segunda-feira, fevereiro 20

Pontos convergentes

A imobilidade da cadeira estava a revelar-se extremamente perturbadora. É certo que não é razoável esperar que uma cadeira se mova. Porém, aquela em particular tinha uma rigidez peculiar, quase hirta.

A estática dos objectos que rodeiam as pessoas pode transformar-se numa fonte de questões pertinentes.
Porque não damos conta de que rodam ao sabor dos movimentos da terra?

Esta estranheza conduz-nos a questões quase metafísicas. Terá a cadeira do meu incómodo vida própria?

O beco afunilado sem saída à vista perturba os instintos sensitivos. Tudo parece terminar ali, num estranho cone negro onde não parece haver vida e onde nem uma leve folha de árvore se consegue mover. Não existe movimento. Só o negro de pontos convergentes – milhares de pontos convergentes – que escapam à noção de espaço, à noção de realidade tal como a entendemos. Inegavelmente é a confirmação da existência do Nada.

A luz não se escapuliu. Simplesmente desapareceu tragada pelo negro difuso e impenetrável do cone. A vida parece que termina ali.

Igualmente o sofá não se move, embora não se possa afirmar que este não tenha vida própria. Sentem-se as dilatações moleculares e as contracções das mesmas partículas invisíveis a olho nu, mas pressente-se a vida. Sem se mover acaba por se assemelhar a uma planta carnívora que espera durante anos se necessário, a sua presa.

A mesa enorme e rectilínea tem vibrações provocadas artificialmente pelo movimento desusado dos dedos a baterem teclas, ou pelo retinir do telefone, ou ainda pelo som provocado por sons agudos e graves de uma música favorita.

Esta inanição de objectos inanimados torna-se cada vez mais perturbadora. É a negação óbvia da vida, a inexistência que nos espera espelhada em meras coisas de um quotidiano simétrico, imberbe, intraduzível – o absurdo não se explica – inaudito…

Nem as explicações científicas são conducentes ao entendimento.
Sempre o maldito cone sem luz, onde todos os pontos convergem e se tornam no absurdo do nada. Agora a inexistência da luz.

12 Comentários:

Às 20 fevereiro, 2006 20:23 , Blogger marakoka disse...

a vida não termina ali....
como sempre é um prazer ler-te
jocas maradas

 
Às 20 fevereiro, 2006 21:02 , Blogger Tribunal_Beatas disse...

As coisas têm a utilidade que lhes damos, têm a vida que lhes transmitimos. Contudo têm algo que nós não temos: a capacidade de sobreviver ao tempo. Essa "imortalidade" dos objectos pode também ser deveras perturbadora... a meu ver.
Beijinhos

 
Às 20 fevereiro, 2006 21:30 , Anonymous pensadora disse...

A vida não é só feita de objectos e também eles um dia terão o seu fim...a cadeira pode ser algo conforável ou doloroso deixar de pensar é dicil...
pensadora

 
Às 21 fevereiro, 2006 12:26 , Blogger lazuli disse...

A tua escrita ás vezes baralha-me, embora seja linda.
Hoje sinto-me como um baralho de cartas já bem baralhado. Nessas alturas sabemos que mudará a nossa sorte, só não sabemos se mudará para melhor ou para pior.
Espero que estejas bem, letrasaoacaso. Hoje...só hoje, imagina, tenho comigo a Voz...

Beijos**

 
Às 21 fevereiro, 2006 13:38 , Blogger augustoM disse...

A imobilidade pura não existe. Tudo se move, só o ponto de referência do movimento é que muda.
O nada não existe, como o todo é ilusório, entre um e outro fica o mundo sensitivo.
Um abraço. Augusto

 
Às 21 fevereiro, 2006 13:59 , Blogger Betty Branco Martins disse...



"Agora a inexistência da luz".

O nada!!! não se define.

É difícil pensar que o aguaceiro
é agora calmo como um caminho depois da tarde
devagar... ... muito devagar
se vão encontrando os contornos
de cada uma das sete margens do mundo inteiro
a quietude há-de abrir-se
perante as ténues
equações do espaço

A luz existirá sempre
enquanto elementar
a presença
de uma vidraça
corpo volátil na insondável textura do
tudo - nada!
traduzindo o tempo

Beijinhos

 
Às 21 fevereiro, 2006 16:12 , Blogger lazuli disse...

tiveste agora? Se ao menos pudesse ter alguma certeza.
Da elasticidade das coisas;)

 
Às 21 fevereiro, 2006 19:41 , Anonymous T. disse...

difícil ler o texto.
deixo grande abraço.

 
Às 21 fevereiro, 2006 22:38 , Blogger bluegift disse...

boa noite :)

 
Às 21 fevereiro, 2006 22:55 , Blogger Peter disse...

"zezinho", uma das coisas que mais me impressiona é o saber que tudo: nós e o que nos rodeia, é feito de vazio.
E a prova é que qd da "morte" das estrelas, todos os átomos são comprimidos, ao ponto de uma colher de café cheia dessa matéria pesar mais de uma tonelada.

 
Às 21 fevereiro, 2006 23:06 , Blogger Lost Soul disse...

O que dizer deste texto... como interpretá-lo...
Os objectos que nos rodeiam, estáticos, mortos, ateiam conclusões que preferimos recusar diariamente: somos nada. Em nós: o vazio. Seremos, um dia, alguns, pó de estrelas. Mas nesses objectos fica a vida, as recordações, as memórias, as histórias por contar. Afinal, estes são tudo menos vazios... e é isso que nos perturba...

 
Às 22 fevereiro, 2006 13:27 , Blogger Lost Soul disse...

Venho apenas agradecer o seu comentário que, vindo de si, que considero um extraordinário escritor, muito me lisongeia... embaraça até.

 

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