sexta-feira, fevereiro 17

Círculo

Aqui há tempos li algures numa entrevista a uma personalidade feminina de que já não me lembro o nome, que o livro preferido dela era “O livro do riso e do esquecimento”, de Milan Kundera.

“Não é por acaso que os planetas se movem em círculo, e que a pedra que salta se afasta inexoravelmente, levada pela força centrífuga. Semelhante ao meteorito arrancado a um planeta, saí do círculo, e, ainda hoje, não paro de cair. Há pessoas que conseguem morrer em órbita e outras que se esmagam no fim da queda. E outras (às quais pertenço) conservam sempre em si como que uma tímida nostalgia da dança em roda perdida, porque somos todos habitantes de um universo em que todas as coisas giram em círculo.”

Curioso. Para mim e deste autor, também é o preferido. Talvez porque aborde a “magia do círculo” numa perspectiva cosmológica e política:
“um dia disse qualquer coisa que não devia ter dito, fui expulso do partido e tive de sair da roda.
Foi então que compreendi o significado mágico do círculo.
Quando nos afastamos da fila, ainda nos é possível voltar. A fila é uma formação aberta. Mas o círculo fecha-se e quando se sai é sem regresso”.

Foi no tempo da “Primavera de Praga”, quando os checos riam e dançavam festejando a sua rebelião contra o comunismo soviético. Éluard, o filho querido de Praga, cantava:

“O amor trabalha é infatigável”

E alguém a quem eu emprestara o livro escreveu por baixo a lápis, na sua letra pequena e elegante de poetisa, algo que eu nunca mais apaguei:

“Quem não ama, pára, envelhece e morre”.

Talvez venha daí a minha preferência pela obra … ou porque a uma situação de denso significado político se sucedem por vezes cenas de um estranho erotismo:

Jan quase invejava Ewige, que ia e vinha na sua nudez e que era até “muito mais natural nua do que vestida, como se ao abandonar a roupa abandonasse ao mesmo tempo a sua condição de mulher, para passar a “ser humano” apenas, sem sexualização. Como se o sexo estivesse na roupa e a nudez fosse um traço de neutralidade sexual.”

6 Comentários:

Às 17 fevereiro, 2006 18:04 , Anonymous zezinho disse...

Pessoalmente gosto de Kundera.
Esta abordagem entre o cosmológico e o quotidiano politico, com a introdução da figura do círculo é na verdade particularmente feliz.
Apesar da "Primavera de Praga" ter terminado de forma abrupta, ficaram pequenas flores que mais tarde desabrocharam numa apoteose de liberdade. Foi uma semente lançada à terra fecunda e que resultou em pleno numa nova flor multicor.

 
Às 17 fevereiro, 2006 18:45 , Blogger HatA/mãe disse...

"Quem não ama para envelhece e morre"
É uma boa reflexão...
Mas noutro contexto, tambem é mais que certo, que mesmo quem ama...um dia para...pode envelhecer ou não...mas morre de certeza.
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Zéziho venho aqui agradecer-te as palavrinhas que "lá" tens deixado.
Porque é aqui que o teu nome vem dar...
Dizes que é uma bela declaração? Achas que ele poderá ouvir-me? Gostava tanto ter feito tantas declarações ao meu filho...tantas!
Talvez se lhe tivesse dito mais vezes que o amava, ele não teria feito o que fez.
Um abraço

 
Às 17 fevereiro, 2006 20:14 , Blogger vero disse...

Olá Peter!!!
Passei p te dixar um beijinho e desejar um bom FDS...beijinho também para letras ao acaso***

 
Às 17 fevereiro, 2006 20:24 , Blogger Tales da Gardunha disse...

Uma mulher vestida tem mais sex appeal e estimula mais a imaginação. Sempre podemos tentar entrever o que está para além da nossa visão

 
Às 17 fevereiro, 2006 21:24 , Blogger Peter disse...

"zezinho" a ideia foi "desmontar" o livro e construir um texto no qual a magia do círulo, tão largamente utilizada por António Ramos Rosa, se conjuga com o político e o erótico.

É agradável receber referências elogiosas dum profissional da escrita.

 
Às 17 fevereiro, 2006 21:27 , Blogger Peter disse...

"noiteestrelada", talvez não tivesse sido uma reflexão. Eu, pelo menos não o entendi assim.

Já sabes quem é o "Zezinho" e quem é o Peter?

 

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