segunda-feira, novembro 20

Do aparecimento da vida na Terra

Li por aí algures que:

“De tudo o que escrevi da minha autoria, uma só certeza preside à minha maneira de pensar, não existe criação.”

Cada um é livre de pensar o que quiser e de ter certezas, eu cada vez tenho menos. Mas voltando à frase acima transcrita, depende do que se entende por “Criação” e admira-me a “certeza”, quando releio o cientista Hubert Reeves:
“O mais extraordinário aos olhos da física contemporânea não é tanto que, por “razões químicas”, a vida tenha aparecido na Terra, mas mais que ela “tenha podido” aparecer na Terra (ou noutro sítio). É o facto de os electrões e os quarks da papa inicial de há 15.000 milhões de anos terem tido as propriedades necessárias para se poderem associar em proteínas e em cadeias de nucleótidos. É o facto de haver “razões químicas” capazes de dar origem à vida e de lhe permitir continuar a desenvolver-se.” (Hubert Reeves, “Aves, maravilhosas aves – Os diálogos do céu e da vida”, Gradiva, 1ª ed Janeiro 2000, p. 223)

Claro que não é a Criação com o “Adão e Eva, a serpente e a maçã”, mas se, até certo ponto, a existência dessas “propriedades” (se por acaso existiam) pode ser ou não considerada como “criação”?

O que eu procuro incessantemente e nunca encontrei resposta e sempre tenho lido que não existe, é uma definição suficientemente abrangente de VIDA, pelo menos aplicada aqui na Terra.

Qualquer de nós distingue o “vivo” do “não vivo”, mas porquê? Admite-se em geral que um organismo vivo é um sistema capaz de assegurar a sua própria conservação, de se gerir e de se reproduzir.

Então como uma mula não se reproduz, não é um ser vivo, porque, se faltar uma destas propriedades, já não é um “vivente”, segundo o ponto de vista dos cientistas, do mesmo modo que um cristal não vive, reproduz-se, mas não fabrica energia.

E um vírus vive? Bem, aí torneiam o problema e dizem que “está na fronteira”. É uma espécie de parasita que tem necessidade da vida para se reproduzir. Utiliza a célula como uma máquina de fotocopiar. Pensa-se hoje que os vírus são estruturas hiper-aperfeiçoadas, os descendentes das células que teriam evoluído, desembaraçando-se do estorvo do material reprodutor para se reduzirem à sua mais simples expressão e atingirem uma maior eficiência. Elas, as células ter-se-iam simplificado para chegarem ao seu mínimo vital.

Também, quando se escreve:

“A resposta está dada. A Vida ao que tudo indica originou-se na água.”

Sim, mas não nos oceanos primitivos. Em Ciência não há “respostas dadas”. Eu sigo a hipótese de Joel de Rosnay*, o qual defende que a vida não apareceu nos oceanos, como durante muito tempo se acreditou, mas muito provavelmente em lagoas e pântanos, locais secos e quentes durante o dia, frios e húmidos de noite, que secam e em seguida voltam outra vez a ser húmidos. Nestes meios há quartzo e argila, nos quais as longas cadeias de moléculas vão ficar cativas, podendo associar-se umas com as outras. Experiências recentes (posteriores aos trabalhos dos anos 30, dos investigadores Alexandre Oparine e John Haldane) confirmaram a presença nas argilas das "bases", que se teriam associado espontaneamente em pequenas cadeias de ácidos nucleicos, formas simplificadas do ADN, futuro suporte da informação genética.
Os átomos da argila que perderam electrões, ou que os possuiam a mais, atraem a matéria à sua volta e incitam-na a reagir. Os famosos "oligoelementos" (micro nutrientes) da actualidade são, de resto, o resultado da evolução desses pequenos iões.É graças a eles, que actuam como catalisadores ajudando as reacções químicas, que as associações da matéria podem prosseguir.

Das proteínas compostas de ácidos aminados, que se encontram nas lagunas, algumas gostam da água, outras não. Que fazem então as proteínas? Enovelam-se, enroscam-se de modo que a parte exterior das primeiras fica em contacto com a água, enquanto o interior, composto pelas segundas, fica isolado dela. De certo modo, fecham-se sobre si próprias. Outras cadeias formam membranas e assim surgem glóbulos pré-vivos, que aparecem nos oceanos primitivos a boiar como gotas de azeite.

A aparição destes glóbulos é um fenómeno fundamental. Pela primeira vez na “nossa” história aparece uma "coisa" que se fecha sobre si, que tem um interior e um exterior. É esse interior que irá presidir à continuação da evolução dos pequenos glóbulos, até ao nascimento da vida e mais tarde da consciência.

