terça-feira, junho 27

Marchas de Lisboa 2006

António Mega Ferreira escreve na Revista VISÃO. Escreve sobre o que quer, mas escreve, porque para isso lhe pagam.
Eu compro a revista e estou a contribuir com uma quota ínfima para pagarem ao cronista. Tenho o meu direito de concordar, ou de discordar, assim como o jornalista ou cronista referido, tem o direito de escrever o que lhe apetece.

Na secção "O jogo das palavras" e sob o título "Um desfile anacrónico", publicado no nº 694, de 22 do corrente da referida revista, a pessoa em questão escreve a propósito das Marchas Populares Lisboetas:

"... pífio desfile com que, todos os anos, por esta altura, as «marchas populares» brindam os lisboetas (e o resto do país, via televisão), em plena Avenida da Liberdade."



Não moro na Lapa, nem em Cascais, nem na Quinta da Marinha, não tomo parte nas marchas, mas vejo com prazer o meu Bairro a desfilar na Avenida. E o mesmo sentem as centenas de pessoas que, VOLUNTARIAMENTE as integram e que vêem nisso um pequeno prazer na vida complicada e difícil do dia-a-dia, coisa que, muito possivelmente, o cronista não sabe o que é.

Mais à frente, na mesma crónica, escreve:

"Deve ser por causa da educação, da cultura, e dos tais «aspectos pictorescos», que, no desfile da semana passada, diante das câmaras de televisão, um grupo de cidadãos de origem africana cantava, a plenos pulmões, o encanto das «varinas de Lisboa», que seguramente nenhum deles já conheceu - e também não perderam nada."

Ainda bem que o faziam porque é sinal que se sentem integrados no Bairro onde moram e têm gosto nisso.

Segundo o ponto de vista do cronista, às Marchas Populares "é preciso, é urgente, é salutar, repensá-las completamente, cortando com este pântano de mau gosto e encorajando o que é novo, o que é criativo, o que esteja mais próximo da natureza urbana e multinacional da cidade em que vivemos".

E, termina escrevendo:
"os bairros antigos já não representam Lisboa" - ai não? - "e as marchas não representam absolutamente nada". Também não?

"Porque não uma tentativa para acertar os ponteiros do relógio pela hora real da nossa cidade?"

Qual "hora real"?
- A dos bairros da lata, do tráfico da droga, da insegurança com roubos, assaltos, assassínios, raptos de crianças (publicarei um facto real ocorrido na véspera de St António em Alfama) emboscadas, miséria, muita miséria, fome, desemprego, sem-abrigos ...?

Vai o senhor tomar essa tarefa a seu cargo?

13 Comentários:

Às 27 junho, 2006 10:52 , Blogger Papoila disse...

Peter:
Faço parte do grupo que vê as Marchas de Santo António pela televisão.
Parece-me como a ti próprio que ver africanos a cantar às varinas de Lisboa, é sinal de integração do bairro onde moram e é um sentimento genuíno porque quanto o não saberem o que representam, creio que qualquer jovem de hoje que as canta se lembra de alguma vez as ter visto apregoar e vender peixe pelas ruas.
A tradição, o reviver costumes populares não podem na minha opinião ser considerados parada de mau gosto.
Gosto do Santo António, é português, adoro o S. João é o santo padroeiro do meu Porto, confesso que o único que não me seduz é o guardião do céu e primeiro Papa de Roma, talvez por isso mesmo.
Já vai longa a conversa...
Beijo

 
Às 27 junho, 2006 12:51 , Blogger Peter disse...

"Papoila", não, não vai longa a conversa.
Falar deste assunto é que "não é de bom tom", não é "intelectual", interessa apena ao "povinho" dos bairros populares, nâo a quem ,muito possivelmente, habita em "condomínios fechados".

As marchas populares lisboetas, são as festas de Lisboa, assim como o S.João do Porto é a festa da convivência, da integração entre os portistas, intelectuais e não intelectuais.

Quem integra as marchas populares dos bairros lisboetas, fá-lo por prazer, por gosto.

Também isso lhe querem tirar?

O que lhe pretendem oferecer em troca?
Visitas guiadas ao CCB?

 
Às 27 junho, 2006 16:39 , Blogger Betty Branco Martins disse...

