quarta-feira, outubro 8

A implosão da mentira

Mentiram-me.
Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente.
Mentem de corpo e alma completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem sobretudo impunemente.
Não mentem tristes,
alegremente mentem.
Mentem tão nacionalmente
que acham que mentindo história a fora
vão enganar a morte eternamente.

Mentem, mentem e calam
mas as frases falam e desfilam de tal modo nuas que mesmo o cego pode
ver a verdade em trapos pelas ruas.
Sei que a verdade é difícil e para alguns é cara e escura, mas não se
chega à verdade pela mentira nem à democracia pela ditadura.

Evidentemente crer que uma flor nasceu em Hiroshima e em Auschwitz
havia um circo permanentemente.

Mentem, mentem caricaturalmente,
mentem como a careca mente ao pente,
mentem como a dentadura mente ao dente
mentem como a carroça à besta em frente, mentem como a doença ao
doente, mentem como o espelho transparente mentem deslavadamente como
nenhuma lavadeira mente ao ver a nódoa sobre o rio mentem com a cara
limpa e na mão o sangue quente, mentem ardentemente como doente nos
seus instantes de febre, mentem fabulosamente como o caçador que quer
passar gato por lebre e nessa pilha de mentiras a caça é que caça o
caçador e assim cada qual mente indubitavelmente.

Mentem partidariamente,
mentem incrivelmente,
mentem tropicalmente,
mentem hereditariamente,
mentem, mentem e de tanto mentir tão bravamente constroem um país de
mentiras diariamente.

(Afonso Romano de Sant'Ann. Enviado por Manoel Carlos, do blog “Agreste”)

8 Comentários:

Às 08 outubro, 2008 20:59 , Blogger Tiago R Cardoso disse...

bom escrito e não é mentira nenhum.

 
Às 08 outubro, 2008 21:53 , Anonymous padeiradealjubarrota disse...

Gostei. Mentem encapuçadamente e riem alarvemente. Hoje em dia quanto mais mentem mais riem no vazio.

 
Às 08 outubro, 2008 21:54 , Blogger Peter disse...

Engraçado é que o texto tem largos meses e que, embora escrito no Brasil, tem plena actualidade no que se passa por cá.

 
Às 10 outubro, 2008 19:01 , Blogger Menina_marota disse...

Sei que não é muito correcto da minha parte deixar aqui um extenso texto, mas não resisto a partilhar um outro poema, de 2 brasileiros e que muito de poderiam adaptar ao estado da nossa nação... ora aqui vai ele...

"SINTO VERGONHA DE MIM
por Cleide Canton"


"Sinto vergonha de mim
por ter sido educadora de parte desse povo,
por ter batalhado sempre pela justiça,
por compactuar com a honestidade,
por primar pela verdade
e por ver este povo já chamado varonil
enveredar pelo caminho da desonra.

Sinto vergonha de mim
por ter feito parte de uma era
que lutou pela democracia,
pela liberdade de ser
e ter que entregar aos meus filhos,
simples e abominavelmente,
a derrota das virtudes pelos vícios,
a ausência da sensatez
no julgamento da verdade,
a negligência com a família,
célula-mater da sociedade,
a demasiada preocupação
com o "eu" feliz a qualquer custo,
buscando a tal "felicidade"
em caminhos eivados de desrespeito
para com o seu próximo.

Tenho vergonha de mim
pela passividade em ouvir,
sem despejar meu verbo,
a tantas desculpas ditadas
pelo orgulho e vaidade,
a tanta falta de humildade
para reconhecer um erro cometido,
a tantos "floreios" para justificar
atos criminosos,
a tanta relutância
em esquecer a antiga posição
de sempre "contestar",
voltar atrás
e mudar o futuro.

Tenho vergonha de mim
pois faço parte de um povo que não reconheço,
enveredando por caminhos
que não quero percorrer...

Tenho vergonha da minha impotência,
da minha falta de garra,
das minhas desilusões
e do meu cansaço.
Não tenho para onde ir
pois amo este meu chão,
vibro ao ouvir meu Hino
e jamais usei a minha Bandeira
para enxugar o meu suor
ou enrolar meu corpo
na pecaminosa manifestação de nacionalidade.

Ao lado da vergonha de mim,
tenho tanta pena de ti,
povo brasileiro!

(Poema de Cleide Canton)

"De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantar-se os poderes
nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto"

(excerto do discurso de Ruy Barbosa)


Um abraço carinhoso

 
Às 12 outubro, 2008 00:35 , Anonymous Ashera disse...

Sou fã de Afonso Sant'Ana
*****
E ele tem razão lá e cá
*****
E mentem , mentem mentem!

Obrigada meu amigo

O teu blog é rico em sabedoria
Mais beijos

 
Às 12 outubro, 2008 00:37 , Anonymous Ashera disse...

Beijinhos para a Menina Marota

Também esse poema nos faz cá o real!

Estejam bem sempre

 
Às 13 outubro, 2008 14:58 , Blogger Peter disse...

Menina Marota

"não é muito correcto da minha parte deixar aqui um extenso texto"

Ora porquê? Entra e serve-te à vontade.

Gostei em especial do Ruy Barbosa.

Votos de boa semana.

 
Às 13 outubro, 2008 15:00 , Blogger Peter disse...

Ashera

"O teu blog é rico em sabedoria "

também não exageremos ...
Faz-se o que se pode e quando se pode.

Boa semana.

 

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