quarta-feira, maio 2

A volubilidade da luz

"Perguntas-me se vi o céu, se reparei no céu, que está lindo esta manhã. Que pode ter o céu?, penso. E a pergunta ecoa nos segundos seguintes. Poderia ser um poema se o permitisse. Mas não me apetece, calo o eco.

Não reparei no céu, reparei na luz intensa da manhã entre as árvores e senti vontade de fotografar, mas o tempo não é meu e a maioria das manhãs, com ou sem sol, não me pertence. Penso nisso enquanto desço a rua do trabalho. E penso nisso enquanto espero pelo elevador.
São iguais os gestos que começam o dia de trabalho. Fora, ficou hoje o sol. Enquanto espero o elevador sinto-me triste. A tristeza tem crescido nos últimos dias, sempre, enquanto espero o elevador.
Ainda que apenas me limitasse a registar, com a máquina fotográfica, os movimentos embalados das pessoas nas ruas ou a luz intensa entre as árvores, seria outra vida, mais verdadeira, porventura, do que a luta viciada em que as coisas em que acredito são usadas contra as coisas em que acreditei. Seria uma contemplação inútil mas uma contemplação assumida e uma inutilidade assumida. Enquanto espero o elevador penso nisso e quando abro a porta desisto. O tempo não me pertence, anuo, aceito, carrego no botão do meu andar - todos os dias.
As coisas em que acreditei. O pretérito perfeito foi intencional e ditado pela coerência. Quando a coerência é escassa torna-se mais valiosa. Os dias passam iguais e a desistência torna-se insuportável sempre que abro a porta do elevador, como se esse gesto a agigantasse. Mas suporto-a. Pior ontem que hoje, mas suporto-a.

Esta manhã, senti vagamente os teus bons dias e pouco depois ouvi mais claramente o bater da porta - incomodou-me ter acordado mais tarde. Antes do elevador e antes de reparar na luz intensa entre as árvores, sentada à beira da cama a calçar-me, pensei em como gostaria que me dissesses bom dia outra vez. Perguntaste-me pelo céu, o que é igual.


(foto Peter)

Talvez pudesse fotografar casamentos e baptizados. Ou talvez os meros registos fotográficos das pessoas nas ruas sejam um dia algo mais que inútil contemplação. O tempo muda as fotografias, oferece-lhes um tempo berço, uma pausa de invisibilidade variável, o contraste daí resultante. E, como cada vez há menos árvores, mesmo as fotografias que só mostram a luz intensa entre as árvores, poderão um dia, talvez, fazer nascer em alguém a raiva de plantar árvores ou a raiva pelas árvores que foram abatidas, sendo isso uma perda, por menos poético que seja e por menos sensibilidade à luz e à serenidade que se experimente.

Tu não, mas eu sim. Gosto das pessoas nas fotografias, gosto da silhueta humana, frágil, e verosímil nessa fragilidade, como que, por fim, no contexto certo do espaço que é demais e afasta, do sol que ofusca e escurece. E numa perspectiva mais técnica e mais escolar, gosto em geral da escala que a silhueta humana oferece a uma imagem. Pela silhueta humana se mede tudo - o tamanho das casas, a largueza das ruas, a intensidade da luz pela forma como cai nos ombros, o vazio do mundo, a proporção, tão pequena, de gente.

A silhueta negra de uma pessoa. Quanto mais pequena, mais negra e mais se destaca a cabeça. E mais simples é: um ponto redondo e um traço ligeiramente curvado. À volta, o resto, o espaço enorme, mesmo nas cidades, o espaço que apaga os gestos e emudece a vontade. Ao longe, vê, é simples. Mais longe, nem sinal de nós.

Que poderia ter o céu que mudasse tudo isto, que nos permitisse regressar, ao menos nas árvores, que poderia ter o céu além da luz que te assalta e abre os olhos, precários, numa gratidão irracional pelo amanhecer indiferente do caos?”

(Os meus agradecimentos pelo texto. Conforme o solicitado, não revelo a identidade.)

1 Comentários:

Às 02 maio, 2007 11:35 , Blogger Betty Branco Martins disse...

Olá Peter

Mais uma vez parabéns (pois já passei pelo "Peter´s" e o meu obrigada pela parte que me toca - bem sentido)

Um texto maravilhoso - para se ler________respirar bem fundo_____e______________deixar os sentidos seguirem os seus caminhos__________ como esse________"amanhecer indiferente do caos?”

Parabéns ao autor. E a ti obrigada pela partilha

Um beijo com carinho

 

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