Olá Peter

Será que para este sr as marchas populares não fazem parte da cultura/tradição do nosso país?

Li hoje esta notícia:

"O jornalista e escritor António Mega Ferreira será o próximo presidente do Centro Cultural de Belém, disse hoje à Lusa fonte do Ministério da Cultura".

Fiquei a pensar nisto (como quem cozinha não sabe muito bem o quê, nem o que vai sair dali) - lentamente - e assim fiquei, depois de ler este teu post.


Beijinhos

 
Às 27 junho, 2006 16:44 , Blogger augustoM disse...

Ora aqui mais ilustre representante da classe intelectualoide, que prima em não nos deixar em paz.
O homem terá a noção do país em que vive? Ou ele no megalismo quer um país de acordo com o que ele queria que fosse.
Acabemos com as marchas populares, acabemos com os cortejos na província, acabemos com o S. joão e o Santo António e o S. Pedro acabemos...,acabemos....,acabemos...,. Com tanto acabar até capaz de acabar com ele. Ainda estão por esclarecer as contas da expo, esqueceu?
Um abraço. Augusto

 
Às 27 junho, 2006 19:04 , Blogger Peter disse...

Betty Branco Martins:

Como sempre, inteligentemente, a tua pergunta vai directa ao cerne da questão:

"Será que para este sr as marchas populares não fazem parte da cultura/tradição do nosso país?"

 
Às 27 junho, 2006 19:11 , Blogger Peter disse...

É isso Augusto, é mesmo isso que escreveste:

"O homem terá a noção do país em que vive?"

Não tem, porque não vive nele, paira sobre ele.

 
Às 27 junho, 2006 20:00 , Blogger amita I disse...

O Sr. AMF é mais um que quer acabar com a tradição com a nossa identidade. Lamentável! Como lamentável é publicarem um texto deste na Visão.
Muito bem observada a "hora real" no final do teu texto, "hora" essa que se espalha pelo país inteiro.
Um bjo

 
Às 27 junho, 2006 22:16 , Blogger amita I disse...

Voltei para vos desejar uma boa noite e deixar uma flor e um doce sorriso.

 
Às 27 junho, 2006 23:36 , Blogger Balzakiana disse...

Também li o artigo da Visão e pensei, com os meus botões, que são pessoas assim que fazem o nosso país cinzentão e rezingão...
É considerarem o «povão» que lhes paga os chorudos ordenados, como uma cambada de parvos.

 
Às 28 junho, 2006 00:11 , Blogger Peter disse...

"balzakiana", são "pavões", convencidos que o seu (deles) umbigo é o "centro do mundo".

 
Às 28 junho, 2006 02:27 , Blogger Heloisa B.P disse...

"Qual "hora real"?
- A dos bairros da lata, do tráfico da droga, da insegurança com roubos, assaltos, assassínios, raptos de crianças (publicarei um facto real ocorrido na véspera de St António em Alfama) emboscadas, miséria, muita miséria, fome, desemprego, sem-abrigos ...?"
*********************************EXCELENTE E PERTINENTE INTERROGACAO, MEU AMIGO!_GOSTEI_!
(Responda quem souber!)

Fica um ABRACO!
Heloisa.
***********

 
Às 28 junho, 2006 02:53 , Blogger lazuli disse...

Essa é uma versão adocicada do paternalismo intelectual. As marchas, o "povo", com aspas de propósito, porque é do povo que se trata, coisas pirosas patati patatá.
E enquanto esta visão (não a Visão..) não mudar (o que não está para hoje nem para amanhã), apenas podemos observá-la à distância.
Talvez tenha sido um texto infeliz dele, dou o benefício da dúvida.
O Mega Ferreira tem escrito coisas interessantes. Mas desta vez foi desinfeliz.
Para ti, Peter, o meu abraço esta noite, já apanhaste a abóbora das 2, mas ele fica aqui.

Para o receberes amanhã, comme d´habitude.

fernanda g.

 
Às 28 junho, 2006 16:50 , Blogger Peter disse...

"lazuli", tarde e a más horas cá recebi o teu comentário.
Não compro semanalmente a VISÃO, não me posso permitir esses "luxos" e quando a compro é raro ler o AMF, não me perguntes porquê, pois não te sei responder.

Desta vez "tropecei" nele ...

Beijinho, comme d´habitude.

 

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