domingo, fevereiro 12

A indignidade da submissão

Ao contrário das instituições políticas e económicas, os movimentos sociais têm um poder evasivo, mas poderoso. Desde a Revolução Francesa, aos movimentos democráticos e de trabalhadores do século XIX, aos movimentos da actualidade, os movimentos sociais exercem uma breve mas poderosa influência na cultura popular, na sociedade e na política.

Assim, não podemos deixar de relacionar a acção colectiva com as redes sociais, com o discurso ideológico e com a luta política dos indivíduos.

Na base dos movimentos estão as redes sociais e os símbolos culturais, através dos quais se estruturam as redes sociais. Os indivíduos têm que se identificar com os objectivos proclamados no movimento. Isto é, para se formar um movimento social têm que existir um desafio colectivo, objectivos comuns, laços de solidariedade e é necessário existir manutenção da acção colectiva.

O desafio surge quando existe uma acção directa contra as elites, as autoridades e outros grupos com diferentes códigos culturais. O mais habitual é que esta ruptura seja pública, mas também pode ser adoptada como uma forma de resistência pessoal, coordenada com a reafirmação colectiva de novos valores.

Nem todos os conflitos surgem de interesses de classe. Mas na base dos movimentos terá que haver interesses e valores comuns, dissimulados entre si, para que se encontrem objectivos comuns.

No final do século XVIII, ocorreu uma mudança radical na acção colectiva, devido ao apoio da difusão cada vez mais crescente da informação, através da imprensa e o conhecimento desenvolvido pelas redes e associações em territórios cada vez mais extensos, protagonizado por diversos actores e diferentes tipos de questões. Por exemplo, a petição, a greve, a manifestação, a barricada e o protesto urbano converteram-se em respostas aprendidas, que se poderiam aplicar a uma variedade de situações, ocasionando convenções que ajudaram os movimentos a aglutinar e a incluir grupos muito maiores e mais díspares.

A Europa tem-se afirmado ao longo dos tempos como o baluarte da democracia. Ela é a mãe da democracia, com tudo o que esse conceito implica.

É pois, com muita intranquilidade que assisto às movimentações provocadas pelos cartoons que satirizam o profeta Maomé.

Se por um lado consigo entender os movimentos islâmicos, por outro não consigo conceber um mundo onde a liberdade de expressão seria suprimida em função de ícones, religiões e fanatismos.
Admitindo o direito à indignação, não entendo – porque se trata de uma verdadeira aberração – a forma como esta se tem manifestado. A violência não pode ser a resposta a coisa nenhuma.

Abdicarmos do sagrado direito à livre expressão será contribuir para o fim da civilização ocidental tal como a conhecemos.

Hitler no período que antecedeu a guerra deu sinais claros do que poderia acontecer. A Europa – ou a maior parte dos governos europeus – ignoraram olimpicamente todos os sinais que eram por demais evidentes.
O resultado desse laxismo é hoje conhecido como um dos períodos mais vergonhosos da História.

Permitir que actos selváticos sejam perpetuados em nome de qualquer Deus e de pretensas ofensas é em última análise abdicarmos do direito de nos continuarmos a afirmar como uma sociedade tolerante, onde imperam valores intrinsecamente importantes e inabdicáveis.

Muitos tentam que estas manifestações sejam vistas como um confronto de culturas. Não acho que esta premissa seja verdadeira. Trata-se simplesmente duma luta entre valores sagrados de liberdade, de diálogo, de uma sociedade em certos aspectos bastante avançada no que concerne aos direitos básicos para nos realizarmos enquanto seres humanos e uma outra visão do mundo obscurantista que tenta impor pelo terror a castração de tudo aquilo em que acreditamos.

Ceder é o primeiro passo para a perversão de todos os nossos valores.

6 Comentários:

Às 12 fevereiro, 2006 18:06 , Blogger lazuli disse...

