domingo, fevereiro 5

Do Mito ao Logos

Da análise do pensamento dos filósofos de Mileto, podemos concluir que os mesmos abriram uma ruptura com o pensamento mítico, ao criarem uma nova maneira de pensar que privilegia o uso individual da Razão (Logos), secundarizando a Tradição. É por este motivo que esta nova maneira de pensar se designa por Racional.

Todas as correntes porém tiveram e têm alguns denominadores comuns:

Compreender a Natureza
A sua primeira preocupação foi a de explicar a natureza (Physis, Física), por isso são também denominados de "fisícos".
Descobrir o Elemento Primordial (Arkê, arqué).
Toda a natureza tem origem num mesmo elemento material? Qual? Como se passou de algo que era Uno e indistinto para aquilo que conhecemos como Múltiplo e distinto? Estas terão sido algumas das questões que certamente terão colocado e procurado uma resposta e que os levou a procurarem o elemento primordial da realidade (arqué).
Redução à realidade à sua dimensão material
Ao centrarem-se apenas na natureza e na procura do seu elemento primordial (físico) operaram uma redução na forma de encarar a realidade. Esta passou a ser vista apenas numa perspectiva material, sendo as suas transformações explicáveis apenas com base em elementos físicos. É por esta razão que estes filósofos se designam também por "materialistas", dado que também afastaram das suas explicações a intervenção de seres sobrenaturais na natureza.
Explicação do funcionamento do cosmos
Ao contrário do pensamento mítico que concebia a natureza governada por seres sobrenaturais que nela actuavam de forma arbitrária e imprevisível. Estes filósofos concebem-na como um Todo governado pelo princípio da necessidade: as coisas acontecem porque têm que acontecer, segundo leis que lhes são próprias e imanentes. Sem esta ideia não seria possível constituir-se a Ciência.

Anaximandro legou-nos uma visão surpreendente do cosmos: este não é mais de que um grande mecanismo, que funciona de forma regular e portanto previsível. É com este pressuposto que se fundarão as várias ciências da natureza.
Num plano mais geral, estas investigações filosóficas tornaram evidente que o conhecimento que obtemos pela razão, nem sempre coincide com o que nos é dado pelos sentidos.

Se através dos sentidos descobrimos um mundo caracterizado pela pluralidade, singularidade, mudança contínua e contingência das coisas, através da razão conseguimos descobrir a unidade, imutabilidade, universalidade e necessidade dessas mesmas coisas.

Estas duas percepções da realidade – a dos sentidos e a da Razão – constituem um dos temas fundamentais da filosofia.

Esta já longa introdução impunha-se. Desde logo porque os nossos políticos parecem continuar divididos entre várias correntes filosóficas. Ou porque não as entendem, ou porque toda a matéria estudada lhes é de difícil assimilação. Divididos entre a paixão e a razão, parecem pairar numa espécie de limbo que os paralisa. O país está de rastos e de rastos continuará, por manifesta falta de capacidade de olharem para o todo. Diria que lhes foram implantadas umas palas laterais – comuns às bestas de carga – que não lhes permitem ter a percepção de um mundo em mudança e que exige medidas concretas. O grande problema é eles entenderem quais.
Perdidos na labiríntica burocracia – uma nova forma de filosofia? – e na contemplação dos seus próprios problemas, alheados por completo de como é viver com salários miseráveis, esbanjam o nosso dinheiro arbitrariamente sem saberem bem onde.
Ao baralharem conceitos filosóficos perderam o “norte” às necessidades de um país que continua por cumprir.
O nosso próprio retrato é uma imagem desfigurada no reflexo de um espalho baço e infeliz traçado a negro por quem tem em última análise o dever de manter a moral “em cima”.

Porém, se olharmos à nossa volta e para os mais variados sectores, deparamo-nos com um cenário triste e irrealista das nossas necessidades. As televisões – a quem caberia uma missão de formação – intoxicam-nos com novelas e programas de gosto duvidoso.
Os empresários, regra geral, são péssimos empresários, sem capacidade de olhar além do lucro. A função social da empresa é simplesmente ignorada. Não entendem o processo tão claro, de que se houvessem preocupações sociais, teriam os trabalhadores motivados para a batalha da produção, as famílias desses mesmos funcionários estariam mais alegres e dispostas ao consumo, da mesma forma que os sindicatos se perderam em dogmas cristalizados e incapazes de entenderem o mundo novo, feito de novas tecnologias e de outras verdades.

Perdidos entre a razão e a paixão apenas poderemos esperar o caos. Não o caos filosófico – que até pode ser muito interessante – mas tão-somente o resultado de anos e anos de depressões colectivas e de infelicidade.
Será que esta veio para ficar ou teremos ainda um resto de força para inverter este cenário tenebroso?
Penso que a resposta está em cada um de nós e na nossa real vontade de alterar procedimentos, termos participação activa e efectiva no desenrolar das nossas vidas.

12 Comentários:

Às 05 fevereiro, 2006 18:26 , Blogger António disse...

Meu caro amigo:
Cá por mim, optimista que sou, não tenho dúvidas que dentro de dois ou três anos este país estará novamente num período de vacas gordas e muito transformado em variadíssimos aspectos.
O meu grande temor é a situação internacional.
Desde logo no Médio Oriente, onde os fundamentalistas do Islão parecem querer conduzir o mundo para uma Guerra Santa (contando com a incapacidade do Sr. Bush em conduzir o problema).
Mas a América latina e alguns países asiáticos são também focos perigosos. E porque não a Rússia?
Mas se isso for evitado, temos país, de novo!

