quarta-feira, dezembro 3

Apagar

Voltei a apagar. De tempos a tempos volta com muita força o meu desejo de apagar tudo. Talvez não goste mesmo nada de pesos, de palavras escritas no lugar da memória, talvez…
Talvez eu sonhe sempre e afinal em caminhar pela vida carregando uma pequena mochila com uma escova de dentes, um livro de bolso e a minha NIKON.
E sobretudo o que me é mais caro, aquilo que não posso deixar de trazer comigo: os meus olhos. Viver como quem viaja, ver, ver sempre, ver tudo, ver muito, ver a superfície, ver o interior das coisas.

“É sobretudo a vida, compreendes?
O sol que vejo da minha janela e que não posso escrever: não poderei nunca escrever! Nem o sol, nem nada de essencial. Mesmo a essência das coisas, se a descubro, deve servir-me para orientar o olhar e os passos, e não para escrever.

Os textos morrem como tudo e, em última análise, quando isto acabar, nada restará de nós. Mais vale entregar à terra um esqueleto cansado, uns olhos que não se fecharam, um corpo corroído pelo sol, a escrever.

Escrever sim volta-se sempre lá, volto lá já amanhã apesar disto que digo, voltarei muito provavelmente a fazê-lo aqui, mas não é nada, escrever é uma espécie de exigência metafísica, como questionar é outra exigência metafísica e no fundo, bem no fundo das coisas, não há razão metafísica para o fazer.

Estou longe, compreendes, estou perdidamente longe e onde estou, nada disto faz o menor sentido.”

Continuo porém, com receio que ela não goste deste «presente de anos»...
Mas apagarei toda a recordatória, se mo pedir.

E replico agora, no mesmo modo de outrora:

“Mas a escrita é o único traço de união dos separados no tempo e no espaço, mesmo que nesta condição digital este mingue à correspondência de um sorriso.”

(Texto a incluir no livro “nuvens” a publicar)

8 Comentários:

Às 03 dezembro, 2008 08:37 , Blogger antonio - o implume disse...

Pelos vistos os textos ganham vida uma vez que os soltemos à leitura dos outros. Boa sorte para o livro, cá o esperamos.

 
Às 03 dezembro, 2008 11:17 , Blogger vbm disse...

Lembro-me dessa frase, Peter! Lol

 
Às 03 dezembro, 2008 13:05 , Blogger Peter disse...

antonio - o implume

Duvido que o livro chegue a ver a luz do dia pois não estou para gastar dinheiro em auto-promoção.
Veremos, pois tenho um encontro marcado com a editora para a semana.
Entretanto vamos publicando e republicando escritos antigos.

 
Às 03 dezembro, 2008 13:10 , Blogger Peter disse...

vbm

Boa memória! Este texto é, quanto a mim, dos que mais gostei de escrever. Já fora publicado no blogue, mas foi reescrito e dei-lhe outro cunho. Será o diálogo de quem escreve com um interlocutor que apenas está presente no seu pensamento.

 
Às 03 dezembro, 2008 14:55 , Blogger Ferreira-Pinto disse...

Começo a ansiar pelo dia em que assistiremos ao lançamento do livro!

 
Às 03 dezembro, 2008 19:48 , Blogger Tiago R Cardoso disse...

gostei do escrito e do "apagar" como foi colocado.

acredito que o livro tenha pernas para andar.

 
Às 03 dezembro, 2008 21:15 , Blogger Marta disse...

Apagar e reescrever....
Acabo de o fazer....
Tudo seria realmente simples se pudessemos somente caminhar e não olhar para trás...
Escrever é um prazer, para mim, desfruto-o...
E, quando me sinto triste e desorientada...tento realmente escrever sobre o Sol...
Bom texto...
Beijos e abraços...
Marta

 
Às 03 dezembro, 2008 21:37 , Blogger Blondewithaphd disse...

Então apaga e volta a apagar, não é isso, afinal a Vida? Um delete constante sobre tantas coisas para não acabarmos amordaçados, presos a coisas não apagadas que só enchem espaço, nos pesam e nada mais.

 

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