quarta-feira, abril 5

Espera


Por quanto tempo se espera pelo ser amado?
Muito possivelmente enquanto dura o amor.

O café começa a ficar frio. Há que bebê-lo, até porque o dono começa a olhar de soslaio.
Não, decididamente não foi de boa política mandar vir uma bica, mais valia ter sido uma tosta mista e uma imperial, "comme d'habitude".
Assim, sempre se ia beberricando a cerveja e comendo a tosta em bocadinhos muito pequeninos, para fazer render o tempo.

Comecei a contar os homens e as mulheres que passavam frente à montra, fazendo riscos na toalha de papel que cobria a mesa e não me importando com o olhar de reprovação do homem. Decididamente este tipo não simpatiza comigo. Pago-lhe na mesma moeda. Ao mesmo tempo considero-me uma pessoa com sorte, pois se fosse negro já me tinha posto lá fora. Conheço a maneira de ser destes tipos, sempre com um olho no freguês e outro na caixa registadora.
Neste momento as mulheres contadas vão à frente e com larga vantagem.
Interrogo-me: onde estão os homens?
É a crise ...

Mas a crise não era apenas económica? Não é com isso que há um ror de anos nos enchem os ouvidos? A "tanga", o "fio dental", agora "em pelota". Em pelota? Em pelota ainda não, porque isso desencadearia uma corrida aos melhores valores e então seria o caos.
Não, a crise é total. Também de homens, as mulheres enfrentam agora outras concorrências.

Raios! Distrai-me e passaram uns quantos e umas quantas que não contei.

Telefono, não telefono? E se está com o chefe? Pode não ser boa política. É capaz de estar off-line, mas não estou frente ao PC.

Vou pagar. Saio e encosto-me à ombreira a ler o jornal. Costumo comprar "A bola", mas não fica bem, tenho de me dar um ar de intelectualidade e por isso comprei o “Público”.

Não, decididamente não, hoje não é o meu dia.

Meto o jornal debaixo do braço e vou-me embora com o rabo entre as pernas.

32 Comentários:

Às 05 abril, 2006 03:42 , Blogger lazuli disse...

A existência é uma oportunidade única, que não deve ser desperdiçada. Por isso vale a pena tudo, e essa espera.
O teu texto deve ser familiar a muita gente, mas o segredo está na forma como descreves os pensamentos, a observação do ambiente, tudo. Incluindo a tal crise, mas isso dava pano para mangas.
E o jornal debaixo do braço com aquele ar de intelectual. Estarias a ler o editorial? Quem sabe o Hobbes? E o vai vem das pessoas, o chefe, o antipático que olhava para a bica. E finalmente o rabo entre as pernas. Mas haveria melhor lugar para o ter?
já deves ter apanhado a abóbora.
Deixo-te este pequeno poema na madrugada, com muitos beijinhos para ti e para a Bluegift.

Choro por ver que os dias passam breves
E te esqueces de mim quando doidas, leves,
E não tornam atrás a ver as flores.

(Teófilo Braga)

 
Às 05 abril, 2006 10:27 , Blogger MARTA disse...

Olá, Peter!
Já me aconteceu, sim - ele deixou-me "pendurada" e é uma sensação muito desagradável.
Como descreves tão bem no teu texto, é tentar reverter a situação a nosso favor.
No meu caso, é dificil, porque "abro" logo a torneira. Mas cada um é como é e devemos respeitar isso.
É a minha opinião!
Um abraço
Marta

 
Às 05 abril, 2006 10:52 , Blogger Papoila disse...

Olá Peter! Deliciei-me com a contagem dos transeuntes, com a animosidade do dono do café, com o Público para disfarçar...(lol) Quanto á espera não tem mesmo nada a ver com a crise... a espera ajuda a alimentar os motivos porque se espera... os momentos únicos, pessoais e intransmissíveis... Beijo

 
Às 05 abril, 2006 13:26 , Blogger augustoM disse...

O dia não era de amor, acontece, e nesses dias não vale a pena insistir.
Um abraço. Augusto

 
Às 05 abril, 2006 15:17 , Blogger dulce disse...

Estive a pôr a leitura em dia. Já há um tempinho q não passava por aqui. E já agoar foi pôr-te nos meus links (não sei pq ainda não o terei feito).
A música embalou-me. Adoro Elton John.
Beijocas

 
Às 05 abril, 2006 16:01 , Blogger Peter disse...

