sábado, dezembro 6

George Steiner (II)

Continuação da entrevista feita por Clara Ferreira Alves (CFA)

“CFA - Poria Martin Amis nesse grupo?
GS - Não. Martin Amis trouxe à prosa inglesa uma certa energia americana. «Money» é um livro brilhante. Mas são paródias da América, não se comparam com a inteligência política de Philip Roth, com o interesse de Saul Bellow na ciência. Existem alguns escritores de valor, claro. O que eu queria dizer, e estava a exagerar, é que numa prateleira de livros escritos hoje, os vinte melhores, onde o estilo é mais poderoso, são de História. Grande período para a História, a Biografia, e alguns grandes textos filosóficos.
CFA - Existem grandes filósofos?
GS - Sem dúvida, se se quiser saber o que se passa na cultura ocidental os nomes são os de Foucault, Barthes, Lacan, Derrida, que não escrevem romances, escrevem formas mais complicadas. O romance tornou-se uma palavra alemã muito feia «Unterhaltungsliteratur», literatura de entretenimento. Quando se está cansado à noite, pega-se num romance — e não devia ser assim.
CFA - Ficção «light».
GS - Exactamente. Amanhã pode aparecer um novo Dostoievsky. Afinal, Vargas Llosa acaba de escrever um grande romance «A Festa do Chibo». É um grande romance de ficção política, como o «Nostromo» de Conrad. E Llosa não é um escritor regular, tem altos e baixos e não tem uma obra no sentido clássico, como Proust ou Joyce, mas este livro é magnífico. Cada vez mais a escrita mais perfeita, a mais criativa e inventiva, está em formas não ficcionais. Existe grande escrita de ciência. Hawking e o Big Bang, James Watson e a Double Helix, poderia dar-lhe dez títulos.
CFA - E o português António Damásio, no cérebro.
GS - Certamente. Eles escrevem com um sentido da excitação do mundo. A maioria dos romances tornam o mundo mais entediante do que ele é.
CFA - Mas existe nessas escritas um desejo de ficção, de agarrar a escrita da ciência com os instrumentos da ficção. E muitos deles gostariam de escrever ficção.
GS - E conseguiram? Não. Espero que não vejam nisso uma forma de descontracção, escrever romances não é isso, cuidado! Mas podem vir a existir outras formas.
CFA - O que fez a televisão aos escritores e aos leitores?
GS - Já o disse várias vezes, Shakespeare hoje estaria a escrever para televisão. E fá-lo-ia magnificamente. As energias do dramático, do imediato, estão na televisão, mas é uma forma completamente efémera. Eu posso ler um grande romance 20 vezes e é sempre novo. Um soneto de Góngora duas mil vezes. Veja os grandes filmes que foram feitos, «Une Partie de Campagne», de Renoir, «Les Enfants du Paradis», um ou dois Orson Welles. À quinta vez estão mortos. Não sabemos porquê. Em televisão é mais rápido, passados uns tempos está tudo morto. Resiste apenas pela nossa memória do acontecimento. Nenhuma outra forma linguística é a sua própria obsolescência. Até as grandes formas pictóricas mediáticas se tornam obsoletas.
CFA - Podemos falar da morte da arte?
GS - Não, estamos num grande período para a pintura, a arquitectura. Vou a Bilbao dentro de uns meses. A arte está muito viva. Não a confundam com os «media». Como disse Leopardi, a moda é a mãe da morte. E os «media» vivem pela moda. Mas há grandes talentos aí no meio. A maioria dos dramaturgos tem de escrever para televisão.
CFA - Para sobreviverem.
GS - E para chegarem às pessoas. Às audiências.
CFA - O que é uma audiência, por comparação com um público, com leitores?
GS - Posso responder. Lembra-se quando Karl Marx disse que a quantidade salta para a qualidade? Claro que sim. Pensamos que quando Jesus foi crucificado estavam umas 12 pessoas a olhar. Sabemos que na estreia do «Hamlet» estavam 800, sabemos a capacidade do Teatro Globe. Para a «Missa Solemnis» de Beethoven, 600 ou 700. No dia do Mundial, em 1986, quando a Argentina ganhou, eram mais de dois milhões a assistir. Quando Maradona acelerou para a bola, estavam a bater os corações de mais de dois milhões de pessoas. Não sabemos lidar com isto sociologicamente. Nem compreendemos.
CFA - É a física quântica da sociologia.
GS - É. Inimaginável. Os seres humanos estão a ter as mesmas emoções, riso, lágrimas, através do planeta. Uma criança chinesa está tão excitada como uma criança na Lapónia, ou um esquimó. É uma forma assustadora de controle planetário. Rupert Murdock é dono de três quintos da informação do planeta. Estes são assuntos que nos deviam ocupar como ocuparam Huxley ou Orwell.”

(continua)

3 Comentários:

Às 06 dezembro, 2008 11:07 , Blogger antonio - o implume disse...

Muito bom. "Como disse Leopardi, a moda é a mãe da morte."

Eu confesaso que me posiciono no mercado da "ficção leve"...

 
Às 06 dezembro, 2008 13:03 , Blogger Peter disse...

antonio - o implume

Reconheço que o assunto se pode tornar maçudo, até porque são 7 (sete)! Mas penso tratar-se de um documento, mais do que um artigo e, como tal, deve ser publicado sem interrupções.
Confesso, já o confessei, que desconhecia George Steiner, mas um indivíduo com o seu curriculo de ensino em prestigiosas universidades de Inglaterra e dos EUA, com dezenas de livros publicados, colaboração em prestigiosos jornais e revistas e do qual, durante este ano, foram publicadas entre nós traduções de 5 livros, não é um indivíduo qualquer e merece ser dado a conhecer.

Muitos já o conheciam, eu não.

Deste texto destaco:

"Os seres humanos estão a ter as mesmas emoções, riso, lágrimas, através do planeta. Uma criança chinesa está tão excitada como uma criança na Lapónia, ou um esquimó. É uma forma assustadora de controle planetário. Rupert Murdock é dono de três quintos da informação do planeta. Estes são assuntos que nos deviam ocupar como ocuparam Huxley ou Orwell.”

 
Às 06 dezembro, 2008 17:51 , Blogger Tiago R Cardoso disse...

Continuo bastante interessado.

Não te preocupes com o massivo, está muito bom.

 

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