terça-feira, abril 11

O horror económico

Entre Abril e Junho de 1994 foram assassinados no Ruanda mais de 800 mil “tutsis” perante “a terna indiferença do mundo”, como diria Camus. Os EUA e os Europeus fingiam que não viam e a ONU fechava os olhos e assobiava para o ar.
Ninguém sabia onde ficava o Ruanda, sabiam apenas que não tinha diamantes, nem petróleo.
O pretexto (?) teria sido a queda do avião onde seguia o Presidente, de raça “hutu”. Talvez houvesse um Estado ambicionando ver aumentada a sua influência na zona. Talvez ...
Diariamente e durante esses meses os “tutsis” foram perseguidos, caçados e mortos como ratos, pelos seus vizinhos, amigos, companheiros de infância, ou de trabalho, mas com um ponto em comum: eram de raça “hutu”.

O repórter Jean Hatzfeld escreveu “Dans le nu de la vie”, que julgo ter sido editado pela Caminho e que é a narrativa dos sobreviventes “hutu”. Não o li, nem conhecia o livro.
Posteriormente, foi publicado, pelo mesmo autor: “Tempo de catanas” e que é o depoimento do outro lado, dos assassinos “tutsi”.
Calhou a pegar-lhe numa livraria e a ler duas, ou três linhas, aqui e além e larguei-o horrorizado, perante a inconsciência inominável do cometido. É um livro que escorre sangue.
Mandaram-nos matar e eles mataram. Levantavam-se, tomavam um “mata-bicho” (pequeno almoço) forte, à base de espetadas de carne (a fauna selvagem também foi dizimada) e iam para “o seu trabalho” de procurar e matar “tutsis”. À noite regressavam a casa, para junto da mulher e dos filhos.
Presos, esperam que os libertem e não têm a mínima consciência da barbaridade que cometeram.

Este livro fez-me lembrar outro já antigo sobre o “nazismo que fez a sua época, em sucessivas edições e que foi reeditado recentemente numa colecção de bolso: “Escuta, Zé Ninguém!” de Wilhelm Reich”:

“ ... durante várias décadas, primeiro ingenuamente, mais tarde com espanto, finalmente horrorizado, observou o que o Zé Ninguém da rua “faz a si próprio”; como ele sofre e se revolta, como ele estima os inimigos e assassina os amigos; como ele, onde quer que consiga o Poder como “representante do povo”, abusa desse poder e o transforma em algo de mais cruel que o Poder que ele antes tinha de sofrer às mãos dos sádicos individuos das classes superiores. (...)”

Depois desta longa reflexão e olhando “cá para dentro”, veio-me à lembrança o livro de Viviane Forrester, “L’Horreur Économique”, publicado em França em 1996:

“ É preciso ‘merecer’ viver para se ter direito à vida?” (…) Uma ínfima minoria, já excepcionalmente provida de poderes, de propriedades e de privilégios considerados incontestáveis, assume esse direito por inerência. Quanto ao resto da humanidade, para ‘merecer’ viver, tem de revelar-se ‘útil’ à sociedade, pelo menos ao que a dirige, a domina: a economia confundida como nunca com os negócios, ou seja, a economia de mercado. ‘Útil’ significa quase sempre ‘rendível’, ou proveitosa para o lucro. Numa palavra, ‘empregável’ (‘explorável’ seria de mau gosto!)”

A autora, Viviane Forrester, veio à Gulbenkian em Abril de 1997 (julgo, pois assisti à sua palestra) integrando um Ciclo de Conferencistas de diversos países sobre o “Económico-Social”.

“Descobrimos agora que, para além da exploração dos homens, ainda havia pior e que, perante o facto de já não ser explorável, a multidão de homens considerados supérfluos, cada homem no seio desta multidão pode tremer. Da exploração à exclusão, da exclusão à eliminação …?”

Dez anos se passaram. É possível, é quase certo, que muitos “notáveis” entre nós tenham sido influenciados …

3 Comentários:

Às 11 abril, 2006 22:19 , Blogger Peter disse...

Para quem não goste do mundo em que vive e que, propositadamente foi aqui descrito nos seus quadros mais negros, pode sempre emigrar para o País de Caconha.

O livro de Viviane Forrester procura alertar para o facto de o peso dos considerados "supérfluos": desempregados, velhos, pensionistas ... poder levar num regime não-democrático, ao fechar do círculo:

EXPLORAÇÃO - EXCLUSÃO - ELIMINAÇÃO

 
Às 12 abril, 2006 00:12 , Blogger lazuli disse...

Hoje tive um dia particularmente tramatizante do ponto de vista profissional, onde as palavras exclusão e eliminação ganharam vida própria.
Hoje vi-as tão perto, tal como nesse livro da Viviane Forrester.
Tal como outros males (talvez necessários nesta sociedade do dinheiro, da economia desenfreada, do fim da solidariedade) que não posso nem quero entender.
Não me revejo nela, rejeito, enjoo-me dela.
Dizem que há sempre tempo para encontrar outros caminhos. Talvez uma vereda, uma atalho. Talvez um trilho que possa encontrar. Um caminho da cabras e não a auto estrada ou o TGV..ou será TJV?
Hoje uma colega descobriu que o filho de 20 anos tinha uma doença grave.
Deixa de ser economicamente viável, não dá lucro, jamais terá uma conta num banco qualquer.
Um poeta disse: não sei para onde vou, só sei que não vou por aqui.
Gostava de dizer o mesmo, mesmo sabendo que posso não ser capaz.

Obrigada, Peter

beijos da fernanda g.

 
Às 12 abril, 2006 00:45 , Blogger Peter disse...

Citando-te:

"Hoje tive um dia particularmente traumatizante do ponto de vista profissional, onde as palavras exclusão e eliminação ganharam vida própria.
Hoje vi-as tão perto, tal como nesse livro da Viviane Forrester."

"exclusão e eliminação" que parecem ganhar cada vez mais sentido, num país necessitado de mudança, mas em que esta não pode ser feita ìndiscriminadamente e à custa dos mais fracos e dos indefezos, "comme d'habitude".

Beijos para ti e Boa Páscoa por cá*

 

Enviar um comentário

Subscrever Enviar comentários [Atom]

Hiperligações para esta mensagem:

Criar uma hiperligação

<< Página inicial