quinta-feira, maio 10

Grilos


Quando eu era miúdo e frequentava a então chamada "Instrução Primária", obrigatória como instrução oficial básica até à 3ª classe, portanto há muitos, muitos anos, adorava por esta altura do ano ir aos grilos.
A escola era no limite da vila e, por detrás, havia um monte com três moinhos de vento que funcionavam mesmo. Um deles era de um companheiro de escola e, muitas vezes íamos lá ver o pai a trabalhar.
Falo deste assunto porque foi ali que filmaram cenas de um dos primeiros filmes portugueses: "A canção da terra", de Jorge Brum do Canto (n.1910 – m.1943).

Claro que foram dias de alvoroço na escola, mas voltemos aos grilos.
Descíamos a outra vertente do monte e espalhávamo-nos pelo campo. Quando um de nós ouvia o seu cantar cri-cri, íamos pé ante pé tentar localizar a toca.
Muitas vezes não conseguíamos. Era a toca de uma fêmea, que não cantava e nos ferrava nos dedos que não era brinquedo. As fêmeas distinguiam-se por terem três rabos.
Com uma palhinha que enfiávamos na toca, procurávamos que o grilo saísse.
Depois de verificarmos que não era uma fêmea, apanhávamo-lo e colocávamo-lo na cabeça, debaixo do boné. Era engraçado, pois alguns começavam logo a cantar ali. Eram os que cantavam mais e que nós chamávamos, vá lá saber-se porquê, de “realistas”.
Quando não conseguíamos fazê-los sair com a palhinha, recorríamos ao último recurso: urinar para dentro da toca.

Havia umas gaiolas pequenas: duas tabuinhas de cor, de forma quadrada, unidas entre si por arames finos, que se compravam nas drogarias e mercearias. Não havia supermercados, e ainda bem que assim foi e que eu cresci em contacto com a Natureza.
Espetávamos um prego na parede, do lado de fora da janela e ali colocávamos o animalzinho. Havia que ter cuidado em colocar apenas um em cada gaiola, pois se colocávamos dois, brigavam entre si.
Como alimento, uma folha de alface. E ali os tínhamos a cantar até ao S.João, altura em que acabavam, mais dia, menos dia, por morrer.

Era assim, meus amigos, mas ide lá para os vossos jogos de computador, para os “game-box” e toda essa vossa ”parafernália”, que os mantém encerrados nos vossos apartamentos, enterrados nos maples.

2 Comentários:

Às 10 maio, 2007 11:02 , Blogger Ant disse...

Hehehehehehe, e outras maldades inconfessáveis aos bichos... a verdade é que, com dizia ontem um amigo meu "parece que antes tínhamos menos coisas mas éramos mais felizes."
E ele não se referia, de todo, aos tempos, dos outros senhores.
Não. Foi mesmo um desabafo de alguém qur tinha comprado um carro novo mas não estava preenchido por dentro, como tantos de nós.
Abraço

 
Às 10 maio, 2007 18:06 , Blogger António disse...

Olá, Peter!
Como sou mais jovem do que tu, no meu tempo a instrução obrigatória já era a 4ª classe.
Lembro-me perfeitamente de todos esses pormenores de que falaste na caça aos grilos e na sua conversão em "animais domésticos".
Pois...também participei em várias caçadas.
Mas nunca apanhei nenhum porque tinha medo dos bichos...ah ah ah

Gostei de recordar esses tempos já longínquos.

Obrigado pelo comentário ao meu conto: "Herança"

Um abraço

 

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