quinta-feira, dezembro 11

George Steiner (VI)

Continuação da entrevista feita por Clara Ferreira Alves (CFA)

CFA - É o mesmo que quando diz que temos Maradona a correr com a bola e dois milhões de pessoas a olhar para ele ao mesmo tempo.
GS - Agora, temos os olhos neste Mundial.
CFA - Onde estava no 11 de Setembro?
GS - A fazer alpinismo.
CFA - Ainda faz alpinismo?
GS - Subo colinas, ando em vez de escalar. Nas colinas. Tenho 73 anos.
CFA - Ainda joga xadrez?
GS - Mais do que nunca.
CFA - E ainda ouve música.
GS - Mais do que nunca.
CFA - À parte ler e escrever, retira da vida muito prazer.
GS - Quando me levanto de manhã, digo «obrigado». Há duas espécies de seres humanos, os que dizem «obrigado» e os que dizem «que se dane». Eu sou dos primeiros, os que dizem «obrigado», sempre fui. Lembro-me que sobrevivi com a minha família em 1940, por milagre, fomos levados para segurança por milagre. Tive uma vida muito gratificante. Tinha esperanças de ser um grande escritor, que não sou, esperava ser um artista, não sou, tinha esperanças de ter sido. Não fui. Mas tive dois ou três momentos na vida em que levei a carta, fui o «postino», e fiz uma grande diferença. Lembro-me do dia em que disse ao «Times Literary Supplement» que ia escrever um grande artigo sobre um escritor e eles me perguntaram como é que se escreve Celan, Paul Celan? C, E, L, A, N? Foi o primeiro artigo sobre ele em inglês e fiquei muito feliz de o fazer. E fiz isso por um certo número de grandes escritores, levei a carta para o marco do correio certo. Isto foi um grande privilégio, que é o do grande executante de música. Sem os que a tocam, não teríamos a grande música que foi composta.
CFA - O que é para si um grande escritor?
GS - O que se sabe a partir da primeira frase do livro. O verdadeiro criticismo é uma dívida de amor, o contrário da desconstrução, do pós-modernismo. Essa primeira sentença é o programa da minha vida.
CFA - Ainda temos esses grande escritores de que fala? Os maiores? O Broch, Proust, Joyce, Musil, Mann? Ou acabaram com o século XX?
GS - Ainda temos gigantes. É difícil julgar a contemporaneidade. Soljenitsine foi um gigante em dois ou três livros e foi um homem muito perigoso noutros. E ainda existem grandes poetas. Borges ainda está aqui. Não concebo um mundo sem Borges. Mas gostaria de voltar a falar das mulheres. Porque é que as mulheres continuam a ter filhos se sabem que eles morrerão na guerra e no massacre? Em muitas partes do mundo, deviam dizer não ao homem. Eu não quero ter um filho que será morto no Kosovo, no Ruanda. É uma questão de Aristófanes na peça «Lisístrata», quando as mulheres dizem «não, nós paramos a guerra por deixarmos de fabricar soldados». É uma das cenas. Se eu fosse um grande escritor dizia-lhe que romance gostaria de escrever. Um homem num regime despótico, qualquer regime despótico, com polícia secreta. Esse homem chega a casa ao fim da tarde vindo do trabalho. A mulher consegue cheirar o seu trabalho. Eu sei que isso é verdade. A tortura deixa um cheiro. Se um homem tortura, ele cheira, mesmo que se lave. Esse homem chega a casa com o seu cheiro e vai para a cama com a mulher. Como é que ela consegue? Como é que ela consegue? Gostaria de começar um romance aqui, e esse romance precisaria de um grande escritor. O número de mulheres que vivem com homens que estão a fazer coisas bestiais, já reparou? Esta entrevista está muito negra, demasiado negra. Vamos por um momento para um registo mais leve. Na cidade de Londres, agora, existem homens de negócios que eu conheço que fecham indústrias que deixam no desemprego mais de cinco mil pessoas. De um dia para o outro, atenção! E recebem em troca um milhão, dois milhões, chama-se a isso «share options», «golden handshake». Será que as mulheres deles, quando eles entram pela porta dentro, lhes dizem «Seu porco»? «Filho da mãe»? E se não o dizem, porque não?
CFA - Talvez porque estão demasiado entretidas a gastar os proveitos desse horror numa loja Gucci?
GS - Você ainda é mais cínica do que eu. Mas vê a minha questão. Elas não gritam, não protestam. Não dizem «Como é que você pode?»
CFA - As mulheres endureceram, tiveram de endurecer. Ficaram duras.
GS - Ou indiferentes.
CFA - Ou corruptas.
GS - Ou corruptas.

(continua)

5 Comentários:

Às 11 dezembro, 2008 15:52 , Blogger vbm disse...

Mas há mulheres,
que mandam esses maridos à m.

 
Às 11 dezembro, 2008 19:19 , Blogger Tiago R Cardoso disse...

"Quando me levanto de manhã, digo «obrigado». Há duas espécies de seres humanos, os que dizem «obrigado» e os que dizem «que se dane». Eu sou dos primeiros, os que dizem «obrigado», sempre fui."

muito bem.

 
Às 11 dezembro, 2008 19:48 , Blogger Peter disse...

Também sou Tiago. O presente dia é de facto um "presente".

Abraços

 
Às 11 dezembro, 2008 19:50 , Blogger Cadinho RoCo disse...

Estamos num mundo em que interesses entram em constantes choques alterando valores e percepções, moldando novos fundamentos e comensurando novos conceitos de consciência.
Cadinho RoCo

 
Às 11 dezembro, 2008 22:00 , Blogger Peter disse...

Cadinho RoCo

Tens razão, um mundo em mudança. Agora pensando talvez egoisticamente em nós, contaram-me que o Medina Carreira deu ontem aqui na SIC uma entrevista absolutamente arrasadora. Quem o puder fazer, é melhor fazer as malas e fugir para o mais longe possível.

 

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