"lazuli", primeiro que tudo deixa-me dar-te os parabéns, ( ou somos nós que os merecemos, por voltar a ter o privilégio de te ler?) pela reabertura "em grande" do teu blog.

Abres o teu comentário com uma frase que merece profunda (muito profunda também não) reflexão:

"A existência é uma oportunidade única, que não deve ser desperdiçada."

Sabes melhor que eu que estes textos são pura ficção, mas se tivesse sido comigo, de certeza que iria ler em primeiro lugar o "Calvin & Hobbes".

Não te molhaste? Então passa um resto do dia feliz.

 
Às 05 abril, 2006 16:14 , Blogger Peter disse...

Marta, não comentei "O caminho de casa" porque penso (posso estar errado)que se trata de um assunto pessoal. Ora eu sempre separei completamente o real do imaginário.
Deste modo, aquilo que escrevo poderá ter a ver com algo de real, mas nunca assume carácter pessoal, pois preservo muito a minha intimidade.

 
Às 05 abril, 2006 16:25 , Blogger Peter disse...

"papoila", no comment que deixei no teu blog, também deixei uma "gralha": "munde", mas tu sabes que não sou assim tão anafabeto.

 
Às 05 abril, 2006 16:42 , Blogger Peter disse...

Meu Caro Augusto, vários pontos:

- O meu post não descreve uma situação pessoal, pois nunca vim com os meus problemas para a praça pública. Portanto, pura ficção.
- Espero não ser contagiado pelo vírus. Pelo menos, até agora não.
- Deixei um comment no seu blog, sobre o post. Talvez também seja um problema de gerações. Espero que seja admitido.

Abraço

 
Às 05 abril, 2006 16:56 , Blogger Peter disse...

Dulce, já vi que nos linkaste. Claro que é agradável, mas não ligo muito a esses "pormenores", porque sempre te tenho lido e constas (julgo) nos links dos 2 blogs. Pelo menos neste sempre tens estado.

 
Às 05 abril, 2006 17:09 , Blogger MARTA disse...

Pode realmente dar para os dois lados - tem realmente um lado pessoal, até porque falo na minha irmã, mas não estou a entrar na minha privacidade.
A verdadeira pergunta era se realmente encontramos ou não o caminho para casa - a casa onde nascemos, muitas vezes não é a casa onde pertencemos.
Há outros posts e podes comentar à vontade.
Beijos, abraços, etc
Marta

 
Às 05 abril, 2006 17:16 , Blogger MARTA disse...

Ainda relativamente aos meus posts, tens 3 antes deste que podes comentar!
Vou ficar ofendida se, pelo menos não comentares um!
É um desafio! Aceitas? (brincadeira, Peter, estou a brincar contigo)
Beijos, abraços, xi - aproveitem que hoje estou mãos largas.
Marta

 
Às 05 abril, 2006 18:56 , Blogger Leonor C.(nokinhas) disse...

Quanto tempo se espera pelo ser amado? Às vezes toda a vida... Por vezes é uma espera inútil, sem esperança.

 
Às 05 abril, 2006 19:40 , Blogger Peter disse...

"nokinhas", estive visitando os teus 2 blogs, ou blog e meio ...
Nos links do "andorinha negra" consta lá (o que verifiquei com agrado) "conversasdexaxa".
Se queres estar ligada connosco, no que nos dás muito prazer, actualiza o link, por favor, para:

conversasdexaxa4

como vês, já vamos na 4ª série, o que devemos a vocês que nos lêem, ou pelo menos nos visitam.

O endereço é:

http://conversasdexaxa4.blogspot.com

Mas se não actualizares, aparece na mesma, pois és sempre bem-vinda.

 
Às 05 abril, 2006 20:20 , Blogger BlueShell disse...

sei que te entendo; sei que me entendes!

Jinhos mil,
BShell

 
Às 05 abril, 2006 21:55 , Blogger Peter disse...

BShell, sempre nos entendemos desde os distantes tempos do "Poeira de estrelas". Depois seguiu-se a série dos "conversas de xaxa" e, por motivos que não vêm para o caso, deixaste de aparecer.

Tens um belo blog: boa prosa, boa poesia, e belíssimas fotos. Consequentemente, é preciso marcar bilhete com antecedência para o visitar.

 
Às 05 abril, 2006 23:12 , Anonymous Anónimo disse...

:)

Peter, gostei de ler este post, fez me pensar imenso..

boa noite
Lúcia

P.S. Hoje apanhei uma valente molha em Lisboa..:|

 
Às 05 abril, 2006 23:19 , Blogger Peter disse...

