quinta-feira, abril 2

Agoniza o segredo bancário suíço


A Suíça tremula. Zurique se alarma. Os belos bancos, elegantes, silenciosos de Basileia e Berna estão ofegantes. Poderia dizer-se que eles estão assistindo na penumbra a uma morte ou estão velando um moribundo. Esse moribundo, que talvez acabe mesmo morrendo, é o segredo bancário suíço.
O ataque veio dos Estados Unidos, em acordo com o presidente Obama. O primeiro tiro de advertência foi dado na quarta-feira. A UBS - União de Bancos Suíços, gigantesca instituição bancária suíça - viu-se obrigada a fornecer os nomes de 250 clientes americanos por ela ajudados a defraudar o fisco. O banco protestou, mas os americanos ameaçaram retirar a sua licença nos Estados Unidos. Os suíços, então, passaram os nomes. E a vida bancária foi retomada, tranquilamente.
Mas, no fim da semana, o ataque foi retomado. Desta vez os americanos golpearam forte, exigindo que a UBS fornecesse o nome dos seus 52.000 clientes titulares de contas ilegais. O banco protestou. A Suíça está temerosa. O partido de extrema-direita, UDC (União Democrática do Centro), que detém um terço das cadeiras no Parlamento Federal, propõe que o segredo bancário seja inscrito e ancorado pela Constituição federal.
Mas como resistir! A União de Bancos Suíços não pode perder a sua licença nos EUA, pois é nesse país que aufere um terço dos seus benefícios.

Um dos pilares da Suíça está sendo sacudido. O segredo bancário suíço não é coisa recente. Esse dogma foi proclamado por uma lei de 1934, embora já existisse desde 1714. No início do século XIX, o escritor francês Chateaubriand escreveu que neutros nas grandes revoluções nos Estados que os rodeavam, os suíços enriqueceram à custa da desgraça alheia e fundaram os bancos em cima das calamidades humanas.
Acabar com o segredo bancário será uma catástrofe económica. Para Hans Rudolf Merz, presidente da Confederação Helvética, uma falência da União de Bancos Suíços custaria 300 bilhões de francos suíços ou 201 milhões de dólares.
E não se trata apenas do UBS. Toda a rede bancária do país funciona da mesma maneira. O historiador suíço Jean Ziegler*, que há mais de 30 anos denuncia a imoralidade helvética, estima que os banqueiros do país, amparados no segredo bancário, fazem frutificar três trilhões de dólares de fortunas privadas estrangeiras, sendo que os activos estrangeiros chamados institucionais, como os fundos de pensões, são nitidamente minoritários.
Ziegler acrescenta ainda que se calcula em 27% a parte da Suíça no conjunto dos mercados financeiros "offshore" do mundo, bem à frente de Luxemburgo, Caribe ou do extremo Oriente.
Na Suíça, um pequeno país de 8 milhões de habitantes, 107 mil pessoas trabalham em bancos.
O manejo do dinheiro na Suíça, diz Ziegler, reveste-se de um caracter sacramental. Guardar, recolher, contar, especular e ocultar o dinheiro, são todos actos que se revestem de uma majestade ontológica, que nenhuma palavra deve macular e se realizam em silêncio e recolhimento?...

Mas agora surge um outro perigo, depois desse duro golpe dos americanos. Na minicúpula europeia que se realizou em Berlim, em preparação ao encontro do G-20 em Londres, França, Alemanha e Inglaterra (o que foi inesperado) chegaram a um acordo no sentido de sancionar os paraísos fiscais. "Precisamos de uma lista daqueles que recusam a cooperação internacional", vociferou a chanceler Angela Merkel.
No domingo, o encarregado do departamento do Tesouro britânico, Alistair Darling, apelou aos suíços para se ajustarem às leis fiscais e bancárias europeias. Vale observar, contudo, que a Suíça não foi convidada para participar do G-20 de Londres, quando serão debatidas as sanções a serem adotadas contra os paraísos fiscais.
Há muito tempo se deseja o fim do segredo bancário. Mas até agora, em razão da prosperidade económica mundial, todas as tentativas eram abortadas. Hoje, estamos em crise.Viva a crise!!!
Barack Obama, quando era senador, denunciou com perseverança a imoralidade desses remansos de paz para o dinheiro corrompido. Hoje ele é presidente. É preciso acrescentar que os Estados Unidos têm muitos defeitos, mas a fraude fiscal sempre foi considerada um dos crimes mais graves no país. Nos anos 30, os americanos conseguiram laçar Al Capone. Sob que pretexto? Fraude fiscal.

