sábado, novembro 22

No restaurante

Sentado a um canto do restaurante, saboreando o café que acabava de beber, entretinha-me a ler um artigo de uma revista e a fazer horas para o regresso ao escritório.

“O que é que nos excita e nos provoca e estimula o interesse sexual?”

Será que agora só se pensa em sexo, ou serei eu que estarei a ficar demasiado velho para pensar nele? (interrogo-me).

“Cada pessoa é um mundo e enquanto a algumas são determinadas características que as excitam, a outras podem causar-lhe o efeito contrário, a perda do interesse sexual. Tanto podem ser problemas físicos, de personalidade ou atitudes.”

O homem está a perder o seu estatuto, já que a iniciativa passou a ser da mulher em muitos casos. A emancipação feminina, iniciada com o trabalho fora de casa, completou-se com a pílula anticoncepcional. (“marialvismo” meu? Possivelmente sim).

Continuo a ler:

“Quando se inicia uma relação, gera-se um processo de selecção. Neste processo ambos vão explorando compatibilidades e complementaridades. Pode ser que nem sequer se procure qualquer compromisso e que o interesse em conhecer alguém nem sequer tenha em mente o aspecto sexual, o que não impede que o mesmo possa vir a acontecer.”

O artigo é mesmo chato e acabo por pôr de parte a revista.

É então que reparo no casal da mesa ao lado, ainda em meio da refeição. Ela muito atraente, uma bela morena, na casa dos quarenta, altura em que a mulher atinge a sua plenitude. Ele talvez dez anos mais velho, nem tanto. Magro alto, mas não em demasia. Casaco e gravata, portanto todo o ar de dois colegas de trabalho.

Não sou “cusco”, mas sem querer dou comigo a ouvi-los.

M - Tens um problema a resolver, e hás-de resolvê-lo. És um homem muito atraente sob todos os aspectos, mas sabes que o desgaste e o passar do tempo num casamento dificultam as coisas e diminui o desejo.

H – Uma boa parte das nossas preferências são de índole cultural, mas nem todas.

Retomo a leitura. Acho indecente estar a ouvir as conversas dos outros.

“Na nossa atracção, ou rejeição, podem concorrer muitos factores, um simples aspecto, um pequeno detalhe, eventualmente uma parte da história da outra pessoa, que têm maior importância que tudo o resto e que as desencadeiam.”

Alto! A morena parou de comer e fita-o, olhos nos olhos.

M - É natural que num casal a mulher seja a mais afectada, sem se dar conta. Um de vocês tem que tomar a iniciativa e pelo que vejo, terás que ser tu.

Ele não responde, e deixa-a falar.

- Vejo-te muito ansioso com a falta de receptividade da outra parte, mas isso resolve-se conversando sobre o assunto.

Comecei a ver a questão, ou talvez não. Nós homens nunca compreendemos as mulheres.

Ela continua e ele, estúpido, ainda não percebeu que é ela que está profundamente interessada nele e que não o esconde.

M - A certa altura reparei no meu egoísmo...tu a quereres falar sobre o teu problema e eu sem dar conta disso. Mas se te puseres no meu lugar, entenderás que não é fácil a uma mulher que ama alguém, ouvir esse alguém falar de sexo e de ansiedade por outra mulher, mesmo que seja a sua. Por isso não te ouvi como devia ser...Problema meu, não teu, pois tu sempre foste muito directo, eu é que não entendi bem a questão (é caso para dizer que "o amor é cego").

Levantei-me e saí. Estou certo que ele finalmente acabou por compreendê-la, ou talvez não …

(Texto incluído no livro “nuvens”, a publicar)

5 Comentários:

Às 23 novembro, 2008 00:15 , Blogger Manuel Rocha disse...

Soberbo !
:)

 
Às 23 novembro, 2008 00:31 , Blogger Peter disse...

Obrigado. Agradeço imenso os v/comentários, que são uma orientação para o que escrevo.

 
Às 23 novembro, 2008 16:11 , Blogger vbm disse...

Hum... Eu, devo ser muito pouco psicólogo, ou ingenuamente psicólogo - o que redunda no mesmo -, mas, tenho para mim, uma singela abissal diferença sexual entre homem e mulher. E é ela esta: - A mulher vira rapidamente anafrodita! Não será, assim por acaso, que tendo a ser polígamo, se não de facto pelo menos in mentis!

:)

 
Às 23 novembro, 2008 17:28 , Blogger Peter disse...

vbm

Personagem lendo um texto que entremeia com uma conversa dum casal sentado perto. Por coincidência, texto e conversa relacionam-se.

Ainda bem que as mulheres não viram rapidamente anafroditas. Demora um certo tempo...

Aqui a mulher está caçando em coutada alheia.

Pura ficção, ou talvez não. Sob a pressão da concorrência, a mulher assume cada vez mais o papel de predador.

 
Às 23 novembro, 2008 19:33 , Blogger vbm disse...

Tens razão, não é bem de repente, mas acabam por virar, pelo que mais uma boa razão se acrescenta à opção da poligamia: - divorciar, mudar, isso é mais mania de mulher; l'uomo soma, não subtrai.

 

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