Paiva)

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