domingo, fevereiro 8

O Doutor Ferreira do Amaral, — não o engenheiro da Brisa, mas um, presumo que, seu irmão —, previu ontem na Sic, no programa “O Expresso da Meia-Noite” a necessidade de duas medidas de política económica que, executadas, mudarão radicalmente o modus vivendi das sociedades nos próximos anos.

Primeira. Cumprir a contenção de endividamento externo dos estados da União Europeia forçará alguma cooperação entre os estados da União. Ora, como já não há moedas nacionais — excepto a Inglaterra e alguns membros do Leste; os quais aproveitam o facto para desvalorizar as suas moedas, assim embaretecendo as exportações, encarecendo as importações e, desse modo, facilitando a contenção do endividamento por reequilíbrio das respectivas balanças de pagamento — a União vai ter de aprovar um mecanismo tributário que subsidie as exportações e tribute as importações dos estados membros excessivamente endividados. Ou seja, vai ter de permitir o uso de alguns mecanismos de reequilíbrio que anteriormente eram proporcionados pela soberania monetária de que os países abdicaram.

Segunda. Para evitar que a economia derrape da recessão para a depressão — esta, uma fase de estagnação, de desemprego elevado, sub-utilização da capacidade de produção instalada, produtiva com uma e atonia prolongada de negócios, de três a cinco anos —, os países vão ter estimular muito mais o consumo e o investimento, a reanimar as expectativas e perspectivas de confiança no futuro. Esse estímulo é impossível com a poupança que existe, pelo que os estados da União terão de recorrer ao financiamento monetário, i.e., à emissão de papel moeda, ou seja euros impressos nas Casas de Moeda para entregar ao Banco Central Europeu em quitação dos empréstimos contraídos! Ou seja, como não é permitido na União Europeia saldar défices de estado com emissão de moeda, mas como tal medida é imprescindível para evitar a depressão económica — e a deflação, que seria o grau extremo de crise — Bruxelas vai ter de autorizá-la ficando por saber quem irá liderar o processo.

A desenrolar-se este desenvolvimento, os europeus e os portugueses podem contar com uma ulterior inflação forte que há-de corroer o poder de compra dos salários, das pensões, dos subsídios sociais, rendas de senhorios e juros de empréstimos concedidos.

Ao contrário do que se propala, o desafogo dos empregados e funcionários públicos, e a desgraça das perdas de bolsa dos accionistas ‘falidos’, vai ser sol, e mal, de pouca dura para o desafogo dos primeiros, e para a desgraça dos segundos. Certo será o prejuízo dos dependentes de pensões, subsídios, rendas e juros. Mas, enfim, isso é o costume!

O factor que suscita mais suspense neste momento político é o de ver como a Alemanha vai reagir a isto! Sabe-se que os alemães só aderiram ao Euro para granjear a confiança da França e do Ocidente de que não enfeudariam ao marco os países do Leste Europeu, seu hinterland natural. A reticência alemã derivava sobretudo da experiência catastrófica de hiper-inflação que sofreu na década de 20 do século 20. A célere integração da ex-República Democrática Alemã na República Federal, e por arrasto na União Europeia, foi um bónus de que beneficiou e cujos custos foram em parte suportados pelos demais estados da União.

Veremos como será. Mas duvido muito que os alemães aceitem a liderança da dupla voluntarista Sarkozy-Barroso para conduzir o processo técnico e político de reformulação do modus vivendi económico e monetário. Penso mesmo que, a ser essa a linha vencedora, a Alemanha prefira sair do Euro e regressar ao Marco! Veremos como será.

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2 Comentários:

Às 08 fevereiro, 2009 10:35 , Blogger Peter disse...

"como não é permitido na União Europeia saldar défices de estado com emissão de moeda, mas como tal medida é imprescindível para evitar a depressão económica — e a deflação, que seria o grau extremo de crise — Bruxelas vai ter de autorizá-la ficando por saber quem irá liderar o processo."

Este é um dos meus receios.

P.S. - Tenho pena de não ter ouvido o programa, até porque interveio o meu colega de curso, António da Costa Pinto, mas tinha baixado o som, pois a minha mulher estava a inteirar-se da saúde de um familiar.

Bom Domingo.

 
Às 08 fevereiro, 2009 14:37 , Blogger vbm disse...

:) Nota que se a União Europeia fosse também uma união política, os estados (regiões) em desequilíbrio económico beneficiariam de transferências de fundos dos estados (regiões) superavitárias.

Ora, com moeda própria, os países conseguem algo semehante a tais transferências, o que é o caso da desvalorização da moeda que encarece as importações e embaretece as exportações, contribuindo assim para o reequilíbrio entre as nações.

Porém, a União Europeia decapitou essa possibilidade aos estados sem, por compensação, avançar em mecanismos de preço que reequilibrem a balança de trocas das regiões (países) em déficit, atenuando o superávit das restantes...

 

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