Obrigado pela visita.
A minha história tem-me dado bastante trabalho, mas vai continuar...se tiver audiência, claro! Espero que os desenvolvimentos que preparei a ajudem a sobreviver.

Um abraço

 
Às 05 fevereiro, 2006 18:49 , Blogger Su disse...

gostei de ler-te
jocas maradas

 
Às 05 fevereiro, 2006 18:58 , Blogger Maria disse...

Boa noite, gostei.

 
Às 05 fevereiro, 2006 18:58 , Blogger amita disse...

Olá Zé. Jamais me atreveria a pôr em causa ou a duvidar da tua clarividência (re)comprovada por este magnífico artigo.
Seguindo outros atalhos: as palavras traçam caminhos necessários à sobrevivência (ontem, hoje e sempre).
Um bjinho, Zé, e um doce sorriso

 
Às 05 fevereiro, 2006 19:42 , Blogger lazuli disse...

O princípio é o caos.
Do caos tudo sai.
Ao caos tudo volta.

Letrasaoacaso, há um livro do Umberto Eco, O Signo.

Não sei se leste, é provável..

Belissimo texto como sempre.

Um beijo..

 
Às 05 fevereiro, 2006 20:02 , Blogger heloisa disse...

ADOREI A *INTRODUCAO*!...
_Gosto desse seu jeito de explicar os factos e, como os introduz nas Suas Criticas ao CRITICAVEL!!!
_Recorda-me, ainda no *LETRAS AO ACASO*, de uma magnifica Licao de Portugues_AO SEU ESTILO_!!!!!
........................
_GRATISSIMA POR SUA VISITA A MEU MODESTO ESPACO_!

_Nao acrescento mais nada, porque, sabe quanto *ISSO ME HONRA*!

BOM INICIO DE SEMANA!
_SAUDE ACRESCIDA E...BEM-ESTAR GERAL,
LHE DESEJA, SUA AMIGA,
Heloisa.
********************

 
Às 05 fevereiro, 2006 22:50 , Blogger Peter disse...

"os nossos políticos (...) parecem pairar numa espécie de limbo que os paralisa. O país está de rastos e de rastos continuará, por manifesta falta de capacidade de olharem para o todo. Diria que lhes foram implantadas umas palas laterais (...) que não lhes permitem ter a percepção de um mundo em mudança e que exige medidas concretas. O grande problema é eles entenderem quais.(...) esbanjam o nosso dinheiro arbitrariamente sem saberem bem onde.(...) os empresários, regra geral, são péssimos empresários, sem capacidade de olhar além do lucro. A função social da empresa é simplesmente ignorada.(...) da mesma forma que os sindicatos se perderam em dogmas cristalizados e incapazes de entenderem o mundo novo, feito de novas tecnologias e de outras verdades."

Quando um País cheio de problemas gravíssimos, privilegia o futebol na abertura dos seus noticiários televisivos, ou dá uma cobertura mediática generalizada, a um aspecto pontual:
- o casamento de duas homossexuais, o que podemos esperar?

 
Às 05 fevereiro, 2006 23:09 , Blogger Peter disse...

REALCE

Não posso deixar de realçar o excelente texto do outro "contributor", o n/amigo "letrasaoacso" ("zezinho"), bem como as músicas escolhidas e colocadas no blog pela nossa "contributor" e amiga "bluegift":
- Steve Gutheinz, com "Garden dreams"
e
- O vídeo de Madonna: "hang up"

São estes pequenos/grandes nadas, em que por vezes não se repara, que fazem a excelente qualidade e a diversidade deste blog, ao qual dou a minha colaboração.

Desculpem a "vaidade".

 
Às 05 fevereiro, 2006 23:20 , Blogger lazuli disse...

Ler-vos ou ouvir as vossas escolhas musicais é um prazer constante.
É por isso Peter que vocês fazem a diferença, estão "aqui".

Nada mais escrevo porque a alma se emociona e hoje não quero.

Beijos para o trio***

 
Às 06 fevereiro, 2006 00:52 , Blogger Betty Branco Martins disse...



Como gosto muito dos teus textos.

Ao ler-te lembrei-me das palavras tão sábias de Kahelil Gibran.

Nas ninhas viagens, vi certa vez um monstro com uma cabeça de homem e patas de ferro que comia da terra e bebia do mar incessantemente.

E obvervei-o longamente.

Depois aproximei-me dele e perguntei-lhe: "Nunca te basta? A tua fome nunca fica saciada, nem a tua sede mitigada?"

Ele respondeu-me: "Sim, estou saciado, ou melhor, exausto de tanto comer e beber; mas tenho medo que amanhã não haja mais terra para comer nem mar para beber."

(Kahelil Gibran)

Beijinhos

Boa semana

 
Às 06 fevereiro, 2006 23:29 , Blogger Lady disse...

Ainda se fosse apenas o nosso caos interior, esse que nos pode levar a algo de maior que o mundo em que vivemos.
Vivo em caos constante e lido com o caos psicológico dos outros, mas preferia lidar 100 vezes por dia com esse caos, do que aquele em que os nossos politicos nos metem.
Adoro ler-te e há muito que o faço aqui.

 
Às 07 fevereiro, 2006 16:24 , Blogger lique disse...

Perfeito o diagnóstico "filosófico" da situação do país. Nunca me lembraria de explicar a paralisia dos nossos políticos por um conflito entre correntes filosóficas mas creio que, em última análise, tens razão.
Beijos

 

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