domingo, janeiro 20

Mas afinal quem pensamos nós que somos?!

Compreendemos cedo a mortalidade e passamos a vida a acreditar que, ainda assim, de uma ou de outra forma, conseguiremos chegar à eternidade: a eternidade num livro, numa pintura, num filho, numa árvore; a eternidade em algo onde sejamos capazes de nos prolongar; a eternidade num olhar nosso sobre o mundo, num pensamento nosso a respeito do mundo...

... com alguma sorte, e a ajuda das modas estéticas do tempo em que vivemos, os suportes materiais onde lográmos, mesmo que precariamente, inserir aquilo que mais profundamente somos, não será destruído, mas guardado e partilhado com os que ainda não nasceram... seremos Cezannes, até ao dia em que alguém, de olhar subitamente limpo e liberto, se lembre de nos comparar com o mundo e, à vista das nossas obras, comece a rir...

Nada além deste dia... nenhuma eternidade além da eternidade desta hora que passa carregada de instantes que tudo trazem na sua subtileza e dos quais os olhos cansados da procura constante saberão colher a beleza indiscutível.

Amanhã teremos tanto como hoje temos e a eternidade que possamos guardar no que deixamos, tão precária e sempre vulnerável à nudez do riso, convenhamos... será de quem nasce e está, não de quem morre.

Não somos nada, não é?



E será possível sabê-lo e ouvir melhor ainda a grande gargalhada do mundo? O mundo é absurdo e por isso é livre; e nós não somos nada e, na consciência dos instantes, saberemos ser tudo além de nós? É possível rir da absurda liberdade do mundo e rir da nossa dimensão? Será esta capaz de redimensionar ainda mais os problemas e os dramas da existência humana, até que a aprendizagem da leveza e da união com o mundo seja, por fim, a nossa respiração?

Lembro-me agora das fases evolutivas de Nietzsche: será possível a Criança?
E lembro-me de uma frase em "A Vida Inteira", de Miguel Esteves Cardoso:
«Gostaria de ser criança outra vez; não para ter toda a vida à minha frente, mas para não ter vida nenhuma atrás de mim»... pode não ser assim, mas era esta a ideia; e pode o autor ter-se inspirado em alguém , também não sei... mas de quem são as ideias afinal? ...
Siga:
- será possível o esquecimento auto-induzido?, aquele que permitirá aos olhos colher a beleza dos instantes, tão intensamente efémera que só pode conter a eternidade?

São muitas perguntas, não é?
Será possível a leveza das perguntas?...

(colaboração de Cristiana Palhais. - Foto NGM)

6 Comentários:

Às 20 janeiro, 2008 14:43 , Blogger bluegift disse...

Excelente texto, Peter! Vejo com agrado que o spleen já era ;)

O melhor prazer será certamente o da satisfação da obra acabada. Tudo o resto será ilusão.
Nada é novo debaixo do sol, apenas a capacidade de conseguir olhar para o mundo com o mesmo deslumbre da primeira vez. Essa é a nossa maior riqueza.

Bom Domingo Partner!

 
Às 20 janeiro, 2008 16:46 , Blogger Tiago R. Cardoso disse...

A luta deverá ser para ver as coisas de novo e com interesse cada vez que olhamos para elas, acredita que sei o que é isso, muitos olham para este mundo e não conseguem ver nada, apenas a superfície, esquecem-se de ver o interior onde está realmente o que interessa e assim continuam dia após dia a julgarem que vivem e na realidade são autómatos que se limitam a um conjunto de tarefas programadas.

 
Às 20 janeiro, 2008 17:40 , Blogger Meg disse...

Meu caro Peter,

Se o spleen deu origem a este belíssimo texto, viva o spleen.

Não, este é um exercício cheio de interrogações, que me parece não ser muito habitual nestas novas gerações.
Interrogamo-nos, queremos saber o porquê de tantas coisas, sem nunca chegarmos a conclusão alguma. E é com essas dúvidas que rasgamos caminho.
Até certo ponto concordo com o MEC, porque as crianças não devem ter "passado" - mas há muitas que o têm -mas isso é outra história.
Vivamos o presente, o agora, o instante. O amanhã... é uma incógnita.

Um abraço

 
Às 20 janeiro, 2008 19:00 , Blogger Papoila disse...

Querido Peter:
Um texto fantástico e magnífico!
Vivamos o instante, cada momento que se eterniza em nós... o resto é esse grande "?"
Beijos

 
Às 21 janeiro, 2008 12:28 , Blogger Olhos de mel disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
Às 21 janeiro, 2008 12:31 , Blogger Olhos de mel disse...

Cristiana! Parabéns pelo artigo. Amei! É assim, estamos querendo nos perpetuar de alguma forma. Ainda assim o tempo é ingrato com as pessoas e deixa-nos marcas irreparáveis, até o momento da partida.
Fique com Deus!
Beijos

 

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