quinta-feira, março 5

O Estado, os bancos e as pessoas


“A novela dos bancos privados portugueses vai de vento em popa, por entre ex-administradores amnésicos, remunerações injustificadas, off-shores que são autênticos “triângulos das Bermudas” ou depósitos a prazo que afinal não o eram. O enredo tem todos os ingredientes de um “film noir”, e é, com toda a certeza, um puro caso de polícia. A crise internacional pode ter sido o empurrão que ninguém esperava, mas tudo leva a crer que o castelo já era de cartas e que aprendizes de Bernard Madoff não existem só nos stados Unidos. O público nunca saberá, e o Estado tardará a saber, quanto vai custar aos cofres da nação a reiterada irresponsabilidade especulativa de um punhado de gente errada, que estava no sítio errado à hora errada.
Face ao descalabro de alguns bancos, que ameaça fazer alastrar uma onda de pânico para os restantes (mesmos os sérios, que também os há), o Estado nacionalizou o BPN, e prepara-se para deixar cair o BPP. A indignação alastra. No caso do BPP, porque os seus depositantes não são cidadãos com menos direitos do que os do BPN, e porque mandá-los reclamar para a Justiça é o mais cobarde de todos os escapes, quando era ao supervisor estatal que cabia ter impedido que produtos de alto risco fossem vendidos sob a falsa capa de inocentes depósitos a prazo, brincando desonestamente com quem confiou que o BPP era melhor que o colchão lá de casa. No caso do BPN, contra os 1800 milhões de euros ali injectados: 180 euros por cada português, umas centenas, portanto, por cada família.
Era preciso, a bem do sistema? Não se sabe. O que apetece perguntar é por que razão quem já deve, legal e esforçadamente, a outro banco, tem agora que contribuir involuntariamente
para este.

Não resisto, no meio disto tudo, a deixar uma sugestão. Repare-se que o Estado dá – e a fundo perdido – o nosso (dos contribuintes) dinheiro a bancos que não o merecem. Ora, porque é que o Estado não nos dá, a nós, esse dinheiro, deixando que, com ele, muitas e muitas famílias amortizem parte das dívidas que contraíram junto desses mesmos bancos? Para quem dá, é
indiferente a quem dá; para quem recebe, é indiferente de onde recebe: o Estado dava, os bancos recebiam, mas ao menos as pessoas, através do abate da ajuda estatal aos seus montantes particulares de dívida, passariam a dever menos e a viver um pouco melhor.
A proposta é financeiramente lunática? Pense bem, Sr. Primeiro-Ministro! Politicamente, não haveria quem se lhe pudesse opor. Render-lhe-ia muitos votos, e até talvez dispensasse o ministro Santos Silva de ter que “malhar na direita” para triunfar no Outono.”

(José Miguel Sardica - Professor da Universidade Católica Portuguesa - in Página1 - Jornal Online)

5 Comentários:

Às 05 março, 2009 09:24 , Blogger vbm disse...

Suponho que quer os depositantes do BPP quer os do BPN têm os seus depósitos garantidos, isto é, podem reembolsá-los quando quiserem.

Já as aplicações de rendimento financeiro, essas não têm o reembolso de capital assegurado.

Julgo que não há discriminação entre os depositantes e os subscritores de aplicações bolsistas de um e do outro banco.

Os cidadãos fingem não perceber a diferença entre um banco e um particular. E ela é abissal.

Um particular que deposite 100 euros num banco, recebe deste a promessa de ter esse dinheiro disponível a todo o momento;

contudo, dos 100 de depósito que o banco recebe, 94 euros são emprestados, mediante juro, a terceiros que podem vir a pagar ou não;

se todos os depositantes correrem a levantar os seus depósitos, o banco abre falência e os depositantes encaixam o seu prejuízo - no montante que exceda o garantido pelo estado.

Portanto, nacionalizar um banco é o método de obstar à regressão pré-histórica da troca directa de produtos e correpondente colapso terrorista da liberdade.

 
Às 05 março, 2009 10:28 , Blogger antonio - o implume disse...

Discordo só num aspecto: eram gente certa, no local certo e sobretudo no país certo, como se pode ver.

Nós é que tivemos azar, que temos que pagar a sorte deles.

 
Às 05 março, 2009 17:57 , Blogger Peter disse...

vbm

Bem, tu é que és técnico, mas parece-me que não argumentaste com o autor do post, que eu transcrevi por achar interessante e por ter sido escrito por um prof catedrático duma Universidade credenciada.
Segundo o que tenho lido na imprensa, os depositantes do BPP não têm os seus depósitos garantidos, ou, pelo menos, não podem ser reembolsados quando quiserem, mas só quando o banco estiver em condições do poder fazer.

 
Às 06 março, 2009 00:06 , Blogger vbm disse...

Não. Os depósitos podem levantar, se é que já não os levantaram todos. O que não podem levantar é os capitais que aplicaram em bolsa, mesmo se o BPP se comprometeu reembolsar o capital, a todo o momento que cada um quisesse. Porém, prometeu o que não podia garantir. É negócio privado.

 
Às 06 março, 2009 12:35 , Blogger Peter disse...

vbm

Não há dúvida que os media explicam mal os assuntos. Se calhar é de propósito.

Bom fds :)

 

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