segunda-feira, outubro 29

Cronos


Na 4ªF calhou ir visitar o Palácio Marquês de Fronteira onde alíás já fora por diversas vezes, mais preocupado nessa altura com as criancinhas, que com o Palácio. Mas desta vez era eu que estava a fazer o papel de "criancinha" e havia uma morena engraçada a servir-nos de guia.

"Servir-nos" pois a visita integrava-se num daqueles anuais "almoços de Curso". Desta vez portámo-nos à altura, fazendo a cabeça em água à guia, quer dizer, portámo-nos mesmo como criancinhas. Nem sempre é assim: nos primeiros anos há, cumulativamente, a intenção de mostrar o carro novo, ou outros sinais de prosperidade. Depois, com o decorrer do tempo, há o contar dos mortos e o lembrar dos doentes e incapacitados de comparecer, por motivos de saúde, ou outros, o que se torna desagradável e nos leva a apalparmo-nos a nós próprios, para nos certificarmos que estamos mesmo ali e que estamos inteiros.

Percorremos o maravilhoso jardim, ornado de estátuas e houve uma que não a identificámos de imediato: era a de Cronos, que fotografei e sobre o qual esboço uns traços biográficos, se assim se lhe pode chamar.

«Deus da mitologia pré-helênica ao qual se atribuíam funções relacionadas com a agricultura, mas de um caráter sinistro e negativo, o correspondente ao Saturno entre os romanos. Um exemplo dos conflitos religiosos e culturais surgidos entre os gregos e os povos que habitavam a península helênica antes da sua chegada.

O Saturno dos romanos, era filho de Urano (o céu) e de Gaia ou Géia (a Terra) e comandante dos Titãs. Incitado pela mãe e ajudado pelos irmãos, os Titãs, mutilou o seu pai, o que separou o céu da terra, ocupou o seu lugar e casou com a sua irmã, Réia, tornando-se o primeiro rei.

O seu reinado, porém, era ameaçado por uma profecia segundo a qual um de seus filhos o destronaria. Temendo a profecia devorava todos os filhos que lhe dava a sua mulher, Réia, tal como o tempo devora todos os instantes, até que esta o enganou e conseguiu salvar Zeus, dando ao marido para comer uma pedra embrulhada num pano, que ele devorou sem se aperceber de nada, julgando estar a comer o filho (Zeus).

Quando Zeus cresceu, cumpriu a profecia e fê-lo vomitar os outros irmãos ainda vivos, expulsou-o do Olimpo e baniu-o para o Tártaro, lugar de tormento. E assim como o pai simbolizava o tempo, ao derrotá-lo, Zeus tornou os deuses imortais.

Normalmente era representado como um ancião empunhando uma foice. Segundo os romanos, ao fugir do Olimpo, ele levara a agricultura para Roma, com o que recuperava as suas primitivas funções agrícolas e, em sua homenagem, celebravam-se as "saturnálias", festas rituais relacionadas com a colheita.»


Foi a frase acima que me permitiu identificar a estátua:

«devorava todos os filhos que lhe dava sua mulher, Réia, tal como o tempo devora todos os instantes»

(Foto Peter)

18 Comentários:

Às 29 outubro, 2007 02:32 , Anonymous Anónimo disse...

Tempo que tempo tem?

Abraço

Jerônimo

 
Às 29 outubro, 2007 09:24 , Blogger bluegift disse...

Será por isso que somos todos filhos do tempo? Nao sei, mas a estória é bonita.
Conheco relativamente bem um dos antigos habitantes do palácio, que tinha sempre muita dificuldade em responder cada vez que alguém lhe perguntava a morada, "ai voce mora num palácio?! pois, pois, nao me vai agora dizer que ainda por cima é o príncipe?", julgando as pessoas que ele ou estava a mentir ou era maluco... E nao é que o rapaz tem mesmo cara e porte de um príncipe dos contos de fadas? Coitado, muitos mal entendidos sofreu ele antes de abandonar o palácio.

 
Às 29 outubro, 2007 09:30 , Blogger Paula Raposo disse...

Foi bom recordares-me uma das aulas na Faculdade em que o professor contou isto mesmo! Beijos.

