sábado, março 4

O padre Esteves


Nos meus tempos de estudante, quando vinha passar férias com os meus pais, numa pequena vila alentejana, o local da cavaqueira era a farmácia do meu primo, a única da terra. Por ali passávamos as tardes de calor e, uma presença habitual, era o padre Esteves, que punha os cabelos em pé às beatas da terra, principalmente depois de ter sido apanhado de polo e calças de ganga, numa praia da linha do Estoril e, pecado dos pecados, parece que bem acompanhado.
Andava sempre de camisa desabotoada, sem usar a "coleira branca" e ninguém dava por ele ser padre. Era um tempo interessante, em que nós aos Domingos iamos à saída da missa ver as raparigas e eu, todos os anos ia à Missa do Galo, antes da consoada em casa dos meus pais. Ia uma vez por ano à missa, a do padre Esteves, que era sempre um espectáculo. Despachava o serviço o mais rapidamente possível e não estava com grandes cerimónias. Uma vez parou a missa e todos ficaram a olhar uns para os outros. Então ele, com o seu vozeirão disse:
- Estou à espera que se calem para poder continuar.

Nesse tempo, eram os grandes latifundiários que por vezes se substituiam ao Estado na construção de infra-estruturas para fornecimento de água e luz às pequenas povoações onde moravam.

Lembro-me dele ter contado, como sendo verídica, a história dum almoço a que assistiu, numa dessas terreolas, comemorativo da inauguração da energia eléctrica, só possível com a contribuição financeira dos "grandes" da terra. Discutiu-se muito se se havia de se convidar o sr Joaquim, um dos mais ricos e também um dos mais "calinos". Mas, é claro, tinha mesmo que ser e o sr Joaquim ficou sentado entre a mulher do presidente da Câmara e a do Governador Civil, mas com ordens expressas para não abrir a boca.
E assim foi. “Moita carrasco”. A mulher do Governador, mais evoluída, bem se metia com ele, mas ele nada, até que por fim disse:
- Estou a ver que o sr Joaquim não fala connosco por não nos achar suficientemente interessantes.

Então o sr Joaquim, sentindo-se ferido no seu orgulho masculino, “desarrincou-se” com esta:
- Oh minhas senhoras, eu até era capaz de ir para a cama com as senhoras.

Silêncio absoluto. O Arcebispo ficou mais vermelho que as vestes de púrpura.

O sr Joaquim, vendo que metera "a pata na poça", não se atrapalhou e, erguendo os braços, disse alto e bom som:
- Pagando, claro, pagando!

O padre Esteves, jurava ter sido verdade, mas como ele gostava muito de jogar poker connosco, não sei, não ...

10 Comentários:

Às 04 março, 2006 10:32 , Blogger Peter disse...

Gosto de trazer ao blog certas pessoas que, até certo ponto, marcaram a minha vida.
É uma forma de homenagear a sua memória.

 
Às 04 março, 2006 11:32 , Blogger MARTA disse...

Pois é; ficam sempre vivas.
Obrigada pela "força". Decerto conheces o ditado:
"A primeira geração constroí, a segunda gasta e a terceira reconstroí"
Pena eu estar no meio - estou nas mãos de Deus.
Um abraço e bom fim de semana
Marta

 
Às 04 março, 2006 14:48 , Blogger Su disse...

já a conhecia como anedota...o que não deixa de ser ...eheheh
jocas maradas deste lado para esse

 
Às 04 março, 2006 16:29 , Blogger Peter disse...

"su", seria a realidade vivida (?) pelo padre (porque o que escrevo foram factos passados) que evoluiu com o tempo para anedota, ou seria que a história contada pelo padre era simplesmente isso: uma história.
Vá-se lá saber...
O que interessa é a sua personalidade que partilhava livremente connosco, como se fosse um irmão mais velho, sem qualquer espécie de preconceitos de ordem moralista, e muito menos religiosa.
Ser padre era um ofício que lhe permitia sobreviver.

 
Às 04 março, 2006 18:16 , Blogger Nilson Barcelli disse...

Achei divertida a história que nos contas do padre Esteves.
Abraço.

PS: Podes publicar os poemas meus que entenderes, apenas te peço que faças referência ao autor (como é habitual nestes casos). Se não conseguires copiar posso mandar-te por mail o que quiseres.

 
Às 04 março, 2006 18:34 , Blogger Peter disse...

Obrigado Nilson. Vou publicar o teu poema, com o teu nome e endereço de blog, como é óbvio.
Já há muito que o teu blog consta dos n/links que, como podes verificar, não prima pela quantidade, mas sim pela qualidade.

Um abraço

 
Às 04 março, 2006 19:24 , Blogger lazuli disse...

boa tarde, Peter

Adorei este texto. Conheci um abade (pelo menos era assim que a gente o tratava) que tinha alguns traços desse aí..Era um abade feliz.
A música que têm aqui, é linda.
Obrigada pelas simpáticas palavras lá no meu bloguezinho, aquelas velhas (sempre eternas) músicas das chamadas danças de salão lembram-me quando ia aos Alunos de Apolo aprender a dançar o tango.

Um dia ainda conto...aquela tarde em que quase ia comendo o cravo;)

Beijinhos*

 
Às 04 março, 2006 19:57 , Blogger Peter disse...

Lazuli, a DJ é a "bluegift", como sabes.
Este padre, na minha juventude, contribuiu para eu dessacralizar o Divino, e aceitá-lo como um igual e não como um indivíduo investido de poderes sagrados.

Estou-te a ver a dançar o tango, segurando um cravo vermelho entre os dentes LOL

As minhas palavras são sempre simpáticas.

Beijinhos* e um bom Domingo, já que o Sábado não foi mau de todo.

 
Às 05 março, 2006 16:22 , Blogger MARTA disse...

Peter, será que a Bluegift me poderá dar uma dica?
Beijos e bom domingo
Marta

 
Às 14 dezembro, 2013 17:56 , Blogger Bruh disse...

E o que o Michael Jackson tem a ver com isso? Muito idiota a imagem dele ali... Não Precisava... ¬¬

 

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