(Gilles Lapouge - de Paris)

* «Abafar o passado é uma tradição na Suíça» – Jean Ziegler – “The Swiss, The Gold, and The Dead”
* Livro que ando a ler: Daniel Silva – “O assassino inglês” – Bertrand Março 2009

9 Comentários:

Às 02 abril, 2009 06:51 , Anonymous Anónimo disse...

Excelente artigo!
Aprendi que uma das maiores especialidades dos países ditos "civilizados" é essa mesmo: Abafar o Passado e tudo o que possa denegrir a imagem do país. É por isso que Portugal, especialista na autoflagelação, dificilmente pode ser considerado um país civilizado. Somos demasiado burros ou ainda teremos muito a aprender com o cinismo dos poderosos?

 
Às 02 abril, 2009 09:21 , Blogger Peter disse...

Anónimo

O cinismo que aprendemos utilizamo-lo com os nossos concidadãos.

 
Às 02 abril, 2009 09:49 , Blogger tagarelas-miamendes disse...

Peter- Parabens!! Grande artigo.
Sera que a crise acordou finalmente as mentes adormecidas?

 
Às 02 abril, 2009 12:35 , Blogger alf disse...

Belo artigo

A Suíça é um país desenvolvido e o fim do segredo bancário pouco afectará a economia do país, estou convencido disso. Afecta, e muito, é alguns interesses privados.

Mas isto inicia uma cadeia mais complicada pois os regimes fiscais são bem diferentes. «Paraíso fiscal» passarão a ser os países onde se paga menos impostos - e aqui os EUA podem estar à procura de uma vantagem competitiva, não apenas de uma «moralização» - ou os países onde há menos controlo - a questão está em que o custo da corrupção nestes países tem de ser menor que os impostos nos EUA.

 
Às 02 abril, 2009 14:39 , Blogger Peter disse...

tagarelas-miamendes

Durante a IIGM foram muito íntimas as relações da Suíça com a Alemanha nazi.
"As leis do segredo bancário faziam da Suíça um local de depósito para a arte pilhada pelos nazis por essa Europa fora.
Se um negociante, ou coleccionador suíço se apoderasse de "boa fé" de um objecto e esse objecto se viesse a revelar roubado, passados 5 anos, era dele por direito. E se um negociante de arte desse por si na posse de uma obra roubada, é da responsabilidade do verdadeiro proprietário reembolsar o negociante, de modo a poder recuperarr o seu próprio quadro"

(Daniel Silva, "O assassino inglês")

 
Às 02 abril, 2009 14:48 , Blogger Peter disse...

alf

Para além da resolução do seu problema interno,os EUA podem estar à procura de outros "paraísos fiscais" em que o custo da corrupção seja menor que os impostos que eles pagam no seu país.

P.S. - Tenho lido "a bolha", mas não tenho argumentos.

 
Às 02 abril, 2009 15:38 , Blogger Olhos de mel disse...

Oie lindo, acho que isso deveria servir de exemplo. Mas se fosse aqui... faltariam papeis para as listas. rsrsrs
Beijos

 
Às 02 abril, 2009 19:25 , Blogger Papoila disse...

Querido Peter:
Um excelente artigo! Será que a crise vai mesmo abalar o segredo bancário da Suiça? Será que os governos europeus seguem o exemplo dos EUA? A ser assim... bendita crise que torna tudo muito mais claro...
Gostei imenso deste novo visual de árvores em flor.
Beijos

 
Às 02 abril, 2009 19:37 , Blogger Peter disse...

Papoila

Não é só o segredo bancário. Na Suiça, há pessoas que querem que o passado permaneça exactamente onde está - enterrado nas caixas-fortes dos bancos de Bahnhofstrasss - e não vão olhar a meios para atingir esse fim.

 

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