quarta-feira, março 1

O Peso do ser

[A insuportável leveza do ser ou o insustentável peso do ser?!]
Entre um trago agridoce de café o fumo espiralado do cigarro evoluindo no sentido ascendente, perdendo-se na ilusão do limite pairando porém poucos centímetros acima das nossas cabeças, a sombra estilizada de demências e o constatar do aroma nauseabundo de conceitos absurdos, obscenamente absurdos, detém-se o olhar parado e vítreo do homem. Nada incomoda mais do que o simples pensamento de um olhar sem ver.
O passear nervosamente entre a mesa de trabalho, a máquina de café e a mesa coberta por um pano escuro, tão escuro quanto a solidão de um início de noite em que a única possibilidade de diversão é o agarrar no trabalho. Nele se esquecem as desarmonias. Trabalho é esquecimento.
Teimosamente uma mosca circunda o espaço deixando um leve zunir irritante. Apetece despedaçá-la contra a vidraça que também ela se estilhaçaria em milhões de partículas vítreas. São esses pedaços estilhaçados que tento reunir de forma a formar O SER, O TODO.
Alguma vez algum de nós se poderá considerar completo?!
O balouçar à beira do poço desafinado gravidade que atrai inexoravelmente corpos para o seu interior enquanto a mente tenta fazer um exercício de raciocínio entre o mergulho ou uma vida de servilismo: a eterna luta entre a razão/emoção.
Ouvi-te sorrir cansada. O balão.O balão agora oxigénio comprimido mais leve que o ar, mais leve do que tudo a servir de analogia entre um silêncio desesperado e a certeza de um amor encontrado que se espraia em plenitude preenchendo todos os espaços interiores de tal forma que ameaçam rebentar e espalharem-se em apoteótica alegria partilhada.
Ao longe, já muito ao longe a certeza de que um Oceano não seria entrave ao encontro.
As pálpebras semicerram-se…
Ainda na penumbra os contornos labiares o nariz aquilino e esguio os mamilos erectos.O toque. A posse.A entrega.A partilha.
O cigarro devora-se a si mesmo. A espiral de fumo leva o insustentável peso do ser e todas as solidões.Apenas a noite e o sonho…

21 Comentários:

Às 01 março, 2006 16:44 , Blogger Wakewinha disse...

Às vezes também me debato com esse paradoxo, até porque na belíssima obra com o mesmo título eu não encontro a minha resposta, embora se possam tirar inúmeras outras dúvidas...

 
Às 01 março, 2006 16:56 , Blogger rafaela disse...

todas as solidões, são só uma!

a pior de todas talvez a solidão acompanhada!

 
Às 01 março, 2006 18:51 , Anonymous Maria Papoila disse...

Belíssimo este teu divagar pela solidão preenchida pela presença ausente. Gostei bastante. Beijo

 
Às 01 março, 2006 19:09 , Blogger Cakau disse...

Eis uma excelente divagação, como só tu consegues fazer.

O ser é tanto mais pesado, quando mais pensamentos preocupantes lhe pusermos em cima.

Vivamos, de preferência sem a consciência exacta do peso que transportamos.

Beijos *

 
Às 01 março, 2006 19:20 , Anonymous GINHA disse...

Gosto de me deixar flutuar nas tuas fantásticas divagações... também acho que a vida e especialmente as emoções, são muitas vezes povoadas de contra-sensos. É por isso que não podemos permitir que o peso do ser nos esmague os sonhos!

Beijinhos ;)

 
Às 01 março, 2006 20:30 , Blogger marakoka disse...

como sempre amei ler.te
..o peso da presença ausente...
jocas maradas do tamanho do mar

 
Às 01 março, 2006 20:32 , Blogger marakoka disse...

como sempre amei ler.te
..o peso da presença ausente...
jocas maradas do tamanho do mar

 
Às 01 março, 2006 20:43 , Blogger Micas disse...

Fiquei contente de ver a minha amiga Ginha por aqui :)e, dou-lhe toda a razão, não podemos permitir que o peso do ser nos esmague os sonhos :)

 
Às 01 março, 2006 22:52 , Blogger lazuli disse...

letrasaoacaso, meu amigo, hoje transcrevo um texto teu.

 
Às 02 março, 2006 00:51 , Anonymous Anónimo disse...

Genio, Deus, escritor, jornalista, as facetas.

 
Às 02 março, 2006 00:56 , Anonymous Anónimo disse...

lazuli disse...
letrasaoacaso, meu amigo, hoje transcrevo um texto teu.

e eu fui ler e ainda pude ver qual era o texto, aquele que ele me dedicou em 2004, depois de longas conversas por msn.
o letras ao acaso é um escritor do coração e sedução.

 
Às 02 março, 2006 02:02 , Blogger lazuli disse...

anonymous, isso não sei. Não faço ideia a quem o dedicou. Se foi a ti ..ainda bem, quem quer que sejas. Só sei que escreve muito bem, e isso é um dado objectivo.

*

 
Às 02 março, 2006 02:17 , Anonymous Anónimo disse...

era o outro que colocaste antes e nao o que lá está agora, mas é da mesma altura mais ou menos, mas já não foi a mim, foi à mulher seguinte.
e como escritor é muito bom, não um génio, mas muito bom escritor, por isso leio o que ele escreve.

 
Às 02 março, 2006 06:28 , Blogger maria disse...

Qual o momento (mágico?) em que deixa de ser leveza e se transforma em peso?
Newton decidiu deixar toda a responsabilidade por esse momento exacto a cargo da gravidade. Eu prefiro ficar com Kundera, que em boa hora aqui trouxeste, neste permanente equilíbrio instável, esta dicotomia que fascina e me transcende...
beijos.

 
Às 02 março, 2006 13:23 , Blogger Lady disse...

Nunca nenhum de nós será completo enquanto perseguirmos o sonho.
Beijinhos

 
Às 02 março, 2006 14:23 , Blogger Betty Branco Martins disse...

Querido Zé

A tua escrita é um prazer...;)

Beijinhos

 
Às 02 março, 2006 14:49 , Blogger Peter disse...

Destaco:

"Nada incomoda mais do que o simples pensamento de um olhar sem ver."

 
Às 02 março, 2006 21:06 , Blogger amita disse...

É um enorme prazer ler-te, Zé.
A frase que mais me chamou a atenção foi exactamente a que o Peter destaca.
Um bjo e um doce sorriso

 
Às 03 março, 2006 09:49 , Blogger bluegift disse...

bonito :)

 
Às 04 março, 2006 09:52 , Blogger Ana disse...

A insustentável leveza das palavras que não se escrevem ao acaso. O insustentável peso da solidão. E, sempre, o prazer de te ler.
Um beijo para ti, Zé.

 
Às 07 março, 2006 16:23 , Blogger tecum disse...

... porque me deu saudades de te ler, aqui estou!

Beijo, amigo.

 

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