sexta-feira, março 30

Um Universo consciente de si próprio

Do mesmo modo que dispomos de uma imaginação infinita, o Universo pode ser consciente de si próprio, sendo ao mesmo tempo capaz de gerir a sua própria realidade. Afinal de contas, é difícil conceber um Universo infinito.
O que está para lá daquilo que não se sabe onde acaba?
É talvez o maior "bug" da mente humana, idealizar, usando a nossa imaginação, algo que nunca acaba, tão habituados que estamos a deparar com barreiras, princípios e fins.
Talvez o Universo seja efectivamente consciente de si próprio, e nós apenas conscientes de uma realidade que aprisionámos como nossa ?

A ideia interessante é a de “o universo não ser real se for incompatível com seres que o observem”.
Portanto, bem pode o universo continuar a existir, que deixa de ser real se for incompatível com a possibilidade de observação (neste caso pelo homem).

”Se só o conhecimento sensorial do mundo é indispensável à nossa sobrevivência, se só ele releva de uma necessidade biológica, porque estamos, então, dotados de um conhecimento intelectual do nosso meio ambiente? Penso que a nossa capacidade de conhecer o Universo não é um resultado de um feliz acaso. Foi antecipadamente “programada”, da mesma maneira que o Universo foi regulado de forma extremamente precisa, desde o seu nascimento, para o surgimento da vida. Não sabemos como pensamos e como criamos, mas eu não ficaria espantado se, no dia em que conhecermos os mecanismos do pensamento, vier a revelar-se que o cérebro humano foi disposto com minuciosa precisão para que o pensamento emergisse.
A existência do Universo só terá sentido se ele contiver uma consciência capaz de apreciar a sua organização, beleza e harmonia. Era inevitável que a consciência que emergiu da ordem cósmica exaltasse esta ordem, compreendendo-a. A capacidade do nosso cérebro para compreender as leis naturais não é um simples acidente de percurso, mas um reflexo da íntima conexão cósmica existente entre o homem e o mundo.”

(Trinh Xuan Thuan e Matthieu Ricard, “O Infinito na palma da mão”)

Segundo o Budismo, o Universo, considerado como uma sucessão de metamorfoses sem início, não é somente a matéria. A consciência também não tem início, portanto a dualidade matéria/consciência é um falso problema. A ausência de “origem primeira” dos fenómenos e da consciência releva do que o Budismo designa como “o inconcebível”, aquilo que não pode ser apreendido por nós por nos situarmos dentro do sistema. Segundo TXT isso tem a ver com o teorema da “incompletude” de Gödel, segundo o qual:
« não é possível demonstrar que um sistema é coerente, estando no interior do mesmo. Para o conseguirmos é preciso sair dele.»

A referência ao Budismo surge no contexto das obras em que me estou a basear: a acima citada e a de Trinh Xuan Thuan, “O Caos e a Harmonia – a fabricação do Real”.

Quanto à noção de “infinito”, outro dia pessoa amiga expressou o seguinte pensamento:

“Para uma formiga que se desloca sobre uma bola de bilhar, esta é o infinito.”

NOTAS:

Trinh Xuan Thuan – Vietnamita, astrofísico e um dos grandes especialistas no estudo da formação das galáxias, é professor de Astronomia na Universidade da Virgínia.
Matthieu Ricard – Com uma carreira brilhante no domínio da Biologia Molecular, tornou-se monge budista e acompanhante do Dalai-Lama, de quem é o intérprete francês.

O presente artigo escrevi-o há uns anos para o “site” Astronomia dos Fóruns do SAPO. Resolvi reescrevê-lo, atendendo às referências feitas pela “bluegift” nos comentários ao artigo anterior.

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8 Comentários:

Às 30 março, 2007 09:44 , Blogger Paula Raposo disse...

Este comentário foi removido pelo autor.

 
Às 30 março, 2007 11:42 , Blogger Peter disse...

"paula", neste campo sou tão leigo como tu, sou um simples curioso. Cada um interessa-se por um assunto e cultiva-o. É o que acontece contigo no que respeita à poesia. Mas aqui levas vantagem, porque enquanto eu leio umas coisas e procuro escrever sobre elas, tu és dotada. Não escreve poesia quem quer mas quem, como tu, tem inspiração para o fazer.

 
Às 30 março, 2007 16:37 , Blogger herético disse...

será que "Deus não joga aos dados"?

arrepia-me a ideia de "programação".

concordo com a ideia de infinito... da formiga!

 
Às 30 março, 2007 17:37 , Blogger Papoila disse...

Peter:
Adorei este artigo em que o infinito pode ter consciencia de si próprio e nós termos sido "programados" para pensar...
Que bom voltares a publicar um artigo que desconhecia e que tem a ver o que "sinto" em relação ao que aqui estou a fazer...
Beijo

 
Às 30 março, 2007 18:29 , Blogger bluegift disse...

Peter, que seja feita justiça ;)

Focando o artigo, esta é uma das passagens mais impressionantes que tens publicado sobre o pensamento de Trinh Xuan Thuan. Os limites da capacidade de compreensão do
homem face à inteligência obrigatoriamente superior do Universo. Nunca chegaremos ao infinito nem o compreenderemos, mas o prazer de cada caminho descoberto nunca deixará de nos aliciar.

 
Às 30 março, 2007 19:19 , Blogger Peter disse...

"bluegift", sabes o que deu?

Foi ter logo recebido um convite:

"Temos a grande alegria de anunciar que, a convite de várias instituições – Casa da Cultura do Tibete, Fundação Kangyur Rinpoche, União Budista Portuguesa, Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa e Câmara Municipal de Lisboa - , Sua Santidade o XIV Dalai Lama visitará Portugal pela segunda vez.
A visita decorrerá de 13 a 16 de Setembro de 2007 ; haverá três dias de Ensinamentos públicos, de 13 a 15, no Anfiteatro da Faculdade de Medicina Dentária em Lisboa e uma Conferência pública, no Pavilhão Atlântico, em Lisboa, no dia 16.
De 13 a 15 teremos a rara oportunidade de ouvir Sua Santidade ensinar sobre "Desenvolver a Paz Interior" , com base no Bodhicharyavatara, de Shantideva, um dos maiores clássicos da espiritualidade budista e da literatura mundial.
Na Conferência pública do dia 16 o tema será "O Poder do Bom Coração" (...)"

 
Às 30 março, 2007 20:47 , Blogger bluegift disse...

Boa! Aguardamos a reportagem do enviado especial ;)

 
Às 05 abril, 2007 22:35 , Blogger António disse...

Olá, Peter!
Confesso que me é muito mais fácil conceber o universo como infinito do que como finito.
O que estaria para lá do finito?
Mas que confusão!
ah ah ah

Abraço

 

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