sexta-feira, julho 14

Gostar e amar

"Não tenho seja o que for contra o meu marido, não tenho seja o que for contra ninguém. No caso de perguntarem
- Gostas dele?
respondo que gosto sem saber ao certo o que é gostar de ti, o que isso significa" (1)

Gosto de te ouvir rir quando converso contigo, como gosto de estar junto a ti e de te sentir satisfeita. Sinto-me feliz por isso, por te dar este prazer. Gosto de te poder ser útil e procuro ajudar-te com os meus conselhos, como me preocupo com a tua saúde.
Será isto o amor? Se calhar não é, se calhar nunca amei ninguém.

Lembro-me da minha mãe, depois de terem morrido os meus outros dois irmãos, se ter tornado extremamente possessiva, agarrando-se a mim aos beijos e de eu a afastar.

- "Não tens coração. No seu lugar tens uma pedra", dizia-me ela. Talvez fosse isso que me marcou para sempre ...

"Somos felizes acha a minha mãe. Será ideia minha ou a felicidade é uma maçada?
(...)
Quando a minha mãe acha que somos felizes o meu pai olha para mim de banda, calado" (1)

Se calhar é uma "maçada".

Os telemóveis servem para comunicar, embora sejam utilizados principalmente para conversar, ou namorar. O pior é a conta das chamadas ...
Mas essa obsessão quase doentia de estar sempre em contacto, não será uma manifestação de insegurança de um e controlo que o outro sente pesar sobre si e que por isso acha que lhe coarta a liberdade?

Os homens querem-se livres como os pássaros, como dizia o professor Leal, no livro de Isabel Allende, "De amor e de sombra":

- "se a liberdade é o primeiro direito do homem, com maior razão devia sê-lo para as criaturas com asas nas costas"

Por isso gosto de os ver voar livremente e como gostaria de me poder juntar a eles ...


"Voo" junto ao mar, rasando as ondas, nas quais mergulho.

-----------
(1) - Citações de António Lobo Antunes, in "Crónica do domingo de manhã", revista VISÃO nº 696 de 6 a 12 de Julho de 2006

19 Comentários:

Às 15 julho, 2006 13:22 , Blogger Ni disse...

«- "Não tens coração. No seu lugar tens uma pedra", dizia-me ela. Talvez fosse isso que me marcou para sempre ...»

...

Sorrio ao associar esta frase ao livro do ALA, 'Eu Hei-de Amar Uma Pedra'.
...

E sorrio mais quando relembro o que esse Lobo, que também é António, disse sobre o seu modo de escrever:

«Só começo um livro qundo estou certo de não ser capaz de o escrever»

...

Esta é a diferença.

É 'aqui' que quase todos desistimos. De ir, de dizer, de gostar, de amar, de sorrir...

...quando estamos 'certos' de não sermos capazes de o fazer... estamos 'errados'. Porque até amar uma pedra é possível... (já te disse que não acredito em impossíveis? )

...

E a despropósito de tudo, ou não, porque eu escrevo como falo... e ao falar sou como as crianças, que associam o que a verdade da inocência lhes capta a atenção - ou a memória - no momento... sabes que eu gosto de 'pedras'? Não das chamadas preciosas, aquelas com nomes sofisticados, mas das pedras como as que encontramos em certos muros, em Sintra, por exemplo. Pedras sólidas, com musgo, com idade indefinida, que registam as histórias, as chuvas, os sóis... o tempo.

...Ter uma pedra no lugar do coração ou ter um coração de pedra... não poderá ser um elogio à 'firmeza'? Ao que persiste.... apesar da mutabilidade dos momentos?
...

Vou-me calar (sussurro). Ainda corres comigo.

Sorriso.

Ni*

 
Às 15 julho, 2006 15:14 , Blogger Ant disse...

este texto é muiot bem conseguido ó Peter.
Pleno de sentido e de questionamentos. a questão nos relacionamentos, sobretudo se no início - penso eu, claro -, é a necessidade de estar junto. sempre. Mas é verdade, deveríamos ser tão livres que não pensássemos sequer na "minha mulher" ou no "meu homem" ou no "meu" alguém. Nossos são os nossos olhos e outros artefactos que trouxemos ao nascer.
Desculpa a extensão disto... prometo que não repito.
abraço

 
Às 15 julho, 2006 15:26 , Anonymous Anónimo disse...

so p dizer que estou de volta....
beijos lucia**

 
Às 15 julho, 2006 16:22 , Blogger Papoila disse...

Li, reli, fiquei presa ao texto.
Voei com ele também ... juntei-me aos pássaros que rasam as ondas e mergulhei.
Beijo

 
Às 15 julho, 2006 19:55 , Blogger Peter disse...

"ni", deves saber que não existe nenhum conceito suficientemente abrangente para definir o que se entende por VIDA. Podes falar com o maior cientista que conheças, pesquisar no Google, sei lá, encontras sempre algo que não "cabe" na definição.

Posso dar-te um exemplo simples:
- a capacidade de se reproduzir, é entendida como estando sempre potencialmente presente. Ora as mulas não têm essa capacidade, logo não constituem uma forma de vida.