Lúcia, a mim "pensar" faz-me dores de cabeça, de modo que prefiro "não pensar".

Apanhaste uma valente molha em Lisboa?

Estás cheia de sorte. Eu apanhei duas ...

E também como é que trocas o paraíso, por esta "selva" citadina?

 
Às 05 abril, 2006 23:23 , Anonymous Anónimo disse...

precisava de descansar a minha cabeça de uns problemas que em surgido..

Enfim.. Nada que não passe, não é?

Pensar é tudo o que me resta:)

Lúcia

P.S. Mas sabes, que além da molha, ganhei uma valente queda ao pé da estação do Areeiro..:|

 
Às 05 abril, 2006 23:29 , Blogger lazuli disse...

Lúcia estiveste aqui? tão perto e não deste cavaco..
gosto de ti todos os dias:)

Peter, os beijinhos "comme d'habitude" e uma terça feira menos molhada.

fernanda g.

 
Às 05 abril, 2006 23:33 , Anonymous Anónimo disse...

lazuli, se lesses o mail vias que estive ai:P
:) também gosto de ti

aliás gosto de voces todos*

 
Às 05 abril, 2006 23:36 , Blogger Peter disse...

Lúcia, espero que não te tenhas magoado com a queda. Percalços das "provincianas" quando vêem à Capital(não te zangues, é a brincar).

Os romanos classificavam os dias em "fastos" e "nefastos". Hoje para mim foi um dos primeiros, já para ti saiu-te na rifa um dia "nefasto".

Mas não desanimes, hão-de vir melhores dias.

 
Às 05 abril, 2006 23:39 , Blogger lazuli disse...

eu disse terça feira? é quarta? estou baralhada, hoje é o primeiro dia desta solidão, mas vale a pena ver o passáro finalmente voar.

Lúcia já vou*

 
Às 05 abril, 2006 23:41 , Anonymous Anónimo disse...

Peter, não desanimo, pois nem sequer para desanimar tenho forças:)

melhores dias virão com certeza*

E magoei-me mesmo na queda..ganhei uma nodoa no joelho acompalhado por arranhoes e inchaço

 
Às 05 abril, 2006 23:51 , Blogger lazuli disse...

Lucia ..umas palavras para ti de alguém que gosto de ler, Inês Pedrosa.
E coragem.

"Trago-te no riso enterrado, nas lágrimas que me lançaste, escadas de incêndio para as escadarias da sabedoria, na pele escaldada pelo brilho da noite, depois do mar".

 
Às 05 abril, 2006 23:54 , Anonymous Anónimo disse...

e partilho convosco:

a terra mostrou-te um coração traçado a giz
mais antigo que estes passos num charco de sombra
onde lentamente se agita um corpo definham
as coisas há muito por ti nomeadas
.
no ébrio rosto da noite perdeste o rosto
num sobressalto de sede ergueu-se a presença
misteriosa de nomes cintilantes sobre o peito
.
mas não te restou nenhuma aflição nenhuma angústia
da cega e amarga travessia da infância
porque no ermo esquecido dos dias vive ainda
a louca criança de éter incendiado


Al Berto
de «O Livro dos Regressos», 1989



Lúcia*

 
Às 06 abril, 2006 00:15 , Blogger lazuli disse...

..e também partilho...

"O atraso do sol.
Magnífico silêncio que o braço
derrama no gesto largo
sobre a paisagem dominada,
aroma do medo que
repreende à entrada da vertigem,
desumano peso com que
encara depois a aspereza do ar.
Sempre infinito."

Poema de Alburneo

 
Às 06 abril, 2006 00:39 , Blogger Lylia disse...

partilho ainda que voltei...

Lucia*

 
Às 06 abril, 2006 11:03 , Blogger Peter disse...

"E porque não começar assim?"

Sim, porque não?

Nos n/links agora queres figurar como "lylia", ou como "violet"?

 
Às 06 abril, 2006 13:28 , Blogger Lylia disse...

Como quiseres Peter, eu gosto dos dois:)

**

 
Às 06 abril, 2006 20:00 , Blogger marakoka disse...

Por quanto tempo se espera pelo ser amado?
Muito possivelmente enquanto dura o amor


gostei de ler.te
jocas maradas de tempo

 
Às 06 abril, 2006 22:56 , Blogger Peter disse...

Lylia, o teu blog, já está nos n/links. Isso facilita a visita dos n/leitores.

Felicidades para o "nascituro".

 

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