sábado, janeiro 21

Era uma vez um menino

Era uma vez um menino que passou ao lado da vida. A mãe teve-o , depois veio uma menina que morreu prematuramente com meningite e, mais tardiamente, um irmão nado-morto.
Por isso a mãe se agarrava desesperadamente a ele, com beijinhos e abraços e ele a repelia. Era um rapaz e o que queria era jogar à bola e brincar com os outros meninos, lutar com eles como todos os meninos fazem, andar solto correndo pelos campos, subindo às árvores em busca de ninhos.
E repelia a mãe, sentia-se sufocar. O amor é como uma planta, deve desabrochar livremente.
Então a mãe dizia-lhe:
- Não tens coração. No seu lugar está uma pedra.

Por contingências da vida, teve de seguir uma profissão que por vezes o colocou cara a cara com a morte e isso endureceu-o ainda mais. A família passou a serem os companheiros com quem compartilhava o dia a dia, já que o pai também nunca foi o camarada e cúmplice que gostaria que tivesse sido. Por isso o livro que mais o marcou e que de tantas vezes o ler, já quase o sabia de cor, tenha sido "Os cus de judas".
No entanto era uma pessoa sensível, amante do belo e que se emocionava facilmente. Parece uma contradição, mas não é. Talvez lhe viessem à memória as palavras da mãe. Talvez alguma vez se tivesse sentido "usado" por uma mulher que se servira dele para atingir certa finalidade. Usou-o e deitou-o fora.

Acomodou-se, tornou-se um "homem cinzento" misturado na multidão do quotidiano, sem vida e sem história.

Quando a vida lhe voltou a bater à porta era tarde demais e ele fechou a porta na cara à VIDA.

7 Comentários:

Às 21 janeiro, 2006 16:01 , Blogger Joaninha disse...

Era uma vez... Cem histórias há como a que contas... sentam-se à nossa frente, como que em frente a um inimigo temeroso e depois, se chega a haver empatia, contam-nos histórias indizíveis... e mesmo que queiramos, muitas vezes, não nos conseguimos dissociar do pesadelo… São uma vida toda, que sem vida, vão vivendo dentro de um azedume incomensurável… Gostei da tua história! Fazes Psicologia Clínica?
Bom fim de semana, outra vez.

 
Às 21 janeiro, 2006 16:13 , Blogger Peter disse...

Joaninha, não, não faço. Gosto das pessoas e elas confiam em mim e por vezes desabafam.

Destaco do teu coment:
"São uma vida toda, que sem vida, vão vivendo dentro de um azedume incomensurável…"

Bom fds e atenção à "reflexão".

 
Às 21 janeiro, 2006 18:27 , Blogger Heloisa B.P disse...

E' A VIDA!!!
Uma "historis de Vida_DE MUITAS VIDAS!
Simples e bem contada ( a HISTORIA!).

BOM SABADO!
E, UM BOM DOMINGO PARA AMANHA:_ o *AMANHA*, e' mais UM DIA, "DOS DIAS", das Nossas VIDAS_!
_Fica o meu Abraco!
Heloisa.
**********

 
Às 21 janeiro, 2006 19:27 , Blogger Su disse...

gostei da história, apesar de ser triste e seca como a vida de muitos
jocas maradas

 
Às 21 janeiro, 2006 20:46 , Blogger Leonor C.(nokinhas) disse...

É triste sermos usados e deitados fora. Os corações a quem chamam de pedra também sofrem.Quando se acomodam dizem não à vida pensando que já é tarde. Será? Há tempo marcado para ser feliz? Ou é o medo e as marcas de experiências passadas que impedem de dizer SIM?

Bom fim de semana.

 
Às 21 janeiro, 2006 22:17 , Blogger Peter disse...

nokinhas, fazes umas perguntas extremamente pertinentes.
Bom fds

 
Às 21 janeiro, 2006 22:20 , Blogger Peter disse...

Su, "triste e seca como a vida de muitos"?
Dá que pensar ...

 

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