Então, porque não "hei-de eu amar uma pedra", como escreve o ALA, se a mesma pode ser (e como negá-lo?), uma forma de vida?
E se todo o Universo não fosse mais que vida que se manifesta sob as mais diversas formas, cada uma possuindo as suas potencialidades e características e privilegiamos unicamente a inteligência e a espiritualidade, que é uma forma de nos separarmos do TODO, em que nos inserimos, como se o mesmo Universo, segundo o conceito antropomórfico, tivesse sido criado para ser utilizando em proveito, deste ser extremamente frágil e dependente, que é o Homem, mísero habitante dum pequeno "calhau" que orbita uma mísera estrela duma ínfima galáxia?

 
Às 15 julho, 2006 20:13 , Blogger Peter disse...

António, por favor repete os teus longos comentários. É uma forma de conversarmos e também de aprender algo e de nos aperfeiçoarmos.

Abraço e bom fds

 
Às 15 julho, 2006 20:17 , Blogger Peter disse...

Lúcia, é bom estares de volta já com a INTER a funcionar.
Tenho estado toda a semana na tua terra, mas amanhã, já em Lisboa, visitarei o teu blog.

Bom fds*

 
Às 15 julho, 2006 20:23 , Blogger Peter disse...

Olá Papoila!
Outro dia escrevi uma resposta demasiado longa ( e provavelmente maçadora) a um teu comentário.

Ainda bem que gostaste do texto, fico contente por isso.

Amanhã, já em Lisboa, visitarei o teu blog. Hoje não dá.

Bom fds*

 
Às 15 julho, 2006 22:43 , Blogger Tribunal_Beatas disse...

Este post fez-me lembrar aquele anúncio da rapariga que, ao ler um livro, diz "nunca amei ninguém, na verdade nem sei o que isso significa".
Eu acho que também posso dizer o mesmo, mas também penso que sei definir o amor: um sentimento que nos corta a respiração quando estamos com a pessoa e que dói quando a não vemos. No amor se esconde muitas outras coisas, entre as quais saber dar o espaço para a pessoa voar. O professor Leal tem toda a razão. Numa prisão ninguém nem nada sobrevive. Nem mesmo um sentimento tão forte como o amor. É algo que deve ser tratado como uma flor. Deve ser plantado e regado, com carinho e respeito.
É assim que o vejo. Mas quem sou eu?
Beijinhos

 
Às 15 julho, 2006 23:11 , Blogger Peter disse...

"tribunal_beatas", "quem és tu?"
És uma pessoa que eu gosto de ver por aqui, mas que ultimamente tenho visto pouco, tanto aqui, como no teu blog.

É claro que toda e qualquer semelhança do texto com a realidade é pura coincidência. Mero exercício literário a que não sou muito dado, nem dotado de mérito para tanto.

Bom Domingo*

 
Às 16 julho, 2006 09:33 , Blogger bluegift disse...

Peter, eu creio que, acima de tudo, é muito bom ter uma boa companhia. alguém de quem gostamos, que nos acompanha e aquece nos melhores e piores momentos. Será uma espécie de "melhor amigo/a". Se o/a pintalgarmos com momentos de paixão, talvez lhe possamos chamar "amor" ;)

 
Às 16 julho, 2006 11:35 , Blogger amita disse...

A liberdade plena só se alcança nesse voar que falas. Excelentes comentários os que estão a aparecer por aqui. Reafirmo a crescente beleza dos teus artigos nessa forma peculiar da tua escrita. Não é um galanteio (não sou dada a isso, como sabes, meu amigo).
Um bjo e um bom regresso a Lisboa

 
Às 16 julho, 2006 15:47 , Blogger MARTA disse...

Gostei muito do teu texto e também faço a mesma pergunta.
Por vezes, confunde-se as coisas e estraga-se uma boa amizade. O contrário também pode acontecer.
Houve alguém que deixou o seguinte comentário no meu blog:
"Mais vale ter um bom amigo do que um namorado que nos estilhaçe a auto-estima". E, é, porque se passou comigo.
Beijos e abraços
Marta

 
Às 17 julho, 2006 00:01 , Blogger lazuli disse...

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

 
Às 17 julho, 2006 01:27 , Blogger lazuli disse...

Peter, depois de uma pequena estadia no "nosso" Alentejo sempre de cortar a respiração (e de tal forma que o calor nem incomodou..), leio mais um magnífico texto teu, desta vez sobre os afectos e não resisti a transcrever uma pequena parte duma "parte" dum livro do A. Mega Ferreira precisamente chamado A expressão dos afectos. Os afectos e a sua imponderabilidade..
Mas só esse bocadinho ficava descontextualizado, por isso apaguei.

Fica para a próxima:)

Beijinhos*

 
Às 17 julho, 2006 02:24 , Blogger Peter disse...

"lazuli", que a "próxima" seja mesmo próxima, pois é sempre um prazer ver-te por aqui.

Que tenhas uma boa semana*

 
Às 17 julho, 2006 17:00 , Blogger dulce disse...

Quando a li na Visão tb a achei lindíssima.
Bjs.

 
Às 17 julho, 2006 18:05 , Blogger Peter disse...

"dulce", utilizei e assinalei devidamente os trechos escritos por ALA, para escrever um texto que não tem qualquer semelhança, nem de longe, nem de perto, com o que o prestigiado autor escreveu.

Assim só posso concluir que:
- ou não leste tudo o que ALA escreveu;
- ou não leste tudo o que eu escrevi.

Sendo perfeitamente verosímil e aceitável a 2ª hipótese.

 
Às 08 agosto, 2006 22:14 , Anonymous Anónimo disse...

Very cool design! Useful information. Go on!
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