domingo, maio 6

Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto, só...

antónio ramos rosa

11 Comentários:

Às 06 maio, 2007 13:11 , Blogger Peter disse...

"bluegift"

António Ramos Rosa é sempre o número 1 para mim. Não conhecia o texto, que apreciei.

Podes ler um artigo muito interessante do encontro entre a "Menina Marota" e o poeta, com foto desse encontro.
O artigo é do dia 01 deste mês e encontra-lo no blog:

http://meninamarota.blogspot.com

que consta nos n/links.

Bom Domingo

 
Às 06 maio, 2007 13:16 , Blogger António disse...

Tenho andado ausente deste blog, por isso vou começar pelo último post e vou andando para baixo...

O Ramos Rosa não era o velho surrealista que morreu recentemente?

Beijinhos

 
Às 06 maio, 2007 13:16 , Blogger H. Sousa disse...

Pondo em dia...
Belas anedotas em baixo.
Este é um poema grande, da escola pessoana. E revejo-me nele, poema. Por vezes sinto-me exacti-qual.
Abraços

 
Às 06 maio, 2007 13:22 , Blogger António disse...

Pois...quando estava a ler pareceu-me que seria um escrito do Pessoa.
Mas o Pessoa não era surrealista.
Será que já disse muitas asneiras?

Beijo

 
Às 06 maio, 2007 16:36 , Blogger Paula Raposo disse...

Excelente escolha, Bluegift. Beijos para ti.

 
Às 06 maio, 2007 16:46 , Blogger Peter disse...

António, aquele a que te referes é Mário Cesariny, falecido em 26 NOV 06, com 83 anos.
Este é António Ramos Rosa, para mim o maior poeta português vivo e por quem tenho um carinho especial pois foi com ele que me iniciei na leitura de poesia.
Podes ver uma foto dele com a "Menina Marota" no artigo que esta escreveu em 01 deste mês: "E no olhar para a alma do Poeta ..." e publicou no seu blog que consta dos n/links.

 
Às 06 maio, 2007 18:39 , Blogger augustoM disse...

Obrigado Peter, pelo óptimo comentário. A respeito das reencarnações, ainda vou publicar um diálogo platónico sobre o assunto, que ele aborda no Diálogo Fédon.

Mas quem não se sente um pouco dentro do poema? O mal fadado inconformismo, do nosso quotidiano.

A música está muito bem escolhida, não tenho tido sorte com as minhas, arrancam muito lentamente, a que não ouviste, era lindíssima, do filme a A Missão.
Um abraço. Augusto

 
Às 06 maio, 2007 20:54 , Blogger Papoila disse...

Um belo poema de António Ramos Rosa de quem muito gosto.
Beijo

 
Às 06 maio, 2007 21:56 , Blogger Ant disse...

Olha blue, també me sinto assim... farto.
Beijos amiga

 
Às 07 maio, 2007 07:45 , Blogger bluegift disse...

Peter, o António Ramos Rosa obriga-nos a pensar e a sentir. Gostei muito de ver a foto dele no Menina Marota. Boa Semana para ti.

António, o Peter já te respondeu. Acredita que vale a pena conhecer melhor este poeta.
Beijos.

Henrique, é triste quando chegamos a este ponto, mas faz parte da vida e obriga-nos a valorizar pequenas alegrias.

Paula, nem toda a gente percebe a alma do poetas; é uma realidade com que se aprende a viver. Beijo.

Augustom, o problema da reencarnação é que o raio da memória deita sempre tudo a perder. Abraço ;)

Olá Papoila, beijo para ti.

António, coragem rapaz, não há grandes alternativas. Um grande beijo :)

 
Às 07 maio, 2007 21:26 , Blogger Peter disse...

"o futuro é uma criança esfarrapada e luminosa no ombro do horizonte"

(“A espécie viva”, poema de António Ramos Rosa in “Gravitações”)

 

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