sábado, janeiro 12

O canto nocturno

“Eram ardentes grãos num mundo dilatado
e as copas balouçavam numa vagarosa calma.
O deus da noite absorvera os gritos e os apelos
e só se ouvia o marejar de uma matéria vaga.
E era já um canto, o sonho violento que desperta
entre troncos de árvores, entre estrelas
e entre as figuras de pedra de um jardim.
Será que tudo se liga, o deserto e o oásis,
a mão de terra e o rio que brilha,
os projectos que formamos e a ondulada calma?
Ele abraça o sono de uma deusa que é ausência
ardente e verde nos seus flancos de terra,
mas noutra vertente a água é penetrada
pela luz que ascende por escadas cristalinas.
Os instrumentos nupciais nas mãos mediadoras
são cachos de pedras e guitarras de argila.
Sob uma vaga imóvel todos ramos do sangue
se acendem no ovo verde da folhagem.”

(António Ramos Rosa, in “Acordes”)

António Ramos Rosa traduz aqui as dúvidas com que me debato e às quais, desajeitadamente vou procurando dar vazão ...

«Será que tudo se liga, o deserto e o oásis,
a mão de terra e o rio que brilha,
os projectos que formamos e a ondulada calma?»

21 Comentários:

Às 12 janeiro, 2008 00:51 , Anonymous lucia disse...

"Não posso adiar este braço
que é uma arma de dois gumes amor e ódio"
Antonio Ramos Rosa

bela escolha de palavras, Peter.

beijo.

 
Às 12 janeiro, 2008 10:16 , Blogger quin[tarantino] disse...

... efectivamente, tudo se liga ...

 
Às 12 janeiro, 2008 11:09 , Blogger Peter disse...

quin[tararantino]

Sim, mas porquê?
Estou sentado ao computador, mergulhado no ar que respiro, que constitue parte da atmosfera, que rodeia a Terra, que pertence as Sistema Solar, que faz parte da Via Láctea, que se dirige a uma velocidade extonteante para a Constelação da Virgem ........

Porque hei-de considerar-me independente se faço parte de um TODO?

E que se eu próprio não sou mais que um aglomerado de células, de átomos, de ADN ...

Onde começo e onde termino, se o ar que inspiro já foi expirado e já entrou nos corpos de tantos seres e se, quando eu morrer, quer seja cremado, quer seja enterrado, aquilo que constituia o meu corpo, continuará a circular por aí?

 
Às 12 janeiro, 2008 13:04 , Anonymous lucia disse...

inspirado, Peter?

 
Às 12 janeiro, 2008 16:25 , Blogger Miss Vader disse...

Senhor Peter, gostei de ler.
Bluegift, beijinho para ti. E para o Peter, posso chamar assim não posso?

 
Às 12 janeiro, 2008 18:18 , Blogger Meg disse...

Caro Peter,

Ramos Rosa tem essa "coisa" de nos encher de dúvidas...
E as dúvidas às vezes trazem inquietação.
Somos e não somos eis a questão.
Fazemos parte de todo, mas esse todo passa tão bem sem nós!!

Vou filosofar.

Um abraço

 
Às 12 janeiro, 2008 20:52 , Blogger bluegift disse...

Às vezes faz bem lembrar essa nossa condição universal.

 
Às 12 janeiro, 2008 22:01 , Blogger Peter disse...

Lúcia

Olha, não, acho que não é "inspiração", é um "não sei quê" que me oprime e me leva a questionar-me.

 
Às 12 janeiro, 2008 22:12 , Blogger Peter disse...

"miss Vader"

Outro dia não gostei de um comentário teu, noutro blog.
Tem de haver dinheiro para escolas, como tem de haver dinheiro para comstruir o NAL.
Quanto às primeiras, têm de formar os técnicos e especialistas da tua geração, que se quer sejam melhores que os daquela a que pertenço.
Quanto ao NAL, já há vários anos que devia estar a ser contruído.
É uma corrida contra os espanhois e contra o tempo.
Mas onde, dirás?
Não te sei responder, mas, francamente, acho que na Ota é que não.

