domingo, maio 28

A vaca e o poema

O que é que a vaca tem a ver com o poema?

- Nada e tudo …




Falo-te de um país distante
falo-te do fundo de uma garganta…
onde o meu elevador de palavras se move

Sobe-me à boca energia eléctrica e picante
para esmagar cachos de uvas que a extingam

Falo-te desde um corpo de imensos mecanismos alegres
somente um modo de dizer que existo

Falo-te da noite de cujo xisto és o pau de giz
falo-te do convés de uma noite de fósforos rápidos
e a minha bagagem
é a própria viagem

Falo-te do interior de uma melancia
falo-te do papo de uma bactéria
e lá fora
surdamente
a realidade

Falo-te de um sonho relvado, vigoroso como um puxão de orelhas
arrasto-me pelos cabelos até à veiga acesa onde te posso falar
falo-te pelos dedos vidas a fio
com uma obstinação de martelo no prego em basalto forte
até ao último fósforo sacudir a tua figura no escuro

Falo-te de um país distante
falo-te de onde me faltas
com ervas baixas por fora
e por dentro
muito altas.

(Versos de A.M.F. e foto de Peter)

14 Comentários:

Às 28 maio, 2006 04:06 , Blogger wind disse...

Gostei da foto da vaca:))))

 
Às 28 maio, 2006 08:28 , Blogger bluegift disse...

falo-te de um país onde agora estão 13 graus e o céu está cinzento e onde o inverno teima em não largar o osso... (mais qu'est-ce que je fut ici moi?)

 
Às 28 maio, 2006 10:13 , Blogger Peter disse...

"blue", agora compreendo porque as novas músicas não saiem: estão congeladas.
Por Lisboa a temperatura neste momento 10h já vai nos trinta e tal graus. Estou à espera de resolver uns assuntos para emigrar para o Sul.

A tua pergunta tem mesmo razão de ser, então eu que não gosto da cidade.

Bom Domingo.

 
Às 28 maio, 2006 10:17 , Blogger Peter disse...

"Wind" gostaste? Lá terei eu que correr atrás das vacas.

Mas o mais importante do artigo são os versos de A.M.F escritos propositadamente para a vaquinha.

Bom Domingo.

 
Às 28 maio, 2006 12:04 , Anonymous Anónimo disse...

A foto está um show eheh:)
os versos estão magnificos. parabéns :)

beijinhos,
Lúcia*

 
Às 28 maio, 2006 14:50 , Blogger Papoila disse...

A foto desta vaca está uma maravilha e conjuga na perfeição com o poema.
Beijo

 
Às 28 maio, 2006 16:46 , Blogger António disse...

Olá!
Ainda não assimilei completamente (longe disso) essa de encherem Lisboa de vacas postiças.
Enfim...como diria o outro:
"Vacas há muitas!"

Obrigado pela visita ao meu rancho, que por acaso não é no Texas e, portanto, tem boa vizinhança.

Abraço

 
Às 28 maio, 2006 17:02 , Blogger lazuli disse...

Esses versos encontram-se com uma belissima vaca, numa cidade quente a esturricar ao sol, debaixo de nuvens pesadas do seu calor.
Cidade, Verão, figuras, poema. E uma insustentável leveza do ser, ou não fosse o ar um pouco lunático daqueles que encontrei nos breves momentos em que saí para a bica "comme de habitude".

Um beijinho com 38 graus ao sol, Peter*

 
Às 28 maio, 2006 17:51 , Blogger dulce disse...

Estas vaquitas estão um espanto. Esta não a vi ao vivo, mas elas são tantas ...
O poema tb está óptimo.
Beijos.

 
Às 29 maio, 2006 02:18 , Blogger amita disse...

Olá Peter.
A vaca é bonita, o poema é belíssimo; a vaca transmite a ideia de poesia, o poema mostra a intensidade dum sentir do poeta.
Adorei, Peter, e assim uma forma poética passeia pela calçada de Lisboa. Longa vida à Poesia e a todas as formas que a fazem renascer.
Bjinhos e uma flor

 
Às 29 maio, 2006 19:38 , Blogger Menina_marota disse...

Falo-te
de
um País de Sol,
de
marés vivas
de azul
cor do Céu.

Falo-te
de um País de
contradições
crescente
decrescente
de multidões
onde o pão
não falta à mesa
e a carne não existe
porque se passeia
pelas ruas
asfaltadas
de uma
cidade
que por acaso
é a minha Lisboa...

Falo-te
de sonhos
aspirações
emprego
desemprego
Pib
petróleo
multibanco
créditos
e descréditos
mas...

as Vacas
exibem-se
floridas
intocáveis
como
qualquer uma vaca
da longínqua
Índia...

Falo-te...
porque as
vacas
não me ouvem...


Bem... desculpa lá este extenso comentário! Para o que me havia de dar!

Bjito ;)

 
Às 29 maio, 2006 22:07 , Blogger Peter disse...

"amita" o elemento nuclear é o poema, a vaca permite, como dizes, que "uma forma poética passei(e) pela calçada de Lisboa".

Boa semana, com menos trabalho, pois está muito calor para o fazer.

 
Às 29 maio, 2006 22:15 , Blogger Peter disse...

"uma
cidade
que por acaso
é a minha Lisboa..."

"Surprise", julgava seres uma "portista a 100%".

Fizeste muito bem em publicares os versos no comentário. Espero que não te arrependas e que o voltes a fazer.

"País de
contradições"

mas que é o nosso e por isso temos de lutar por ele e não baixar os braços com desalento.

 
Às 30 maio, 2006 09:04 , Anonymous js disse...

...há vacas que gostam de dar nas vistas...
FORÇ'AÍ!
js de http://politicatsf.blogs.sapo.pt e...

 

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