quarta-feira, janeiro 11

Difuso

O lusco-fusco da noite começa a deitar o seu manto cinza/negro sobre uma cidade adormecida onde pessoas e veículos se comportam como seres alienados, andando sem rumo, contornando obstáculos um pouco ao acaso, percorrendo semicírculos que se perpetuam na sucessão de dias e noites.

A iluminação artificial faz-se sentir em longos e esguios pórticos encimados por fosforescências trazidas até lá por rastos invisíveis de energia que se adivinha sem se ver. Milagres de uma ciência desprovida de afectos, fria, como são as noites em terras de Viriato.

Sobre mim abate-se de forma demolidora o crepúsculo que ameaça soterrar-me e engolir-me nessa voragem difusa de um dia que já não o é e de uma noite de que apenas tenho os contornos.

Desaparecer no breu é incontornável. Ser engolido no abismo negro das palavras tingidas a negro/cinza, agora imersas nas venturas e desventuras de letras juntas laboriosamente, tentando divisar um nascer de luz inopinada a estas horas tardias.

Erguem-se quais gigantes fantasmagóricos velhos esqueletos ripados de folhagens estranhas, talvez árvores, talvez ilusões de óptica, talvez apenas miragens.

A alma – se existe – está mergulhada em profundas águas onde a claridade não entra e onde todos os males se afogam, no sufoco de pulmões inundados, olhos vítreos e sonhos que nunca o serão.

Enrolo-me no casulo da vida feita noite, enfrento as trevas agora perturbadoras e deixo que todo o meu eu seja arrastado para o abismo. Lá bem no fundo, as rochas ameaçadoras espreitam a vida que se escoa nos dédalos insondáveis do tempo.

Inusitadamente caio no meu próprio esquecimento, perdido nas palavras que não formei, absorto nas letras que tento a custo entrelaçar de forma a constituir a lógica ilógica dos caracteres, ausentes de ideias, de vida e de morte.

Teimosamente encaminho-me para o canto da sala onde a luz de um candeeiro ofusca olhos, mente, alma e se transformou em verdadeiro delírio mental. Da mesa que o suporta a ilusão de se manter a pairar sobre um chão escuro, ponteado por um tapete de gosto duvidoso. Tal com a luz que ofusca, também a mente embotada se confunde com luminescências quase azuladas que se esbatem de encontro a livros, aniquilando qualquer acto de pensar.

Talvez a massa encefálica se tenha perdido algures entre a luz ofuscante, os livros que parecem ganhar vida com o movimento de todos os personagens que se confundem em amálgamas de pensares, sentires e ilógicas perturbações. Madame de Bovary será agora amante de César que conduz legiões de soldados esfomeados e perturbados pelas planícies eternas de Roma?

Enrolo-me no casulo da vida feita noite, enfrento as trevas agora perturbadoras e deixo que todo o meu eu seja arrastado para o abismo.

12 Comentários:

Às 11 janeiro, 2006 15:59 , Blogger Betty Branco Martins disse...

Olá Zé

Respondo assim ao teu texto magnífico

“A labareda ascendente as auroras desvendadas: um altar iluminado onde crepitam sons leves
um rio correndo há milhares de anos
para nós
alheios da nossa validade
mortificados, lúcidos
exaltados, extáticos
senhores dos melhores ácidos corrosivos
sábios do amanhecer
manipuladores das artes
ocultas e raras
povoando ora
os mais altos cumes
ora o leito purificador
das enseadas

Exuberantes de todo o álcool
das palavras
espectadores do próprio
olhar nocturno
do íntimo traço de vida
a sombra difusa...

O beijo...

 
Às 11 janeiro, 2006 19:56 , Blogger Nordico disse...

muito bom ! Gosto dos teus textos !

 
Às 11 janeiro, 2006 20:53 , Blogger Su disse...

gostei de ler-te
jocas maradas

 
Às 11 janeiro, 2006 20:56 , Blogger spartakus disse...

Faltam as pombas...LOL!. Um abraço.

 
Às 11 janeiro, 2006 21:42 , Blogger Manoel Carlos disse...

Caro amigo, é um texto soturno, envolvente... fiquei ensimesmado em lucubrações.

 
Às 11 janeiro, 2006 21:52 , Blogger Musician disse...

Um texto lindissimo que tens aqui! Estou apaixonada/encantada :)
A envolvencia, a ternura...a melodia que fazes com as palavras!
Parabens ;)
Um beijo doce*

 
Às 11 janeiro, 2006 22:12 , Blogger Leonor C.(nokinhas) disse...

O lusco-fusco incomoda a nossa solidão e desafia a nostalgia... Não podemos deixar que ele tome conta de nós. O breu também pode ser portador de paz, sossego, serenidade, porque não?... Então sacode os "fantasmas" e deixa que a tua alma seja inundada pela certeza de que não estás só e de que o lusco-fusco, que também perturba outros seres, será dissipado pela tua vontade, pela tua força ao dizer-lhe "não!". É só um pouco e logo sairás do casulo ao romper da madrugada porque o abismo foi só obra da tua imaginação...

 
Às 11 janeiro, 2006 23:33 , Blogger Micas disse...

Belo e triste.

"Nunca chegaremos ao dia em que diremos tudo passou
porque nesse momento algo estará ainda a passar
e só a morte não é uma passagem porque é o abismo sem
ponte para o outro lado que não existe
Vivemos no contínuo anel do tempo inclemente ou suave
e só o efémero pode abrir a sua corola transparente
e espargir o pólen incandescente e fresco
como se o mundo se derramasse em clara nascente
e não fosse já o mundo mas a sua cintilante aparição
É então que a leveza de uma adolescente inocência
´nos inunda o peito e tudo o que sob a aparência se aboliu
se eleva num júbilo de presença nua
e a palavra surge como uma forma de luz e de pura respiração." (António Ramos Rosa)

Beijos

 
Às 12 janeiro, 2006 09:36 , Blogger Nilson Barcelli disse...

Caro Zé,
A tua escrita é óptima, é muito bem trabalhada e é mais um dos teus excelentes textos.
Mas está virado para as trevas, crespúsculos e outras noites.
Desafio-te para que o próximo post teu seja com muita luz, cheio de cor e vida. Valeu? Eu sei que és capaz de tudo através da escrita.
Abraço.

 
Às 12 janeiro, 2006 11:47 , Blogger Isabella disse...

...da escuridão nasce a Luz!Excelente texto iluminado!

 
Às 12 janeiro, 2006 14:38 , Blogger amita disse...

Olá Zé. Não venho comentar o teu texto, não há tempo nem palavras. Passo para te agradecer a inteligência, o saber, a amizade, a coragem e tudo o mais que a sensibiidade me dita e não se exprime em letras. Todos os teus textos de entrelinhas são feitos. Como sabes, gosto muito da forma como transmites o que sentes. Talvez não te comente como e quando deveria pelo que apresento as minhas desculpas. Aproveito a oportunidade para de felicitar pelo texto magnífico das interrogações (não me lembro do cabeçalho). Nos horizontes que sinto, medito... o tempo. Tudo de bom para ti e que o Sol te acompanhe sempre. Bjos

 
Às 12 janeiro, 2006 15:11 , Blogger António disse...

A noite soturna, triste, cega, deprimente mesmo, muito bem descrita por um mestre.

Obrigado pela tua visita.
Tu não és o Zé, não!
És o Tó!
ah ah

Abraços

 

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