"Tio Peter"

 
Às 12 janeiro, 2008 22:16 , Blogger Peter disse...

"Meg"

Esse TODO só existe, porque nós existimos. "Apaga-se" com a nossa morte.

 
Às 12 janeiro, 2008 22:30 , Blogger Peter disse...

"bluegift"

SPLEEN

“Quand le ciel bas et lourd pèse comme un couvercle
Sur l’esprit gémissant en proie aux longs ennuis,
Et que de l’horizon embrassant tout le cercle
Il nous verse un jour noir plus triste que les nuits ;

Quand la terre est changée en un cachot humide,
Où l’Espérance, comme une chauve-souris,
S’en va battant les murs de son aile timide
Et se cognant la tête à des plafonds pourris ;

Quand la pluie étalant ses immenses traînées
D’une vaste prison imite les barreaux,
Et qu’un peuple muet d’infâmes araignées
Vient tendre ses filets au fond de nos cerveaux,

Des cloches tout à coup sautent avec furie
Et lancent vers le ciel un affreux hurlement,
Ainsi que des esprits errants et sans patrie
Qui se mettent à geindre opiniâtrement.

- Et de longs corbillards, sans tambours ni musique,
Défilent lentement dans mon âme ; l’Espoir,
Vaincu, pleure, et l’Angoisse atroce, despotique,
Sur mon crâne incliné plante son drapeau noir. »

(Baudelaire, « Les Fleurs du Mal »)

Bijou, bijou

 
Às 12 janeiro, 2008 23:12 , Blogger bluegift disse...

Ah! Veio marcar o ponto? ;)
O Inverno não ajuda. O Janeiro e o Fevereiro são os meses mais difíceis do ano. Ainda quando neva ou chove torrencialmente consegue-se atingir um estado d'alma mais apaziguado, vencido pela natureza. Mas este tempo meio sem graça acaba por cansar, concordo. Je t'embrasse grand garçon, soigne toi bien.

 
Às 13 janeiro, 2008 11:26 , Blogger Manuel Rocha disse...

Interessantes as suas "xaxas"...

Voltarei para visitas mais atentas...

 
Às 13 janeiro, 2008 20:06 , Blogger herético disse...

tudo se liga. claro. problema saber onde...

(um dos meus poetas)

abraços

 
Às 14 janeiro, 2008 03:05 , Blogger Olhos de mel disse...

Peter! Amei os versos! No fundo as coisas acabam de alguma forma se tocando.
Que sua semana seja de realizações!
Beijos

 
Às 14 janeiro, 2008 13:50 , Blogger Ant disse...

Olha estava s ver se me saía um comentário e nem preciso de mais. É só ler o herético.

Agora que provoca "inquietação, inquietação, porquê não sei...", como diz o Zé Mário, lá isso provoca.

Abraços

 
Às 14 janeiro, 2008 16:15 , Blogger São disse...

Claro, tudo faz parte da mesma matéria!
Embora não aprecie muito Rosa, agradou-me este poema!
Boa semana aí, na Bélgica!

Por favor, dê saudades minhas ao manechen Piss, sim?

 
Às 14 janeiro, 2008 17:22 , Anonymous Anónimo disse...

Oláááá
Não desapareci, embora pareça :-)

Apenas não tenho tido tempo para visitar os blogs :-(

Passo para vos desejar a todos um Feliz Ano de 2008, apesar de já o ter feito no meu site :-)

Beijos doces

 
Às 14 janeiro, 2008 18:42 , Blogger Blondewithaphd disse...

I also read HOPE in here! A esperança da ascensão. A esperança na e da luz.

 
Às 14 janeiro, 2008 19:52 , Blogger Papoila disse...

É Peter tudi está ligado e o poeta di-lo como ninguém!
Somos uma teia de forças, de energia que nos mantám em equilibrio...
Boa semana!
Beijo

 
Às 14 janeiro, 2008 19:53 , Blogger Papoila disse...

As letras do meu PC estão apagadas e dá nisso...
Beijos

 

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