Como entender a raiva do Hitler, a luta entre católicos e protestantes,a agressão entre judeus e palestinianos, o ódio entre "pretos" e brancos (cenas de racismo na Europa) ou o caso dos colonos do Zimabwe? E tantos mais ..
E agora isto?.. Isto de que escreves, e muito bem como sempre.
E muito tem a ver com o papel poderoso da comunicação social que leva um cartoon dum pequeno jornal até aos confins da esfera planetária..
Ou não?
Daqui a muitos anos, se o Homem o permitir, o mundo será certamente diferente porque mudará comportamentos e o nosso modo de vida e estrutura mudará também...

A questão dos cartoons não deixa de se incluir nesta escala de violência. O medo é muito mais subtil.
O mundo não é isto, é Mozart...Deveria ser. Mas Mozart e a sua música têm terríveis inimigos, como as armas nuclearaes em vias de serem adoptadas num Irão ali ao lado, mesmo pertinho de si..

Beijos para ti, andei a vaguear sem tino.
Deve ser por causa do domingo..

 
Às 12 fevereiro, 2006 18:48 , Blogger Peter disse...

O teu óptimo artigo, ou não fosses jornalista, leva-me a tecer várias considerações:

- O meu medo, diria antes pavor, de que algo de muito grave esteja para acontecer, porque:
(1). Os EUA estarão a preparar uma possível intervenção no Irão, que terá efeitos devastadores para TODO O MUNDO.
(2). O facto deste protesto muçulmano ter sido orquestrado, uma vez que alguns dos cartoons já tinham sido publicados em Outubro, por um jornal do Cairo e, nessa altura, ninguén tugiu, nem mugiu.

- No que respeita à "liberdade de expressão", é curioso o facto da Áustria ter cedido a pressões e acabado por retirar uma exposição de obras de arte polémicas, com que celebrava o exercício da sua presidência da União Europeia.

Agora um pedido:

O de publicares um post sobre AGOSTINHO DA SILVA (o profeta do 3º milénio), cujo centenário do seu nascimento se celebra na 2ª F.

 
Às 12 fevereiro, 2006 18:56 , Blogger vero disse...

Letras ao acaso... essa "bateu" forte... custou ler...mas terás razão? Terei eu? Honestamente...não sei..."cada cabeça a sua sentença" não é?
Fica um beijinho***

 
Às 12 fevereiro, 2006 21:09 , Blogger Mónica disse...

Adorei este pequeno ponto de encontro.

O mundo é feito de lobos, sim lobos, que se vestem de cordeirinho e fazem o mal que bem entendem.

Um dia li um livro de Lauro Travisan "Apresse o passo que o mundo está a mudar". Adorei o que li, porque demonstra bem a mudança de mentalidade que a humanidade terá de sofrer, para que se possa continuar a viver.

Muitos esperavam que a mudança do milénio se transforma-se em algo extraordinário, até diziam que o mundo iria terminar. E o que e acho é que realmente o mundo pode terminar se a tal coisa extraordinária não entrar na cabeça e no coração de cada um. Não precisamos de viver do materialismo, teremos de passar a viver um patamar acima, terá se ser o nosso interior a guiar a nossa vida, para podermos ter uma vida melhor.

São os homens que estão a destruir-se a si próprios e só eles não conseguem ver isso.

Boa semana

:)

 
Às 12 fevereiro, 2006 23:33 , Blogger maria disse...

A questão está em não confundir liberdade de expressão com liberdade de acção...E muito haverá que burilar ainda no coração e na mente da humana condição, para chegar lá, para que esse deixe de ser um percurso sempre "no fio da navalha"...
Beijinho, Zé, e eu não te esqueci, porque nunca se esquece quem os marca...

 
Às 13 fevereiro, 2006 01:19 , Blogger FataMorgana disse...

Sabes, eu ainda me sinto estranha quando te leio assim, tão objectivo e certo :)
Estava muito habituada aos Acasos de interpretações loucas (se calhar às vezes acertava, só tu sabes...), à tua escrita enviezada, igualmente soberba.

Gostei do teu artigo.
Um beijo grande!

 

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