segunda-feira, janeiro 26

Na rádio, na televisão, na imprensa
todos falam em uníssono do arriscado
endividamento externo do país.

E, no entanto, há seis meses atrás
ninguém sobre isso dizia uma palavra!

Haverá prova mais flagrante
da nossa mediocridade
do que só nos apercebermos
da nossa situação, depois
dos outros a revelarem?


Em boa verdade, há que ser justo;
quer Medina Carreira, quer Cavaco Silva,
tinham alertado para esse desequilíbrio,
o primeiro enfatizando a diferença de juros
entre os empréstimos que contraímos e os
que concedemos, pelo que é incoerente
subtraír os seus montantes para se
medir o endivídamento líquido;
o presidente, esse denunciou a mistificação
do crescimento do PIB que esconde a efectiva
diminuição anual do RN (Rendimento Nacional),
o qual se mede pelo PIB menos os juros e
dividendos que crescentemente se pagam
aos estrangeiros.


Ora isto é grave porque, além da confiança
na honestidade de processos do governo
- e é discutível o apoio aos intermediários
puramente financeiros, sem base produtiva -,
é necessário que o governo esteja munido
de gente competente e não de políticos
que só acordam para os problemas reais
quando os estrangeiros os sacodem.

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6 Comentários:

Às 26 janeiro, 2009 11:49 , Blogger Peter disse...

Um belíssimo texto escrito por um especialista sobre um assunto que me trás profundamente preocupado.
Mas às vezes chego a pensar que sou só eu que me preocupo.

Será que as pessoas que vivem de pensões já pensaram no que lhes vai acontecer se o Estado deixar de lhes pagar, ou passar a pagar-lhe mês sim, mês não, ou as reduzir substancialmente?

Idem no que respeita ao subsídio de desemprego em que muitos desempregados (julgo serem 135.000) não recebem estando a viver com muita dificuldade à custa dos familiares.

No entanto, ninguem se priva, ninguem poupa, ninguem evita gastos desnecessários: na cidade universitária é "obsceno" o número de automóveis dos alunos, como é "obscena" as centenas de milhares de sms enviadas pelos nossos jovens, que tudo querem e já e os paizinhos endividam-se para fazer a vontade aos filhinhos.

Olha Vasco fico por aqui, porque todos se estão nas tintas, é como nos desastres de viação, pensam que as coisas só acontecem aos outros.

Estes assuntos não têm audiência, quem anda por aqui só quer ler poesia a falar-lhe de amor, por isso já pensei seriamente em dedicar-me às minhas leituras enquanto o puder fazer.

Abraço

 
Às 26 janeiro, 2009 15:03 , Blogger alf disse...

Não tem audiência... olhe que não é bem assim... e, depois, audiencias tem a TVI, alguém aqui quer concorrer com a TVI rsrsrs?

Sempre me fez confusão que em Portugal o endividamento externo e o défice da balança comercial nunca fossem falados! Noutros países isso é uma preocupação maior. Há uns anos estive no brasil e isso era assunto dos noticiários quase todos e eles tinham um desiquilibrio comercial muito mais pequeno que o nosso.

Mas há mais coisas. Por exemplo, os fundos europeus para apoio ao desenvolvimento industrial andaram a ser distribuidos por empresas estrangeiras, nenhuma protecção especial foi dada às empresas nacionais, não tinham nenhuma vantagem nos concursos públicos, antes pelo contrário, e ao contrário do que acontecia nos outros paises.

O Mira Amaral, qd foi ministro, ainda tentou erguer a voz contra isso, ainda escreveu uns artigos a mostrar como outros paises apoiaram as suas industrias muito mais do que Portugal, mas acho que deve ter recebido ordens do partido para se calar....

Inclusive, na área das telecomunicações, Portugal estava dispensado de abrir concursos internacionais para dar oportunidade a empresas nacionais -mas o governo dispensou a dispensa...

(dizem as más línguas que era mais seguro aceitar subornos de empresas estrangeiras...)

Claro que quando se fala do déficite da balança, percebe-se que é preciso preferir o produto nacional, como os outros fazem... e, se calhar, isso não convém...

 
Às 26 janeiro, 2009 15:56 , Blogger Ferreira-Pinto disse...

O texto está muito bom, assim como a análise/comentário do "alf".
Em relação a esta última fiquei com uma dúvida; se Mira Amaral estava tão incomodado ao ponto de escrever artigos de jornal, das duas uma: ou, enquanto ministro, em vez de escrever nos jornais decidia ou, se não o deixavam, vinha-se embora.
Fez o quê?
Calou e depois aposentou-se via CGD!
Mais nada.
Assim também eu.

