sexta-feira, outubro 17

Amizade e Machu Pichu

A amizade é extremamente importante, direi mesmo imprescindível. O ser humano não pode viver isolado da comunidade onde se integra. O condutor do autocarro normalmente é encarado pelo passageiro como parte integrante de uma máquina de que ele se serve e não como um ser igual a ele, ambos pertencentes à comunidade onde cada qual tem as suas funções diferenciadas.

Mas as pessoas, necessitam de comunicar entre si, de viva voz, cara a cara e não através deste ecrã branco que eu, a pouco e pouco vou enchendo de caracteres.

Hoje encontrei um colega de curso e, como temos a felicidade inestimável de podermos dispor do nosso tempo, passámos umas horas conversando. De quê, perguntarão. De nada e de tudo. Perdeu-se a arte de conversar, de cavaquear.
Lembro-me dos meus tempos de estudante, quando nos reuníamos na farmácia do meu primo, a única na terra e em que também tomava assento o padre, de quem eu já aqui falei. Não um padre beato, mas um ser humano igual aos outros e que por isso, porque uma vez foi visto de polo colorido numa praia, por uma das ricaças da terra, foi proscrito e mandado dizer missa para uma pequena capela, pertencente ao hospital da Misericórdia. Eu ia lá, uma vez por ano, na noite da consoada, assistir à Missa do Galo.
Um ano, a meio da missa, ele parou cerca de um minuto, para depois dizer com a sua voz tonitruante:

- "Estou à espera que as pessoas lá do fundo se calem".

Mas eu não vim aqui recordar o passado, aliás, para mim, é tudo passado, não há presente e o futuro está sempre a acontecer, até que um dia deixa mesmo de acontecer...

A amizade vai-se forjando, por vezes a partir de um conhecimento ocasional. Só quem tem mentes mal formadas pode pensar que, se um homem e uma mulher se conhecem, está sempre subjacente o sexo. Ainda existe quem pense assim, quem viva de “fofoquices”.

E o que tem todo este arrazoado a ver com Machu Pichu?


Tem, porque é um sítio onde gostava de ir, porque acho que, indiscutivelmente é uma das 7 Maravilhas do Mundo, porque estavam a dar na TV um pequeno documentário sobre ela, a cidade, porque numa viagem uma pessoa que já lá tinha estado me falou entusiasmada por ter tido a possibilidade, nessa altura em viagens incríveis de autocarro através da selva, de lá ter estado.

Machu Pichu para mim, cidadão vulgar desta cidade egoísta, é o sonho que também como a amizade com outra pessoa me proporcionaria.
Talvez um dia lá consiga ir. A amizade com outra, ou outras pessoas, felizmente não são tão inatingíveis.

18 Comentários:

Às 17 outubro, 2008 10:10 , Blogger Ferreira-Pinto disse...

A amizade é como a quinta-essência da vida. Plenamente de acordo consigo neste pormenor, na referência que a nobre arte de cavaquear devia ser recuperada, especialmente se envolvesse um copo ou dois de um vinho jeitoso, umas azeitonas, pão e cebola ...

Machu Pichu? Também eu gostava de um dia lá pôr os pés!

 
Às 17 outubro, 2008 12:59 , Blogger Peter disse...

ferreira-pinto

Embora me considere virado para o futuro, não posso esquecer os factos, as pessoas e os acontecimentos da minha juventude. Foram eles que formaram o homem que hoje sou.
E como eu recordo as anedotas brejeiras contadas pelo padre, o bom vinho tinto e o queijo de ovelha de fabrico local, bem como o pão estaladiço acabado de sair do forno de lenha. Hoje como pão de plástico, mole e feito num forno a gasóleo ...

Bom fds

 
Às 17 outubro, 2008 14:38 , Blogger Ant disse...