 
Às 29 outubro, 2007 09:32 , Blogger Tiago R Cardoso disse...

interessante...

 
Às 29 outubro, 2007 09:34 , Blogger Peter disse...

Jerónimo

Tens razão, o problema do Tempo já foi abordado várias vezes aqui no blog. O Henrique, que consta dos n/links, até teve a amabilidade de me oferecer um livro escrito por ele sobre o assunto. Eu vou responder-te com um comentário que deixei há 2 dias noutro blog amigo:

O Tempo...
O Tempo, não existe. Medem-se percursos, distâncias e a isso chamamos "tempo".
O nosso "percurso" neste mundo (haverá outro? Hummm...) é a "passagem do tempo". Não é "passagem" nenhuma, é o evoluir do nosso organismo.

Mas neste post falamos de Mitologia, um assunto sempre interessante: a visão como os Romanos, mas principlmente os Gregos, tinham do Mundo.

Boa semana e vai aparecendo, mesmo "anónimo".

 
Às 29 outubro, 2007 10:14 , Blogger Peter disse...

Tiago

Interessante o artigo que hoje publicou:
"Políticos: quanto mais poder, menor lucidez?"

Boa semana

 
Às 29 outubro, 2007 10:17 , Blogger Peter disse...

"bluegift"

Filhos do tempo? Mas se ele não existe ...

Boa semana

 
Às 29 outubro, 2007 10:18 , Blogger Peter disse...

Paula

Mais 2 blogs que "vão à vida"?

 
Às 29 outubro, 2007 13:37 , Blogger augustoM disse...

Os deuses talvez tenham sido uma das primeiras tentativas de tornar temporal o intemporal. O tempo existe porque nós existimos, fora de nós não há tempo, só a incognoscível eternidade, por isso, somos a medida de todas as coisas, inclusive do princípio e do fim.
Um abraço.

 
Às 29 outubro, 2007 14:12 , Blogger Ant disse...

E porque será que o miúdo lhe tapa a boca? Cansado de disparates?

 
Às 29 outubro, 2007 15:19 , Blogger Peter disse...

Não "ant", o miúdo não lhe está a tapar a boca.
Cronos é que está a comer o miúdo (filho), mas comer, comer mesmo...

É só questão de leres um pouco mais acima, a não ser que não gostes de Mitologia.
Eu gosto.

 
Às 29 outubro, 2007 15:22 , Blogger Peter disse...

Olá Augusto

Estranhei não teres aparecido para leres os artigos do FPaiva sobre o "teu" Porto.

Abraço

 
Às 29 outubro, 2007 18:55 , Blogger herético disse...

convém apalparmo-nos de vez em quando a nós próprios, para nos certificarmos que ainda estamos, antes que Cronos nos faça alguma partida...

excelente. abraços

 
Às 29 outubro, 2007 20:50 , Blogger Crítica e denúncia disse...

olá Peter, você é um dos 44 blogueiros que tem ajudado a fundar aquele trabalho do S.O.S. Miséria. Vim te ler, te dar um beijinho e dizer que você é importante para aquele trabalho.
Foi inaugurado o blogue, esperamos tua visita. Beijo grande de Alda

 
Às 29 outubro, 2007 22:18 , Blogger Olhos de mel disse...

Oie meu amigo lindo! Mais uma brilhante história mitológica. Aqui sempre um maravilhoso assunto. E hoje não ficou atrás...
O tempo... Senhor da razão!
Que sua semana seja maravilhosa!
Beijos

 
Às 30 outubro, 2007 00:46 , Blogger Betty Branco Martins disse...

Olá Peter

Se o "tempo" devora tudo_____pois então_____os filhos também teriam que ser comidos:))ai estes deuses!!!

Beijinhos
boaSemana

 
Às 30 outubro, 2007 01:42 , Blogger Peter disse...

Alda

Não sei se já reparou mas coloquei os blogs "Silêncio Culpado" e "S.O.S. Miseria" nos links, como o prometido.
Pode ser que desse modo contribua para uma maior difusão do projecto.

 
Às 03 novembro, 2007 09:57 , Blogger António disse...

Até no Olimpo havia filhos da puta!
ah ah ah

Abraço

 

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