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• Joel de Rosnay é sem dúvida uma das pessoas melhor habilitadas a dar-nos uma resposta. Doutor em Ciências, antigo director do Instituto Pasteur e hoje director na Cidade das Ciências e Indústria, em Paris, foi um dos primeiros a fazer a síntese dos nossos conhecimentos sobre as origens da vida numa obra que marcou uma geração.

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11 Comentários:

Às 20 novembro, 2006 09:49 , Anonymous Henrique disse...

Uma bela síntese! Parabéns. Tenho esse livro algures, já fui à procura, mas não o encontrei. Lembro-me de ter gostado imenso da leitura, que muito enriquece qualquer um.
Pegando, porém, na asserção "não existe criação". Pode não existir criação por parte de alguém exterior. Mas se a vida apareceu num dado momento, criou-se vida. E criou-se porquê e para quê? Questões que nos perseguirão sempre. Todos, de uma forma geral, procuram um sentido para a vida, cada um à sua maneira. Filósofos, cientistas, religiosos, poetas, artistas,... E ainda bem que assim é. Pois, no caso contrário, não faria sentido viver. :lol:

 
Às 20 novembro, 2006 11:44 , Blogger Paula Raposo disse...

Confesso a minha perfeita ignorância àcerca deste tema. Agradeço-te tudo o que aqui posso ler. Beijos.

 
Às 20 novembro, 2006 12:09 , Blogger Peter disse...

Henriqe, este texto talvez te interesse:

Um Universo consciente de si próprio

A cosmologia moderna redescobriu a antiga aliança entre o homem e o Cosmos. O homem é filho das estrelas, irmão dos animais selvagens, primo das flores do campo; todos nós somos apenas poeiras de estrelas. A astrofísica revela-nos que o aparecimento da vida e da consciência a partir da sopa primordial dependeu de uma regulação extremamente precisa das leis da Natureza e das condições iniciais do Universo. Se a intensidade das forças fundamentais tivesse variado, por pouco que fosse, nós não estaríamos cá para falar delas, as estrelas não se teriam formado, e não poderiam ter exercido a sua maravilhosa alquimia nuclear. Teria sido o adeus aos elementos pesados que constituíram a base da vida!

Mas as leis físicas são especiais de um ponto de vista ainda mais subtil. Não somente permitiram ao homem entrar em cena, como também lhe conferiram o dom de compreender o mundo que o alberga. O facto de o homem não ser cegamente afectado pelas leis da Natureza, sem as compreender, é portador de significado. A nossa capacidade de fazer ciência e decifrar o código cósmico sugere a existência de uma conexão íntima entre o nosso mundo mental e o mundo das formas platónicas. O círculo foi fechado. Penso que isso não aconteceu por acaso.

Acaso ou necessidade? Ambas as alternativas são possíveis:
- ou o homem surgiu num Universo desprovido de sentido, que lhe é completamente indiferente;
- ou a sua vinda foi programada desde o princípio, a fim de que ele desse sentido ao Universo compreendendo-o.

A ciência nunca poderá escolher entre estas duas possibilidades. Teremos pois de fazer apelo a outros modos de conhecimento, como a intuição mística, ou religiosa, informada e esclarecida pelas descobertas da Ciência e assim postulando a existência de uma Causa Primeira, que regulou simultaneamente as leis físicas e as condições iniciais para que o Universo tomasse consciência de si próprio?

(Trinh Xuan Thuan, “O Caos e a Harmonia. A fabricação do real”, adapt.)

 
Às 20 novembro, 2006 12:17 , Blogger Peter disse...

Paula Raposa, algumas pessoas são da opinião que estes textos não têm saída. Não sei, o que é facto é que quando os publico o número de visitantes aumenta.
Mas eu publico-os porque é um assunto que me interessa, que me dá prazer e sobre o qual me interrogo.
Eu sei que um blog, tal como um jornal, tem de procurar agradar a todos e é isso que eu tento fazer.

Depois virão os e-mails que recebo, os assuntos que nos preocupam no quotidiano, ou que nos dão prazer (infelizmente poucos), a poesia, as fotos...

Uma boa semana, com muita poesia.

 
Às 20 novembro, 2006 14:04 , Blogger H. Sousa disse...

Meu caro Peter, obrigado pelo excelente trecho do Caos e Harmonia, livro que também já usei para consulta, embora já numa fase tardia. Não era meu, ficou com seu dono.

