segunda-feira, outubro 9

Prémio Nobel da Física 2006

O Prémio Nobel da Física de 2006 foi atribuido aos americanos John Mather e George Smoot, pela sua "descoberta do espectro de corpo negro e anisotropia da radiação cósmica de fundo", medida no céu a partir de todas as direcções e originada no Universo primevo.

A CMBR (Cosmic Microwave Background Radiation - CMBR) é uma radiação cósmica de fundo de micro-ondas, remanescente do Big Bang, que preenche todo o espaço e que envolve a Terra proveniente de todas as direcções. Esta radiação constitui uma das mais poderosas ferramentas em cosmologia. A sua descoberta (acidental) em 1965, por Penzias e Wilson, e a detecção de pequeníssimas flutuações de temperatura (anisotropias) pelo satélite COBE em 1992, representam duas das mais importantes descobertas científicas do século e dois dos mais fortes argumentos a favor da teoria do Big Bang.

Os fotões que a constituem são os mais "antigos" que se podem observar, pois resultaram do desacoplamento entre matéria e radiação que se deu no Universo primitivo, possível apenas quando este já se tinha expandido e arrefecido o suficiente (até aí as condições permitiam interacções muito fortes entre matéria e radiação e esta constituía uma barreira intransponível para os fotões). É esta CMBR que se propaga livremente pelo espaço há já 99,997% da idade do Universo (durante cerca de 14 mil milhões de anos) e nela estão "impressas" informações preciosas acerca da origem e características do Universo.


Se medirmos a intensidade da radiação de uma dada frequência emitida por um corpo a uma dada temperatura, e se traçarmos o gráfico "intensidade" versus "frequência", obtemos uma curva característica, que só depende da temperatura do corpo, que tem de estar todo à mesma temperatura, isto é em equilíbrio térmico. É a esta curva que se chama o "espectro do corpo negro". O modelo do Big Bang previa que a radiação cósmica de fundo devia ter esta forma, mas tal não era claro a partir dos dados inicialmente disponíveis. O satélite COBE (COsmic Background Explorer), lançado em Novembro de 1989, e cujo principal responsável era John Mather, confirmou-o sem qualquer dúvida:

- o espectro da radiação cósmica de fundo é um dos “espectros de corpo negro” mais perfeitos da Natureza.


Por outro lado, pensava-se que a radiação cósmica de fundo era incrivelmente isotrópica, isto é, igual em todas as direcções. No entanto, o Universo não é completamente homogéneo e isotrópico: possui irregularidades locais: estrelas, galáxias...

O modelo do Big Bang explica a formação das galáxias como resultado de pequenas irregularidades no Universo primitivo, que teriam sido ampliadas pela expansão do Universo. Estas irregularidades foram medidas pela primeira vez na radiação cósmica de fundo pelo COBE, sendo a medição coordenada por George Smoot.


COBE All-Sky Map

Baseado nos primeiros dois anos de dados fornecidos pelo COBE. O mapa mostra variações minúsculas de temperatura (vermelho, mais quente) impressas na radiação CMB pelas estruturas do Universo primitivo.

10 Comentários:

Às 09 outubro, 2006 00:32 , Blogger Luiz Roberto Lins Almeida disse...

ainda bem que abandonei a física. não entendo bulhufas disso.

 
Às 09 outubro, 2006 00:48 , Blogger Peter disse...

Levei todo o dia a escrever o artigo, mas deu-me gozo fazê-lo.
Agora vou descansar por uns dias.
Mas vai aparecendo, porque o blogue é muito variado e tanto me dá para publicar estas "xaropadas", como o ANT publica artigos a "puxar ao sentimento".

 
Às 09 outubro, 2006 09:56 , Blogger Papoila disse...

E por aqui aprende-se. Um dia de trabalho para conseguir em breves linhas tornar um assunto destes uma leitura muito interessante e agradável! A Papoila está em Festa... foste também um dos seus obreiros...
Beijo

 
Às 09 outubro, 2006 10:34 , Blogger Peter disse...

Obrigado Papoila! Costuma dizer-se:
"quem corre por gosto não cansa".
Tenho de arranjar tempo para fazer a ronda pelos blogues amigos.
Beijo

 
Às 09 outubro, 2006 14:14 , Blogger herético disse...

muito bem. gostei de ler o texto e assim alargar um pouco os meus conhecimentosde física. abraços

 
Às 10 outubro, 2006 00:08 , Blogger Betty Branco Martins disse...

Peter

Cá estou eu a aprender - com todo o gosto!

Obrigada por isso:)

Beijinhos

 
Às 10 outubro, 2006 01:06 , Blogger lazuli disse...

Belo texto, Peter. Desculpa a banalidade das palavras. Também gosto de música, sem perceber como se conjugam as semifusas e por aí adiante.
Sente-se, tal como se "sente" no decorrer da tua escrita, a física que tão nos é essencial.

Um beijinho

 
Às 10 outubro, 2006 02:16 , Blogger Peter disse...

“lazuli”
As diferenças extremamente pequenas na temperatura da radiação cósmica de fundo, na ordem de 0.00001 graus, são a chave para o aparecimento das galáxias. Essas pequeníssimas variações de temperatura originaram que a matéria se começasse a "agregar" em pequenas irregularidades, expandindo-se à medida que o Universo se expandia, o que foi essencial para que as galáxias, as estrelas e por último a vida, tal como existe baseada no carbono, se pudessem desenvolver. Se tal não se tivesse verificado, a matéria teria tomado uma forma completamente diferente, eventualmente espalhando-se pura e simplesmente por todo o Universo isotrópica e uniformemente e eu não poderia estar aqui a escrever-te, porque não existia.

Andei a dar uma volta pela blogosfera há cerca de meia hora e calhou ver umas fotos de um jantar em Miranda do Douro. Estás com um belíssimo aspecto.

Obrigado pelo teu comentário.
Beijinho

 
Às 10 outubro, 2006 14:05 , Blogger augustoM disse...

Não é preciso entender "balhufas" para que a nossa curiosidade se manifeste perante um assunto como o que acabaste de expor. Afinal tudo nos diz respeito, somos nós próprios que estamos a ser estudados.
Um abraço. Augusto

 
Às 10 outubro, 2006 14:30 , Blogger Peter disse...

Augusto, é como dizes e como eu dizia acima à "lazuli":

"somos nós próprios que estamos a ser estudados"

Abraço

 

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