sábado, novembro 4

Mudança de nome

O menino Epaminondas era um complexado. Mas que raio de nome lhe tinham posto! Os pais bem se esforçavam por o consolar:
- "Que já o seu avô se chamara assim e que o pai fizera questão"
Mas nada o convencia. Ele bem tentava que lhe chamassem "Epá". Mas não pegava e assim se foi arrastando com aquele "peso" até à Faculdade, sempre gozado pelos colegas. Lá tirou uma licenciaturazeca. Lá se filiou num desses partidos que trocam entre si o Poder e depois de uns milhares de cartazes colados, acabou por obter o seu "job": passou a ser Subsecretário do Secretário de Estado do Ministro das Feiras e Mercados.

Como éramos conterrâneos, uma vez fui lá chateá-lo por causa dum lugar de venda de alfaces para uma prima minha, que veio ter comigo a Lisboa a ver se eu, já que tinha andado na escola com Sua Excelência, conseguia uma “cunha” para que a Câmara lhe passasse a referida licença.
Pus uma gravata e fui ao Terreiro do Paço, convencido que aquilo era “canja” e que daí a nada estaria a beber um cafezinho com o Epaminondas.

Pura ilusão …
Sua Exª mandou dizer-me pela Secretária:
- "Que não se lembrava de mim, mas que, uma vez que eu dizia sermos conterrâneos, poder-me-ia receber daí a seis meses."
Lá falei com a minha prima e, passados seis meses, pus novamente a gravata e fui falar com a Excelência Excelentíssima.

Mandou-me entrar para o seu gabinete, que era maior que o meu T1, precisamente quando estava a "mandar vir" com a Secretária.
Que ela era uma incompetente, que dactilografara "estaremos", em vez de "estare-mos", etc e tal.
Ela bem se esforçava por se defender:
- "Sr Doutor para aqui, Sr Doutor para ali" ...
Mas em vão. O Sr Doutor permanecia irredutível. Era “estare-mos”, porque ele é que sabia e por isso é que tinha sido nomeado para aquele cargo de alta responsabilidade e confiança do Governo.

Quando o "temporal" amainou, lá me decidi timidamente a expor ao que vinha:
- "Vê lá tu, ó Epaminondas ..."

Fui de imediato interrompido:
- "Epaminondas? Onde diabo "foi" arranjar esse nome? Faz favor trate-me por Senhor Doutor, como toda a gente e acabou-se já a conversa!"

Claro que quem se lixou foi a minha prima, porque eu o mandei à m…

7 Comentários:

Às 04 novembro, 2006 01:20 , Blogger Damularussa disse...

à m.... de onde ele nunca deve ter saído..

Provado está que até de um Epamimondas se faz um bom texto:-)

cumprimentos

 
Às 04 novembro, 2006 11:26 , Blogger Paula Raposo disse...

Eh eh eh adorei!! Beijos.

 
Às 04 novembro, 2006 14:20 , Blogger António disse...

Caro Peter!
Uma história plena de ironia.
Por coincidência, o Presidente da Câmara do meu concelho também foi da minha turma no 1º e 2º anos do liceu.
Mas não se lembra de mim!
Eu lembro-me perfeitamente dele e do nome pelo qual era conhecido, mas não digo...por enquanto...eh eh.
Acho que com uma memória dessas eu é que devia ocupar o lugar dele...eh eh.
Enfim...
Obrigado pelo teu "comment".

Um abraço

 
Às 04 novembro, 2006 16:23 , Blogger Betty Branco Martins disse...

Peter

Fizeste muito bem.

Porque há gentinha que pensa que doutor, é nome próprio.

Beijinhos
BomFsemna

 
Às 04 novembro, 2006 17:32 , Blogger Betty Branco Martins disse...

Eu sabia (sei) que a história é ficção - só que a realidade não anda muito longe - nada mesmo:)

Claro que sim Peter, como já te disse, será uma honra para mim. Muito obrigado:)

Beijinhos

 
Às 04 novembro, 2006 18:14 , Blogger Papoila disse...

Peter:
Tantos se comportam assim...
Retiro esta simples frase de um prefácio de Mestre Aquilino Ribeiro:
"...Quando um amigo meu chega a ministro não é o filho de meu pai que lhe sobe os degraus...", no caso subiu-os para dar um parecer que foi aceite e cumprido...
Beijo

 
Às 05 novembro, 2006 10:30 , Blogger augustoM disse...

Olá Peter
Gostaria que respondesses à pergunta que faço no meu blog, relacionada ao teu comentário.
Um abraço. Augusto

 

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