sexta-feira, outubro 20

Da amizade

O jornal EXPRESSO de Sábado, trazia um artigo que li com interesse, intitulado “A geração Erasmo”, escrito por António Pinto Leite e que analisava os diferentes estratos etários da população portuguesa. Segundo o articulista, “os jovens desta geração só conhecem um mundo instável e em mudança permanente (…) mas já não percepcionam a “crise da família”, que passa a ser vista como um novo modo de estruturação”.

Embora pertencendo à geração por alguns baptizada de “veteranos”, ou “cotas”, segundo a terminologia actual, sempre compreendi e aceitei que as estruturas não são imutáveis e que os estratos etários serão forçosamente “diferentes”, já que o conceito de “melhores”, ou “piores” é puramente relativo.

O artigo fez-me lembrar um texto de Alberoni em que ele aborda o conceito de “amizade”:
“Vejamos agora a relação amorosa que se estabelece na “amizade”. Esta baseia-se no princípio do “prazer”. Não se constitui a quente, no processo de estado nascente. Não há fusão inicial, ardente, arriscada, apaixonada. A amizade constitui-se lentamente, encontro após encontro, no qual cada um lança uma ponte entre o anterior e o seguinte. É o precipitado histórico de relações bem sucedidas, gratificantes, animadoras, divertidas. Também os dois amigos tendem a uma fusão parcial, também eles tendem a elaborar uma visão do mundo comum. Também eles constituem um “nós”. Mas sem a violenta e radical destruição do mundo anterior. Se entre eles existirem desde o princípio divergências nas suas crenças políticas e religiosas, diversidade de gostos, de hábitos, de opinião, não há um processo de fusão em que são dissolvidas como num crisol. Permanecem e tornam a relação agradável. Os amigos mantêm-se unidos porque descobrem, pouco a pouco, que têm afinidades electivas, porque fazem um esforço voluntário de ajustamento recíproco, procurando o que os une e não o que os separa. Mas se aparecerem divergências ideológicas, contrastes de interesse, ou se alguém se comportar de forma eticamente incorrecta, a relação amigável quebra-se e, normalmente, a ruptura é irremediável. O amigo pode perdoar a mentira, a traição, mas as coisas não voltam a ser como antes. A amizade é a forma “ética” do eros. Também o sentimento amoroso da amizade depende da construção comum de um mundo e da sua identidade. Intensifica-se nos momentos de mudança, de crise, quando nos abrimos ao amigo, lhe pedimos apoio e conselho. Intensifica-se com a troca de experiências, enfrentando juntos os problemas, combatendo lado a lado contra um adversário, uma ameaça, como dois caçadores, como dois guerreiros.”

(Francesco Alberoni, “Amo-te”, 9ª ed.)

6 Comentários:

Às 20 outubro, 2006 17:01 , Blogger Joaninha disse...

Lançar uma primeira pedra em uma qualquer obra, é sempre difícil, mas ser o primeiro comentador de um novo post num Blog, pior um pouco, sobretudo, quando se trata do Blog de alguém que escreve bem, que articula os assuntos numa perfeita harmonia e que consegue dissecar o que o comentador escreve.
Ouso mesmo assim arriscar umas palavras, porque o tema me é caro, porque “amigos” há-os muitos, mas amizade é algo de muito profundo e até complicado de manter. Amizade implica liberdade e liberdade só existe se soubermos respeitar a do amigo e vice-versa. Ter um amigo ou ser amigo, é ser cúmplice, é ser companheiro, é ser compreensivo e compreendido.
Nas conversas o tema não é importante, porque se debatem todos com o mesmo entusiasmo e pesquisa-se e procura-se e encontram-se formas de completar ou complementar o que houvera sido tema ou que virá a ser de novo…
O amigo é o irmão, é o primo, é muito em particular o ombro onde se derramam as lágrimas que não sabemos chorar sozinhos. No amigo está o carinho que mais ninguém nos sabe dar. Está o beijo mais doce que jamais alguém nos deu… está o rasgo de felicidade, que só por felicidade o amigo nos dá… Amigo! É quem aviva a nossa memória de passados do passado. É quem acalma a fúria de qualquer situação controversa. É sobretudo, quem nos acompanha aquando a solidão se apossa de nós e nos deixa de rastos…

Nunca li o livro referido “Amo-te”, de Francesco Alberoni, mas pelo excerto transcrito, fiquei com um desejo imenso de o ler. Quero enriquecer o meu conceito de amigo, sobretudo numa altura, em que também sendo “cota”, dou muito mais valor ao amigo…

Gostei particularmente deste post. Um beijo e bom fim de semana

 
Às 20 outubro, 2006 18:58 , Blogger António disse...

Olá, Peter!
A parte do teu post que mais chamou a minha atenção foi:
“os jovens desta geração só conhecem um mundo instável e em mudança permanente (…) mas já não percepcionam a “crise da família”, que passa a ser vista como um novo modo de estruturação”.
Chega a ser perturbador tentar imaginar o que será o mundo e as relações interpessoais num futuro de poucas décadas.

Obrigado pela visita.
Não me parece que precises de um auxiliar de memória para ler a (blogo)novela.
ah ah ah

Um abraço

 
Às 20 outubro, 2006 19:55 , Blogger Peter disse...

Joaninha, conheço o teu blog e por isso não se justificam os teus receios em comentar. E aí está o teu belíssimo comentário sobre o qual muito haveria a dizer mas julgo não ser aqui o local mais adequado.
Poderá ser em novos artigos aqui, ou no teu blog que aliás e pelo que li, irei incluir nos n/links.

Permite que destaque uma frase do texto de Alberoni e que achei interessante:

"A amizade é a forma “ética” do eros."

 
Às 20 outubro, 2006 20:22 , Blogger Peter disse...

Antonio, o mundo será necessariamente diferente, mas não sou catastrofista.
O artigo citado é interessante porquanto a geração mais antiga é marcada "pelos valores da estabilidade institucional, da família e do respeito pela autoridade".
Esta geração vai transmitir à seguinte (a nossa?) o respeito pela "estabilidade institucional, nos valores tradicionais da família e do trabalho, no valor em si do dinheiro e do que ele custa a ganhar."

Dá-me a sensação que o sexo se banalizou e que perdeu muito do seu encantamento. Não quero discriminar, mas há povos que distinguem entre "fazer amor" e "fazer máquina".
Penso, mas o facto de não pertencer ao grupo etário mais jovem não me dá credibilidade para me pronunciar em segurança, que hoje, pelo menos em Portugal, se "faz máquina".

 
Às 21 outubro, 2006 17:14 , Blogger Ant disse...

Isto não está fácil, de facto Ainda hoje uma amiga me dizia que o emprego corre perigo e que lhe querem fazer umas maroteiras.
Conheço o livro, já o li e já utilizei excertos como fizeste e bem.
Penso que este tema é imprtante. Aliás, está na ordem do dia. Muita gente se questiona sobre o valor da amizade e de como a preservar. Talvez que, após um longo período de correria materialista, todos nós tenhamos necessidade de regressar ao básico.
Excelente Peter, como sempre.
Abraço.

 
Às 21 outubro, 2006 17:36 , Blogger Peter disse...

Talvez ANT, talvez ... mas por enquanto domina o "animal".

P.S.- Quando apareces? Não me digas que ainda andas em limpezas?

Abraço amigo.

 

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