domingo, setembro 2

Divagando


Passámos três horas ou mais na esplanada, numa conversa longa e vaga, bem como lenta, pontuada aqui e ali pela exclamação dos fósforos acendendo cigarros. Um crepúsculo de Agosto no Castelo, os telhados da Baixa em tons de tijolo desmaiado estendendo-se em promessas incoerentes até à explosão abrupta do Tejo na sua esquizofrenia de azuis inquietos. Nada para fazer ou dizer, as palavras há muito mudas abrindo silêncios umas vezes tranquilos, outras inoportunos, outras vezes silenciosos. Sempre gostei de olhar a ponte, ao longe, e imaginar que não estou lá, que nesses momentos em que a vejo ao longe a minha pele não é de metal nem o meu coração um poço de combustível em chamas, nem trago à minha volta aquilo que é abstractamente encontro e ordem e caos e túmulo. Por isso não me incomoda o teu silêncio, que no último sabor antes do abandono total da minha memória, me sabe docemente à tua presença incondicional. Mas por vezes, se estou mais animada com um projecto, se trago nas mãos uma ideia nova, se descobri na véspera um mundo novo, procurar-te enerva-me, irrita-me... mas que raio? Não conheces o abismo da descoberta? Não sabes que é preciso dizer o que se vê, pela primeira vez, que nunca ficaram por pronunciar os gritos que a terra nova arranca aos olhos incrédulos de maravilha?! Poderá aguardar-nos não mais que a dor atenta à ingenuidade dos passos entusiasmados, poderá aguardar-nos até a morte, mas é preciso, é necessário, é urgente gritar a descoberta... seja lá do que for. Não sei se nasceste sem gritos ou se gritas para dentro e eu não te ouço: é o mesmo. Tudo o que te peço nesses momentos é um reflexo, um entendimento, um brilho qualquer que me diga que o que trago não é só para mim! Mas tu calas-te, encolhes os ombros, encontras explicações amargas para explicar, pasmo!, a própria luz do sol e eu sinto-me morrer perto de ti. Une-nos o silêncio, nos momentos em que ambos, por razões tão díspares como a cor dos nossos olhos, o procuramos, e encontramo-nos na solidão. Talvez por isso não despertou em mim, até hoje, sequer a vontade de um beijo teu.

(colaboração de Ana Leonor – foto NGM)

9 Comentários:

Às 02 setembro, 2007 19:06 , Blogger Papoila disse...

Magn+ifico texto!
Beijo silencioso

 
Às 03 setembro, 2007 00:44 , Blogger Peter disse...

"papoila"
Como o texto não é meu mas foi escrito por pessoa amiga que autorizou a sua publicação no blog, posso corroborar a tua afirmação:
- É um texto magnificamente escrito e merecedor de ser lido e apreciado pelos visitantes que por aqui passam.

Uma boa semana.

 
Às 03 setembro, 2007 13:23 , Blogger Olhos de mel disse...

Belo texto, sem dúdivas! A escolha foi de uma felicidade enorme. Amei!
Que sua semana seja de grandes realizações!
Beijos

 
Às 03 setembro, 2007 13:34 , Blogger augustoM disse...

Olá Peter

Quando a centelha não faz faísca, não vale a pena insistir.
Bonito texto da tua amiga.
Um abraço. Augusto

 
Às 03 setembro, 2007 16:08 , Blogger Peter disse...

"olhos de mel"
Não houve nenhuma "escolha" da minha parte.
O texto foi escrito pela autora para publicação no blog, do mesmo modo que o meu amigo Fernando Paiva tem escrito os artigos sobre o Porto, na série "O morro e o rio".
São independentes, não querem integrar a equipa do blog que, aliás, está há muito constituida.

 
Às 04 setembro, 2007 21:41 , Blogger MARTA disse...

Texto muito interessante e a imagem perfeita...Solidão e/ou indiferença?
O Minha Página faz anos esta semana...e a responsável deixa à equipa do Conversas, e em especial a ti, Peter, um xi muito apertado..........
Marta

 
Às 04 setembro, 2007 22:23 , Blogger Peter disse...

Marta

É verdade! Desde Setembro de 2004 que vens mantendo a tua presença assídua.
Parabéns ao blog, ou melhor à sua dona, pelo 3º aniversário do mesmo e pela forma brilhante como o vens fazendo.

Peter*

 
Às 09 setembro, 2007 00:14 , Blogger Unicus disse...

Interessante?! - Este texto é brilhante e belissimo!

 
Às 09 setembro, 2007 13:06 , Blogger António disse...

Texto literáriamente superior da Ana Leonor!

Abraços

 

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