Meu caro não há nada, mesmo nada, que substitua um bom amigo.
Há anos cometi o erro de perder o contacto com os meus amigos. Felizmente que reatei os encontros e até hoje lá nos vamos encontrando com as nossas piadas e os desalentos.

É um grande desgosto quando desiludimos ou somos desiludidos por um amigo.

Abraço

 
Às 17 outubro, 2008 16:40 , Blogger Peter disse...

ant

Penso que a amizade entre homens é mais forte e duradoura do que entre mulheres.
O que achas?

 
Às 17 outubro, 2008 18:55 , Blogger joshua disse...

Temos de ter uma Machu Pichu dentro sempre viva.

 
Às 17 outubro, 2008 20:55 , Blogger Peter disse...

joshua

Esforço-me por isso ...

 
Às 17 outubro, 2008 21:58 , Blogger Tiago R Cardoso disse...

se tivermos o espírito aberto encontraremos a amizade que procuramos,nem que para isso tenhamos de cair várias vezes, temos de continuar, as quedas são a selecção natural.

 
Às 17 outubro, 2008 22:20 , Blogger joshua disse...

Pelo modo como tão bem o exprimes, mostras estar já além do esforço. Pois que colhas abundância de essa feliz sementeira.

 
Às 17 outubro, 2008 22:22 , Blogger joshua disse...

Tiago, nem tanto. [Se o Peter me Permite só de esta vez] A amizade que procuramos tem de ser a amizade que nos procura para que seja amizade. O mal é investir em quem nos não vê. Não fica mal em quem investe. Fica mal em quem não é capaz de corresponder.

 
Às 17 outubro, 2008 22:32 , Blogger joshua disse...

Lendo e relendo o teu texto, Peter, dá vontade de que um dia acontecesse que todos os teus amigos da bloga te oferecerem felizes essa justissima oportunidade para cumprires um sonho, assim como aquele padre merecia quem o compensasse do ostracismo beato de que foi humilde vítima. E se estivesse anonimamente a procurar namorar? Celibato ainda não é castramento dos afectos, mas uma opção por causa e ao serviço deles.

Também tenho muitos sonhos semelhantes a este teu. Custa-me ter de duvidar algum dia poder satisfazê-los.

Aquele Abraço
[Acho que por esta vez termino]

 
Às 17 outubro, 2008 23:35 , Blogger Peter disse...

joshua

Claro que podes dialogar com o Tiago pois também me esforço para que este espaço seja aberto e local de "amena cavaqueira", como diz o Ferreira Pinto, ou como aquela que nos longínquos anos 60 se travava na farmácia do meu primo, em que este e o padre eram as figuras que pontificavam. Eu era um miserável puto do secundário, onde aprendi Latim que me foi bem útil para fazer a Cadeira de Direito Romano.
O padre, coitado, já morreu, mas não me admiro que fosse como dizes:
"aquele padre merecia quem o compensasse do ostracismo beato de que foi humilde vítima. E se estivesse anonimamente a procurar namorar?"

P.S. - Se não se importa vou inclui-lo nos n/links.

 
Às 18 outubro, 2008 01:12 , Blogger joshua disse...

Caríssimo Peter, é uma honra que me juntes aos teus.

A tua crónica e a referência compassiva a esse padre já falecido fez que cá por dentro me retinissem umas cordas de 'solidaria caridade' com ele ou a sua memória, permite-me a redundância dos conceitos, porque o homem não tinha de ser tramado e suportar esse ferrete de licencioso/tentável/duvidoso para o resto da vida.

Nele, no seu drama talvez, revejo imensos outros, vítimas das malhas que os apertavam nas obediências castrantes, repressivas, onde com certeza não se poderiam ter realizado inteiramente na liberdade e na descodificação livre dos seus limites. Procurar consolo e amor não deveria ser perseguido, mesmo dentro da responsabilidade sacerdotal, pelo menos a quem esses vectores permanecem fortes na respectiva pulsão.

