quinta-feira, março 12

No restaurante

Sentado a um canto do restaurante, saboreando o café que acabava de beber, entretinha-me a ler um artigo de uma revista e a fazer horas para o regresso ao escritório.

“O que é que nos excita e nos provoca e estimula o interesse sexual?”

Será que agora só se pensa em sexo, ou serei eu que estarei a ficar demasiado velho para pensar nele? (interrogo-me).

“Cada pessoa é um mundo e enquanto a algumas são determinadas características que as excitam, a outras podem causar-lhe o efeito contrário, a perda do interesse sexual. Tanto podem ser problemas físicos, de personalidade ou atitudes.”

O homem está a perder o seu estatuto, já que a iniciativa passou a ser da mulher em muitos casos. A emancipação feminina, iniciada com o trabalho fora de casa, completou-se com a pílula anticoncepcional. (“marialvismo” meu? Possivelmente sim).

Continuo a ler:

“Quando se inicia uma relação, gera-se um processo de selecção. Neste processo ambos vão explorando compatibilidades e complementaridades. Pode ser que nem sequer se procure qualquer compromisso e que o interesse em conhecer alguém nem sequer tenha em mente o aspecto sexual, o que não impede que o mesmo possa vir a acontecer.”

O artigo é mesmo chato e acabo por pôr de parte a revista.

É então que reparo no casal da mesa ao lado, ainda em meio da refeição. Ela muito atraente, uma bela morena, na casa dos quarenta, altura em que a mulher atinge a sua plenitude. Ele talvez dez anos mais velho, nem tanto. Magro alto, mas não em demasia. Casaco e gravata, portanto todo o ar de dois colegas de trabalho.

Não sou “cusco”, mas sem querer dou comigo a ouvi-los.

M - Tens um problema a resolver, e hás-de resolvê-lo. És um homem muito atraente sob todos os aspectos, mas sabes que o desgaste e o passar do tempo num casamento dificultam as coisas e diminui o desejo.

H – Uma boa parte das nossas preferências são de índole cultural, mas nem todas.

Retomo a leitura. Acho indecente estar a ouvir as conversas dos outros.

“Na nossa atracção, ou rejeição, podem concorrer muitos factores, um simples aspecto, um pequeno detalhe, eventualmente uma parte da história da outra pessoa, que têm maior importância que tudo o resto e que as desencadeiam.”

Alto! A morena parou de comer e fita-o, olhos nos olhos.

M - É natural que num casal a mulher seja a mais afectada, sem se dar conta. Um de vocês tem que tomar a iniciativa e pelo que vejo, terás que ser tu.

Ele não responde, e deixa-a falar.

- Vejo-te muito ansioso com a falta de receptividade da outra parte, mas isso resolve-se conversando sobre o assunto.

Comecei a ver a questão, ou talvez não. Nós homens nunca compreendemos as mulheres.

Ela continua e ele, estúpido, ainda não percebeu que é ela que está profundamente interessada nele e que não o esconde.

M - A certa altura reparei no meu egoísmo...tu a quereres falar sobre o teu problema e eu sem dar conta disso. Mas se te puseres no meu lugar, entenderás que não é fácil a uma mulher que ama alguém, ouvir esse alguém falar de sexo e de ansiedade por outra mulher, mesmo que seja a sua. Por isso não te ouvi como devia ser...Problema meu, não teu, pois tu sempre foste muito directo, eu é que não entendi bem a questão (é caso para dizer que "o amor é cego").

Levantei-me e saí. Estou certo que ele finalmente acabou por compreendê-la, ou talvez não …

4 Comentários:

Às 12 março, 2009 18:24 , Blogger Meg disse...

Peter,

Desculpa, mas a senhora tinha uma grande "lata"! E o homem, pelo que referes, está na idade da mudança de companhia.
Não sei quem estava a enganar quem!
A propósito dessas histórias sobre o apetite sexual, são lérias das revistas... alimentam as vendas.

Um abraço

 
Às 12 março, 2009 19:13 , Blogger Peter disse...

Meg

É pura ficção. Trata-se duma história que escrevi em tempos e que era paa figurar numa colectânea de textos do "conversas", mas que, por motivos vários, já desisti do fazer.

 
Às 12 março, 2009 22:08 , Blogger Papoila disse...

Peter:
Lembro-me deste texto e voltei a relê-lo com interesse. Não desistas!
Beijos

 
Às 13 março, 2009 01:02 , Blogger Peter disse...

Papoila

De facto a republicação de textos, não é boa política. É como "comida requentada"

Estamos em "crise", a publicação de livros não é oportuna.

Bom fds que se aproxima.

 

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