terça-feira, dezembro 9

George Steiner (IV)

Continuação da entrevista feita por Clara Ferreira Alves (CFA)

CFA - E África, o continente que está a morrer?
GS - Não podemos fazer muito. Com o dinheiro que lhes damos eles compram armas, e os maiores criminosos de guerra desde Hitler são os vendedores de armas, os países que as vendem. A sida é incontrolável. Para variar, o Nobel premiou um grande escritor, o sr. Naipaul, que disse a verdade sobre África e foi odiado por isso. Nem nos nossos países ocidentais conseguimos resolver o problema dos imigrantes, de que precisamos desesperadamente e que mantemos de fora. Eu sou um judeu, sei o que significa fugir. Estamos numa situação esquizofrénica. Grandes crises esperam a Europa.
CFA - A falência do modelo marxista contribuiu para isso?
GS - A América Latina está, de certo modo, no início de um novo marxismo. Na Argentina, os armazéns têm mais carne que qualquer outro país no mundo e as pessoas estão a passar fome. Foi o que Marx previu. O capítulo não fechou, por causa da exploração dos pobres. O México, que eu adoro, tem tanta pobreza, tanto desespero, tanta criança a definhar e morrer. E os outros, a Venezuela, por aí fora.
CFA - O castrismo falhou. Esteve quase lá.
GS - Cuba criou um sistema de saúde e de educação que são a inveja dos outros países da região, mas a um preço terrível, censura, estupidez. Por outro lado, o sr. Bush prossegue a sua política idiota contra Cuba porque o seu irmão precisa dos votos dos exilados cubanos em Miami.
CFA - Os políticos de hoje, os senhores do mundo, não leram livros, são incultos. Churchill, de Gaulle, Mitterrand e outros, liam livros.
GS - Willy Brandt... homens de Estado com grande cultura. Todos mortos, e alguns foram assassinados. Se Rabin e Sadat fossem vivos... dois homens com visão de paz assassinados pelo seu povo. Estamos a falar de coisas sérias, e quem me dera que grandes escritores nos ajudassem mais. Mas Clinton lia muito, e sabia do que falava. Sei-o por experiência própria, ele discutiu comigo taco a taco, sem hesitações, depois de um jantar para o qual me convidou. Uma inteligência portentosa.
CFA - É um dos últimos sábios herdeiros da grande tradição europeia, um pensador, um professor, um crítico e um escritor. É um espécime raro pela lucidez e a humanidade. Como é que carrega este manto?
GS - Sou acima de tudo um professor. Sou um professor de professores. Tenho estudantes que agora são professores por esse mundo fora. Tenho uma família de estudantes que são a melhor família que se pode ter. Tenho muitos livros traduzidos em muitas línguas e tenho muita sorte, não me esqueço disso.
CFA - Voltará a haver, entre eles, um novo George Steiner?
GS - Comecemos por ter certezas sobre o velho George Steiner. Pushkin, que era um aristocrata, um príncipe, disse muito «obrigado aos meus tradutores, aos professores que falam sobre mim. Eles levam as cartas, são o ‘postino’, o carteiro, eu escrevo-as». E eu toda a minha vida soube desta diferença. Quando me levanto de manhã digo para mim, Pushkin escreve a carta e eu tenho muita sorte em levá-la ao destino. É uma maravilhosa profissão e uma maravilhosa vocação.
CFA - E a sua ficção, não a reconhece?
GS - Deus sabe que não me compete a mim julgá-la.
CFA - Não seria demasiado severo para consigo mesmo?
GS - Eu sei onde está a verdadeira grandeza, sei onde está o festim em que se sacrifica o chibo, mas outros julgarão isso.
CFA - Existe grandeza na grande inteligência e na humanidade dessa inteligência.
GS - O mundo universitário está doente, doente com convencimento e vaidade. Qual é a minha querela com o homem de génio — e Derrida é um homem de génio e eu não sou — qual é a minha querela? A palavra dele: pré-texto. Nenhum texto é, para mim, pré-texto. O senhor Cervantes, e Shakespeare, e Góngora, não precisam do pobre e pequeno senhor Steiner, ele é que precisa deles, terrivelmente. Por isso, quando o «monsieur» Derrida usa a palavra pré-texto, dizendo que qualquer obra de literatura está à espera de ser desconstruída, eu respondo, o diabo é que está. É um desacordo muito fundo, e é um desacordo moral.

(continua)

4 Comentários:

Às 09 dezembro, 2008 03:20 , Blogger alf disse...

a humildade é um estado de alma extremamente fugidio...

 
Às 09 dezembro, 2008 09:57 , Blogger antonio - o implume disse...

E não resistiu a fazer o escrutínio dos políticos que servem e os que não servem... por mais simpático que Clinton fosse bombardeou um pouco por todo o lado, sem esquecer, claro está, o Iraque!

As guerras sempre foram feitas pelos homens, cultos ou incultos, o problema está na estupidez e não existe cultura que sirva de antídoto!

 
Às 09 dezembro, 2008 10:08 , Blogger Peter disse...

alf

Não é do meu feitío entrar em discussões e não é agora que o irei fazer.
Caso esteja interessado, poderá ler a minha resposta a este seu comentário, no artigo "Lamentável..." que acabei de escrever e colocar no blogue.

 
Às 09 dezembro, 2008 10:23 , Blogger Peter disse...

antonio - o implume

Pensei em acabar com a publicação da entrevista, mas decidi levá-la até ao fim pois as estatísticas acusam um aumento de quase 100% no número de visitantes, portanto é porque tem leitores.
Não serei eu que irei defender os americanos e muito menos o sr George Steiner, do qual não conheço a sua obra. Irei hoje tentar comprar um livro dele.

Concordo contigo quando escreves:

"As guerras sempre foram feitas pelos homens, cultos ou incultos, o problema está na estupidez e não existe cultura que sirva de antídoto!"

Não estou a ver esse George Steiner de espingarda ao ombro (rsrsrs) como "antídoto" à belicosidade americana.

 

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