Pelo contrário, a licenciosidade é um desporto de os autênticos altruístas e dedicados ao benefício dos seres e comunidades humanas se não sentem capazes e são esses que são enredados nas denúncias dos outros; e são esses no fundo, serenos, limpos, felizes, os que acabam crucificados. Às vezes penso que o maior fermento de risco e corrosão que Jesus trouxe ao Judaísmo foi ser extraordinariamente belo, conviver extraordinariamente com mulheres, que o acompanhavam e serviam e, ser 'tocado' por elas como abraçado e beijado pelos familiares e amigos. 'Tocar' é um verbo bíblico muito forte e aparece perturbadoramente no relato da ressurreição: «Maria»; «Rabouni!» «Não me toques.» Na verdade, o hábito era que Ele, que não era nenhum Aiatola Komeni, tocasse e fosse tocado. Não nos compete saber com que grau corpóreo, mas compete-nos não duvidar com que verdade, com que pureza, com que divindade e plenitude terá sido experimentar sem pecado o amor humano por Si criado.

Nunca pensei nestes termos, mas começo a pensar que os óbices ao nosso Depósito da Fé Católica são as mitificações e excelsificam virtudes ao nosso alcance ao mesmo tempo que desencarnam e descarnam aquilo que nos torna absoluta e eminentemente humanos e não poços de secura e desafectividade.

Certamente, no caso do nosso padre, a beata que o tramou talvez tenha sido por ele rejeitada nos seus avanços pudicos, sei lá.

 
Às 18 outubro, 2008 01:14 , Blogger joshua disse...

E, já agora, Aquele Abraço

 
Às 18 outubro, 2008 12:06 , Blogger Peter disse...

Belíssmo e esclarecedor texto. Antevejo nele a defesa dos padres católicos no sentido de constituirem família, posição que tem a minha aquiescência.
No seguimento de uma doença renal que me atingiu em Março e no seguimento das sequelas da cortisona utilizada para a tratar, doença da qual e sequelas já completamente debeladas, voltei à Fé Católica.
Sigo-a a meu jeito, voltei a encontrar serenidade e paz de espírito, vivo os cânticos e o silêncio, mas a minha paixão pelo Cosmos leva a interrogar-me e a interpretar a Bíblia de acordo com os conhecimentos, poucos, que tenho sobre o infinitamente grande e o infinitamente pequeno.

Abraço e votos de um bom fds.

 
Às 18 outubro, 2008 21:32 , Blogger Marta disse...

Olá, Peter, também eu gostava de ir a Machu Pichu...Como um desafio a mim própria...
Há dias em que gostava de estar em silêncio; outras em que procuro a presença de amigos para ter a certeza de que estou viva...
Obrigada por me ajudares a ter essa certeza...
Beijos e abraços
Marta

 
Às 18 outubro, 2008 22:12 , Blogger Peter disse...

Marta, melhor que silêncio é ver o Sporting jogar e ganhar, com o som da TV no mínimo e a ouvir música clássica no iPod. Parece que estamos a assistir a um ballet moderno.

 
Às 18 outubro, 2008 22:53 , Blogger stériuéré disse...

Amigos há poucos,e contam-se pelos dedos, com quantos podemos contar se precisamos , mas, os colegas é que são muitos!E quando temos valor monetário, somos um espectáculo, e quando soms pobres, ......Olá, tudo ? Vá xau!
Enfim, Antes poucos e bons do que muitos e fracos!

 
Às 19 outubro, 2008 09:55 , Blogger joshua disse...

Defendo, Peter, a velha diversidade opcional na liberdade na vivência do celibato sacerdotal ou não. O lado canónico de esse mesmo celibato visou acautelar o mais das vezes o lado patrimonial e terreno que o bom progresso interior na caridade fundamental. E por isso teve páginas negras e luminosas, como em tudo o que é humano.

Votos de boa saúde continuada, graças a Deus, o pior já passou.

Um abraço.

 

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