sábado, dezembro 13

O homem do barrete vermelho


Estava encostado á parede e deveria ter cerca de 40 anos, um pouco menos, um pouco mais. De barrete vermelho, uma parka amarela com capuz azul, cachecol verde e mochila laranja, tez morena meio envelhecida.
Sentou-se no chão, pôs aos seus pés a mochila sebenta e ao seu lado um pequeno recipiente de plástico com água e um papel, que servia de mesa a um cão que dormitava indiferente a tudo e todos.
O homem fumava um cigarro com filtro e estendia a mão, onde jaziam algumas moedas de cêntimos.
Dantes eu diria que "tilintavam", agora nem isso fazem. Tinha sido o último dia para trocar as antigas notas de 20 escudos no Banco de Portugal. Mas quem é que se mexia, com esse calor, para trocar uma bonita nota por 10 cêntimos? Eu não, prefiro ficar com a nota, ao menos serve-me como marcador de livros.

Entre nós, a rua por onde desfilavam mulheres jovens, cada vez mais bonitas, com decotes generosos e seios espantosos. A minha companhia disse-me que as mulheres andavam em feroz competição. Os homens escasseiam e elas têm que enfrentar uma concorrência cada vez maior. Enquanto trocávamos impressões, dois jovens nitidamente "gays" sentavam-se numa mesa ao lado.
- "Vês o que te disse"? Disse-me ela. "Olha o rapaz de azul, um autêntico desperdício."
Tive de concordar.
"Por isso, elas têm de exibir os seus dotes. É a concorrência, uma concorrência feroz.", continuava ela.
"Bem, é assunto que não me preocupa, não me afecta", respondi afagando-lhe o braço.
"Também não é preciso estares a olhar."
"Não posso estar aqui de olhos fechados, como te poderia ver?"
"Desculpas, já te conheço."

Ao nosso lado, três francesas de exportação, daquelas para quem não valia sequer a pena olhar. Às tantas, uma delas, já "entradota", levantou-se e foi dar umas moedas e um bolo ao homem do barrete vermelho. Este mirou as moedas com ar de desprezo, meteu-as no bolso e deitou o bolo para o papel que servia de prato ao cão, o qual continuou a dormir, ou a fingir que o fazia.
Tirou do mesmo bolso uma lata de cerveja, de que beberricou um pouco, enquanto passava um negro a quem julgo que pediu um cigarro, mas este nem se dignou olhar para ele.
Iniciou depois uma operação: cortou com um canivete parte do filtro dum cigarro, retirou-lhe o papel branco que o envolvia e voltou a meter nele o interior do filtro.

As miúdas continuavam a passar…

O homem resolveu comer metade do bolo do cão, que não protestou, preferiu continuar a dormitar. Depois comeu a outra metade, apanhou o recipiente de plástico, despejou a água, parte para cima do cão, pegou na mochila e foi-se embora.
Já quase ao virar da esquina o cão resolveu levantar-se e, com o rabo entre as pernas, seguiu o rasto do homem.
Deve ter pensado, se por acaso os cães pensam: "mais vale este que nenhum".

(Foto GOOGLE - img.olhares.com/data/big/104/1046636.jpg)

11 Comentários:

Às 13 dezembro, 2008 11:29 , Blogger antonio - o implume disse...

Olha nós somos esse cão disfuncional que segue o Sócrates, também nós pensamos, se por acaso os portugueses pensam: "mais vale este que nenhum".

Gosto de ambientes que fluiem.

 
Às 13 dezembro, 2008 11:39 , Blogger tulipa disse...

Hoje, embrulhada numa manta espreito o teu cantinho. Dia de verdadeiro Inverno, chuva, frio e vento, que mais se pode pedir?
Eu cá queria um grande nevão, uma unica vez na vida gostaria de estar por dentro das janelas a observar um nevão a sério.

Por cá fiz uma homenagem ao cineasta Manoel de Oliveira, no dia dos seus 100 anos.

GOSTEI DA TUA HISTÓRIA.
Bom fim de semana.
Beijokas.

 
Às 13 dezembro, 2008 12:36 , Blogger Peter disse...

antonio - o implume

Agradeço o teu comentário. Neste momento em que estou indeciso entre publicar, ou não publicar, uma colectânea de textos publicados aqui no blogue e alguns no "conversas3" a que consigo aceder através do Google, interessa-me sondar a opinião dos que me lêm e por isso os v/comentários são preciosos.

Bom fds chuvoso.

 
Às 13 dezembro, 2008 12:59 , Blogger Peter disse...

tulipa

Agradeço o teu comentário pelas motivos que expus aí em cima ao António: sondar a aceitação de textos para me decidir sobre a publicação do livro.

 
Às 13 dezembro, 2008 13:56 , Blogger JOY disse...

Amigo Peter

È engraçado a quantidade de pormenores de que que nos conseguimos aperceber sentados numa esplanada qualquer. Gostei muito deste texto.

Um abraço
Joy

 
Às 13 dezembro, 2008 21:45 , Blogger Compadre Alentejano disse...

Esse cão, fiel seguidor, seria ministro das finanças? ou seria da Presidência?
Compadre Alentejano

 
Às 13 dezembro, 2008 22:02 , Blogger Peter disse...

Olá Joy

Obg pela opinião. Passei o dia a fazer a 3ª selecção de textos, ler e corrigir, são 104 o que deve dar um livro de 110/120 págs.
Penso que esta será a definitiva.

Desculpa mas com este trabalho tenho descurado as visitas aos blogs amigos.

Abraço

 
Às 13 dezembro, 2008 22:04 , Blogger Peter disse...

Compadre Alentejano

"Seguidores" não, "perseguidores".

 
Às 14 dezembro, 2008 19:42 , Blogger Tiago R Cardoso disse...

gostei da pequena historia e do antes este que nenhum.

da minha parte o amigo tem aqui um leitor para o livro.

 
Às 14 dezembro, 2008 20:40 , Blogger Meg disse...

Peter,
Eu gosto dos teus textos em geral e deste em particular. É uma boa história, da qual podemos tirar várias ilações. Depende de como é "lido"...
Por mim, inscrevo-me já como futura leitora.

Um abraço

 
Às 14 dezembro, 2008 23:22 , Blogger Peter disse...

Tiago e Meg

Bem, já tenho aqui dois futuros leitores. Nada mau!

 

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