Quanto ao resto, o Peter tem razão no que assinala embora eu duvide que um operário que ganha 400,00€, com o custo de vida da maneira que está, possa ter poupanças. No banco ou no colchão.

Já a dita classe média, aí é a vaidade a funcionar!

 
Às 26 janeiro, 2009 16:51 , Blogger alf disse...

Ferreira-Pinto

Pois... eu estive numa comissão para o desenvolvimento duma área industrial...e qd percebi que aquilo era só a fingir vim-me embora... para grande escândalo dos colegas... mas não tenho uma reforma da CGD!

Mais uma nota: os governos e suas empresas publicas não fazem compras ao estrangeiro em dinheiro - aí funciona o velho sistema de trocas. Como o Sócrates começou a fazer agora com o petróleo. Só Portugal é que não fazia assim. Apenas a Marinha, que eu saiba, procurava contrapartidas das suas compras. Tem razão o deputado do PS qd se escandaliza por os aviões da TAP terem sido comprados sem contrapartidas e pede a retirada do Mário Lino do processo do TGV.

Há vários anos já, a TV pública grega comprou emissores a um fabricante alemão. E pagou como? em fardos de aveia! (ou feno, já não recordo)

Essa mesma empresa alemã veio a um concurso a Portugal; andaram à procura de uma empresa portuguesa para lhes montar cá os equipamentos, procurando a máxima incorporação nacional na proposta.

Ficaram muito admirados com a primeira reunião com o cliente e perguntaram-me o que se passava. Lá lhes expliquei. Na reunião já apareceram a garantir que nem um parafuso seria montado em Portugal. Mas estavam completamente desorientados porque sendo o principal fabricante alemão desse equipamento nunca lhes tinha acontecido fazer uma proposta a um pais estrangeiro sem contrapartidas e sairam daqui com ar perfeitamente escandalizado com a maneira como a economia funcionava aqui.

A culpa não é só dos políticos - é dos economistas e dos professores de economia que seguem teorias económicas de autores americanos que ninguém usa, nem sequer os americanos - porque a teoria económica que se aplica num espaço fechado não é a mesma que se aplica num espaço aberto e andam a aplicar ao mercado externo as teorias para o mercado interno.

Por último: nesses tempos remotos lembro-me de dizer que só existia no mundo todo outro pais com o mesmo tipo de política económica externa de Portugal: a Argentina. Em Portugal ainda não aconteceu o mesmo que à Argentina graças às remessas de emigrantes e turismo, não fosse isso... e porque há aí muito português que não desiste de lutar.

 
Às 26 janeiro, 2009 18:27 , Blogger Peter disse...

alf

Escreves: "em Portugal ainda não aconteceu o mesmo que à Argentina", mas é o que eu estou à espera que aconteça.

 
Às 26 janeiro, 2009 19:28 , Blogger vbm disse...

É chocante!
Mediocridade chocante!

Eu não vislumbro outro modo de alterar este estado de governação do que o da destituição, na praça pública e nos tribunais, de todos os irresponsáveis políticos e económicos.

Digo-o, mas angustia-me a incerteza da classe social que haja ou houvesse de apoiar essa revolução política...

Porque o partido socialista 'socretino' já provou não passar de uma agência marketing das medidas avulsas e desnorteadas do governo; o partido social-democrata esvaziou-se de líderes credíveis e vive sem rumo;

os populares democratas, entretêm-se em tacticismos estéreis; os bloquistas, são rídiculos mais os seus casamentos-gay;

os 'alegristas' não têm equipe, e, para terem alguma hipótese, teriam de conseguir destituir a facção-Sócrates dentro do próprio partido, e apresentar uma equipe governativa que ganhasse a confiança plena do eleitorado.

O receio do Peter, de que tudo descambe numa anarquia como a da derrocada da Argentina, aqui há uns anos, é realmente aterrorizador, mas o certo é que as coisas não podem continuar na impunidade em que andam!

Por exemplo, o Joe Berardo faliu, e os mil milhões que deve ao bes-bcp-cgd, com os quais comprou as acções do bcp, - que valem um oitavo ou um décimo do preço de compra -, são prorrogados no prazo de pagamento só para que os bancos não registem esse prejuízo de 875 ou 900 milhões! Isto, num caso de investimento não-industrial, não-agrícola, não-produtivo! Não há seriedade nem respeito pelos cidadãos.

Mas quando os cidadãos não se fazem dar ao respeito, é natural que os capitalistas e os seus delegados no governo se estejam nas tintas para o bem servir das populações.


- Ah! Esqueci-me dos comunistas! Mas que dizer de um partido que só sabe falar de aumento de salários e nada propõe nem sabe como consegui-lo?

 

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