segunda-feira, janeiro 9

Noites de Goa


O que tem de diferente, relativamente à totalidade dos livros de divulgação científica, a obra de João Magueijo: “Mais rápido que a luz” é ser “a biografia de uma especulação científica”, que é também um Diário do autor. Um livro profundamente humano e em que o seu autor, “alentejano de gema”, não se parece nada com o retrato que habitualmente fazemos de um cientista. Não é caras leitoras?

Atente-se no final do livro:

“Somos nós – os que amamos o desconhecido para lá de todas as modas políticas ou imposições partidárias – que usufruímos do último e glorioso riso. Gostamos mais do nosso trabalho do que é possível exprimir em palavras. No universo ninguém se diverte mais do que nós.”

Ou no final dos “agradecimentos” da praxe:

“O autor gostaria de agradecer aos candidatos a inquisidores dos dias de hoje por já não brincarem com fogo.”

Para justificar o que venho dizendo, destaco ainda um pequeno texto do capítulo em epígrafe, o qual mereceu a minha preferência:

“ ... enquanto montanhas de papel ... se acumulavam sobre as nossas secretárias, caindo às vezes misteriosamente no caixote do lixo, continuávamos a interrogar-nos sobre a VSL, (variable speed of light, ou “very silly” (disparate), segundo os seus críticos) sentindo-nos frequentemente algo perdidos.

Em Abril a necessidade de espairecer tornou-se de tal forma esmagadora que resolvi pôr tudo de parte por algum tempo e desaparecer de Londres com Kim (a namorada). Escolhemos ir a Goa ... As raves (movidas a “ecstasy”) na praia duravam até ao nascer do Sol ... Os “hippies “ (que viviam nus nas árvores) tocavam flautas a cães furiosos que corriam pelos bares e restaurantes a ladrar e a morder-se uns aos outros ...
Embora este ambiente não parecesse particularmente conducente ao exercício de actividades intelectuais, devo dizer que o meu cérebro funcionou lá melhor do que nunca. Ao descontrair-me ocorreram-me de súbito algumas das grandes ideias da VSL. Claro que só tomei breves apontamentos: as noites de Goa não se prestam a cálculos complicados. Mas lentamente iam-se materializando umas quantas ideias interessantes.
...
Quando, a meio da noite, ia à casa de banho de Deus – a única que existe na maior parte dos bares de Goa – olhava acidentalmente para o céu entre as palmeiras. Com pouca ou nenhuma luz eléctrica a polui-los, os céus de Goa eram povoados pela infinidade das estrelas. Concordo que contemplar o universo enquanto se mija não será das coisas mais poéticas, mas sentir o peso do universo diante dos meus olhos produzia sempre em mim um choque forte. Num sistema sonoro, lá muito ao longe, ouvia-se:

“Quando se sonha não há regras, tudo pode acontecer, as pessoas podem voar”

9 Comentários:

Às 09 janeiro, 2006 09:34 , Blogger Wakewinha disse...

Tem por aqui algumas citações que me irão com certeza fazer jeito no futuro! Algumas bem pertinentes, mesmo... ;)

 
Às 09 janeiro, 2006 14:07 , Blogger augustoM disse...

Não há invenção sem sonho, filosofia e criação, eles felizmente vivem num mundo paralelo ao nosso.
Um abraço. Augusto

 
Às 09 janeiro, 2006 18:39 , Blogger Betty Branco Martins disse...

Olá Peter

Ainda bem para o homem - que o sonho é completamente livre! Pois dele necessitamos - o equilíbrio - "pisando" o chão do sonho, com firmeza, para a descoberta de novos sentidos e conhecimentos.

Beijinhos

(Este Ano ainda não te vi no meu "canto)"

 
Às 09 janeiro, 2006 19:24 , Blogger Peter disse...

wakewinha, o blog é melhor que as lojas dos 300. Há aqui de tudo e pode servir-se à vontade, que não paga nada.
Apareça sempre, é um prazer contá-la entre as nossas leitoras.

 
Às 09 janeiro, 2006 19:28 , Blogger Peter disse...

augustom: meu caro, posso chamar-lhe amigo?
Para melhor responder ao seu comentário, acabei de publicar um despretencioso texto meu e cuja finalidade foi mesmo essa:

- responder-lhe um pouco mais desenvolvidamente;
- falar sobre a hipótese do Magueijo.

Um abraço e desculpe não aparecer mais pelo seu blog, como gostaria.

 
Às 09 janeiro, 2006 19:35 , Blogger Peter disse...

Betty, tens toda a razão e eu irei arrastar-me até ao teu blog, de corda ao pescoço como o Egas Moniz. Mas tenho tido o tempo super-ocupado, acresce que também estiveste de férias e eu confesso, que descanso no "zezinho" essa função de "public relations".
Aliás, por isso mesmo é que este blog é colectivo.

Vou ver se passo por lá hoje, nem que seja só para te deixar um beijinho.*

 
Às 09 janeiro, 2006 23:44 , Blogger bluegift disse...

O livro é fantástico. Retrata de forma crua a mentalidade "estreita" do ambiente universitário. Uma autêntica selva disfarçada de paraíso.

 
Às 10 janeiro, 2006 12:07 , Blogger Peter disse...

bluegift, o livro é excepcional. Nunca em "duvulgação científica" li nada assim.
Já te disse que recebi notiícias de "intensidez"?

 
Às 10 janeiro, 2006 12:09 , Blogger Peter disse...

bluegift, citando João Magueijo:

"Concordo que contemplar o universo enquanto se mija não será das coisas mais poéticas, mas sentir o peso do universo diante dos meus olhos produzia sempre em mim um choque forte."

 

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