quarta-feira, dezembro 13

Ricos, remediados e pobres


Na 2ª metade do século passado era esta a estratificação social no Alentejo. Os ricos eram os lavradores, donos de herdades (“montes”, como lhes chamávamos) que faziam gala no “nome” e casavam os filhos entre si. Normalmente os casamentos eram ajustados nos luxuosos bailes que organizavam em Évora no “Clube” e nos quais só era permitida a entrada em trajes de gala.
Era ali em Évora que todas as 3ªs Feiras, no Café Arcada, os lavradores da região se reuniam para negociar. Nós, os estudantes, chamávamos-lhe “o dia de S.Porco”. Lembro-me dum facto verídico que ali se passou e que passo a relatar:
- um indivíduo podre de rico, chamavam-lhe “o Descalço”, excêntrico e sem se importar com o seu aspecto ou com o que vestia (não andava de capote, mas sim de gabão que era o usado pelos trabalhadores rurais) entrou e sentou-se à mesa do café. Um criado, novo na casa, acorreu a pô-lo na rua. Mas o gerente, que sabia bem de quem se tratava, veio solícito arranjar-lhe uma mesa e até lhe foi buscar uma cadeira, desfazendo-se em mil desculpas. O “Descalço”, que até certo ponto era um filósofo, sentou-se na cadeira trazida pelo gerente do café, dizendo:
- “senta-te meu dinheiro, que o homem nada vale”.
Também era o dia do amor. Não havia lavrador que não tivesse na cidade a sua amante de casa posta. Era um sinal de “status”. Claro que, nos outros dias da semana …

Cada herdade tinha uns largos milhares de hectares e lembro-me de um que possuía 23! Tinham gado, grandes rebanhos de ovelhas e cultivavam principalmente trigo. Se o tempo corria de feição, as searas eram boas e eles mudavam de carro. Se eram más, o Estado subsidiava-os e eles com o subsídio mudavam de carro.
Havia poucos carros na terra: um do veterinário, outro, muito antigo, do médico e mais 4, um de cada lavrador, pois só os mais “evoluídos” de entre eles se davam a esse luxo, não porque os outros não pudessem comprá-los, mas por, sendo mais “tradicionalistas”, preferirem pavonear-se nas suas “charrettes”.
Tinham uma Sociedade Recreativa, a que nós chamávamos a “sociedade dos ricos”, de admissão condicionada, pois não só não eram admitidos os que não possuíam “nome”, como até porque quem não pertencesse à classe, mesmo tendo dinheiro, acabava por sair por não se sentir lá bem. O veterinário e o médico eram tolerados, porque necessitavam deles.
Na Sociedade entretinham-se lendo jornais e revistas, entre elas o “Sinal”, que era propaganda nazi distribuída por um comerciante de fazendas, bem instalado na vida e germanófilo notório, pois isto passa-se por alturas da II Guerra Mundial. Jogavam às cartas, ao king, pois o bridge era demasiado complexo, e bilhar. No campo anexo e vedado jogavam ténis, pois o ping-pong era demasiado reles para eles.

(continua)

3 Comentários:

Às 13 dezembro, 2006 09:22 , Blogger Paula Raposo disse...

Estou a gostar de ler. Espero a continuação. Beijos.

 
Às 13 dezembro, 2006 20:53 , Blogger augustoM disse...

Os ricos não estão mal na vida, vamos lá ver os remediados.
Um abraço. Augusto

 
Às 13 dezembro, 2006 22:00 , Blogger Peter disse...

Augusto, são memórias do meu tempo de rapaz.

 

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