terça-feira, julho 14

O homem de vermelho


Estava encostado á parede e deveria ter cerca de 30 anos, um pouco menos, um pouco mais. Com uma Tshirt, vestia um anorak claro/sujo por cima, umas calças de ganga em mau estado e um gorro vermelho. Louro, cabelo curto, pareceu-me inglês. Aos pés uma mochila sebenta e ao seu lado um pequeno recipiente de plástico com água e um papel, serviam de mesa a um cão que dormitava indiferente a tudo e todos.
O homem fumava um cigarro com filtro e estendia a mão, onde jaziam algumas moedas de cêntimos.
Dantes eu diria que "titilintavam", agora nem isso fazem.

Entre nós, a rua por onde desfilavam mulheres jovens, cada vez mais bonitas, com decotes generosos e seios espantosos. A minha companhia disse-me que as mulheres andavam em feroz competição. Os homens escasseiam e elas têm que enfrentar uma concorrência cada vez maior. Enquanto trocávamos impressões, dois jovens nitidamente "gays" sentavam-se numa mesa ao lado.
-"Vês o que te disse? Olha o rapaz de azul, um autêntico desperdício."
Tive de concordar.
"Por isso, elas têm de exibir os seus dotes. É a concorrência, uma concorrência feroz.", continuava ela.
"Bem, é assunto que não me preocupa, não me afecta", respondi afagando-lhe o braço.
"Também não é preciso estares a olhar."
"Não posso estar aqui de olhos fechados, como te poderia ver?"
"Desculpas, já te conheço."

Ao nosso lado, três francesas de exportação, daquelas para quem não valia sequer a pena olhar. Às tantas, uma delas, já "entradota", levantou-se e foi dar umas moedas e um bolo ao "homem de vermelho". Este mirou as moedas com ar de desprezo, meteu-as no bolso do colete e deitou o bolo para o papel que servia de prato ao cão, o qual continuou a dormir, ou a fingir que o fazia.
Tirou do mesmo bolso uma lata de cerveja, de que beberricou um pouco, enquanto passava um negro a quem julgo que pediu um cigarro, mas este nem se dignou olhar para ele.

As miúdas continuavam a passar…

O homem resolveu comer metade do bolo do cão, que não protestou, preferiu continuar a dormitar. Depois comeu a outra metade, apanhou o recipiente de plástico, despejou a água, parte para cima do cão, pegou na mochila e foi-se embora.
Já quase ao virar da esquina o cão resolveu levantar-se e com o rabo entre as pernas seguiu o rasto do homem.
Deve ter pensado, se por acaso os cães pensam: "mais vale este que nenhum".

(o texto é meu, mas é uma reedição, afinal estou em férias…)

6 Comentários:

Às 14 julho, 2009 22:47 , Blogger antonio - o implume disse...

O Verão tem as suas reprises, a vida também... infelizmente estas histórias são intemporais.

 
Às 14 julho, 2009 23:39 , Blogger Peter disse...

Sabes, penso que muitos dos que por aqui passam, não a leram, além de que, quando se reescreve um texto, há sempre modificações a fazer, no sentido de melhorar o mesmo.

Abraço

 
Às 15 julho, 2009 15:27 , Blogger Ferreira-Pinto disse...

Reescrito ou não, aborda aqui umas questões complexas e interessantes ... o amor dos homens, o amor dos animais pelo homem, o desprezo dalguns homens pelo vil metal, a escassez de homens e a generosidade aparente do género feminino quando anda à caça ... gostei de ler!

Continuação de boas férias. E bons mergulhos.

 
Às 16 julho, 2009 01:20 , Blogger Peter disse...

Ferreira-Pinto

Confesso que quando escrevi o texto, meio-real, não tomei esses aspectos em consideração, mas que poderiam ser debatidos, assim houvesse comentadores...

Sol e mar, com um bocado de vento, mas já estou habituado.

Abraço

 
Às 17 julho, 2009 12:55 , Anonymous kika disse...

Muitas vertentes da vida quotidiana, bom observador com uma boa escrita. Gostei e voltarei. Boas férias

 
Às 17 julho, 2009 19:39 , Blogger Peter disse...

Kika

Espero que voltes e obrigado pelas palavras de apreço.

 

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