Esta asserção-conclusão,

Acaso ou necessidade? Ambas as alternativas são possíveis:
- ou o homem surgiu num Universo desprovido de sentido, que lhe é completamente indiferente;
- ou a sua vinda foi programada desde o princípio, a fim de que ele desse sentido ao Universo compreendendo-o.


é, infelizmente, o drama com que teremos que viver. Ao tentar aprofundar as coisas, acabamos sempre num dilema, sendo talvez a dualidade então a única essência. Que na filosofia ocidental deu origem à lógica aristotélica, atribuição do valor verdadeiro ou falso às proposições, na oriental aos princípios Yin e Yang de que tudo será constituído. E, em tudo, acabamos sempre por ter duas escolhas, sem sabermos ao certo por qual optar, deixando que a intuição (ou acaso) decida.

Outra coisa, caro Peter. Tive em tempos um blog em que só postava sobre estes assuntos, chamava-se "E Deus tornou-se visível". Tinha uma saída estrondosa, embora os comentadores fossem quase sempre os mesmos. Creio que as pessoas precisam destes estímulos, coisas que façam pensar mais. Porque todos estamos envolvidos nesse drama de querer saber porque estamos aqui, donde vimos, para onde vamos.

Abraços e parabéns pelo teu precioso contributo para a blogosfera.

 
Às 20 novembro, 2006 15:28 , Anonymous Henrique disse...

Voltei para chamar a atenção para o blog da Heloísa, onde ela tem um poema, e não só, intitulado O ESPANTO e que tem a ver também com a VIDA, rasando a morte.

 
Às 20 novembro, 2006 21:50 , Blogger António disse...

Olá, Peter!
Estes três últimos posts tem uma componente ciêntífica, mas também metafísica (diria eu), digna de destaque.
São assuntos que não me atraem particularmente.
Já foram, há muitos anos, objecto de leituras e meditações da minha parte, mas desisti de tentar compreendê-los.
Recolho-me a temas mais objectivamente estudados e reconhecidos, sendo que, mesmo a verdade científica é mutante.
Mas não posso deixar de te dar os parabéns pela alta qualidade destes três posts.
A propósito (ou despropósito?):
quando vieres ao Porto não queres ir beber um copo ao "Borda d'água"?
eh eh

Um abraço

 
Às 20 novembro, 2006 22:14 , Blogger Heloisa B.P disse...

MEU BOM AMIGO PETER*,
tra' de ser MUITO PACIENTE para ler aquele "quilometro de letras" que Lhe deixei ali no *IGNORANCIA* onde deixo *alguma* da minha!!!
Abstenho-me, pois, de aqui dizer mais nada que nao seja:_MUITO OBRIGADA POR SUA VISITA AO "HELOISA"!
_ESPERO QUE JA" TENHA RECEBIDO MEU E-MAIL!

Perdoe, chegar sempre "fora do tempo proprio"!
FICA O ABRACO E... a promessa de VOLTAR:_DEVAGAR, MAS, VOLTAREI_!!!!

Heloisa
*********

 
Às 20 novembro, 2006 22:19 , Blogger Heloisa B.P disse...

Acabo de ler ali acima as Palavras do Henrique a meu respeito!_ELE E' INCANSAVEL!
Permita-ME PETER, que deixe aqui no SEU ESPACO, um agradecimento e um ABRACO AO MEU AMIGO, HENRIQUE SOUSA! E... ja' agora Abraco extensivo a TODOS OS SEUS LEITORES!_OUTRO PARA SI* QUE ABRACOS AMIGOS, nao vale a pena economizar>>> E UM PARA A *BLUEGIFT* que nao "vislumbro" por AQUI!
_OBRIGADA HENRIQUE*!
_OBRIGADA PETER*! E...OBRIGADA A TODOS QUE ME MIMAM!

Heloisa
*********

 
Às 20 novembro, 2006 22:23 , Blogger Peter disse...

António, claro que irei ao "Borda d'água" beber uma bebida com acompanhamento, isto é umas gambas. LOL

 
Às 20 novembro, 2006 22:32 , Blogger Peter disse...

Heloísa:

"tra' de ser MUITO PACIENTE para ler aquele "quilometro de letras" que Lhe deixei ali no *IGNORANCIA* onde deixo *alguma* da minha!!!"

o que quer dizer com
*IGNORANCIA* ? Onde procurar o poema?

A "blue", de momento e devido aos seus afazeres, é a n/técnica que nos vai solucionando os problemas informáticos que surgem no blog.

O ANT tem andado ocupado.

 

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