domingo, fevereiro 19

Tácticas de guerra ou o desviar das atenções?

Há algo de surrealista e de perturbador na invasão da redacção do jornal 24 horas. E digo-o tanto mais à vontade porquanto não gosto das manchetes escandalosas e sem interesse com que normalmente este jornal chama a atenção de quem ainda vai lendo jornais.

Porém, não posso deixar passar em claro a intromissão gratuita, desnecessária e imbecil do que recentemente aconteceu naquele jornal. É óbvio que alguém quer esconder coisas. É óbvio ainda que o chamado caso “Casa Pia” está longe de ter atingido todas as personalidades “impolutas” que pululam na vida pública portuguesa. É ainda óbvio o estado de baralhação do ainda Procurador-geral que num golpe de mágica quer desviar as atenções do inquérito que lhe foi solicitado, sobre as constantes fugas de informação.

Se já é grave que seja uma comissão não-independente a proceder às averiguações, é ainda mais grave, que para que estas se arrastem no tempo, de maneira a que Souto Moura possa acabar a sua comissão de serviço e, possa usufruir de todas as mordomias inerentes à choruda reforma que dali levará.

Quem deu o quê a quem? Quem entregou material classificado a um jornal? As hipóteses não me parecem ser muitas. Ou estas provieram da PT, ou da Procuradoria-geral da República.
Em qualquer dos casos a situação reveste-se de gravidade, agravada porém se o material classificado veio do órgão controlado por Souto Moura.

Esta importante figura da hierarquia do Estado tem-se comportado da pior forma possível. Fez tudo o que não devia ter feito. Constantes fugas de informação, declarações dúbias, inquéritos mal conduzidos, aparições e declarações em público de gosto duvidoso, tudo isto ante a passividade do poder político. Souto Moura deveria ter sido substituído há muito. Porque é que tal não aconteceu? Quem tem a perder com a saída do actual Procurador-geral? Porque se protege a incompetência, porque se faz arrastar no tempo e no espaço uma figura patética, ridícula, incapaz e sem dignidade? – Se a tivesse [a dignidade] não seria o próprio a demitir-se?

A liberdade de imprensa está consagrada na lei. O não cumprimento desta acarreta aos jornalistas prevaricadores punições criminais. Todos o sabem. Quem violou a lei? Os jornalistas que noticiaram mais este desmando, protegendo as suas fontes como é seu dever, ou as entidades que fizeram chegar às mãos dos jornalistas tanta informação?
Terá sido esta passada de forma inocente? – Não acredito.
Enquanto se discute o acessório, o julgamento do caso “Casa Pia” vai-se desenrolando; um destes dias acordamos para o que já adivinhamos: todos cá fora! (Excepção feita a Carlos Silvino, claro) – Lembro que foi criada uma lei à medida para Paulo Pedroso e para todos os outros “inocentes” arguidos que prevê a indemnização de todos os que tendo estado detidos e nada se ter provado sejam ressarcidos pecuniariamente desse acto arbitrário da justiça. O princípio parece-me bom, o que não me parece assim tão claro, são as motivações do timing em que tal foi acontecer –.

Deixar que o acessório seja notícia para encobrir o essencial é obviamente uma perversão do sistema judicial, agora também ele a ser julgado pela opinião pública. Afinal onde estão os poderes consignados na Lei? Ou esta está acima dela própria? Que contradição!

Deve ou não poder político tomar uma posição clara acerca da prestação de Souto Moura? Deve ou não demiti-lo, independentemente de faltar pouco tempo para que a sua comissão de serviço termine? Será pedir muito se o pressionarem a entregar o resultado do inquérito em tempo útil, ou ao invés, devem deixar que se arraste a indignidade, que a confiança continue a ser minada pela incompetência e/ou pelo desejo louco de ser vedeta a todo o custo?

No meu humilde entender, Souto Moura já teve os seus quinze minutos de fama!

10 Comentários:

Às 19 fevereiro, 2006 18:31 , Blogger HatA/mãe disse...

Zézinho
Não tá lá...mesmo quando está prenhe de luz acho que queres dizer (lua cheia), não consigo ver.
Só vejo a face dele de sofrimento, querendo falar comigo, a companheira a não deixar...e depois a face sem sofrimento, mas já com o tiro na cabeça.
Por isso queria vê-la e ter paz, que não tenho.

 
Às 19 fevereiro, 2006 19:00 , Blogger HatA/mãe disse...

LetrasAoAcaso
Isto do caso da "Casa Pia" é no mínimo estranho, andar há tanto tempo nos tribunais. Bem sei que no nosso pais, tudo se passa lentamente, mas está uma "embrulhada", claro que os jornais e tvs querem sensionalismo.
Mas honestamente ja queria ver tudo resolvido, pois já não há paciencia.
Um bom Domingo

 
Às 19 fevereiro, 2006 21:34 , Anonymous pensdaora disse...

As coisas embrulham-se em papéis e secçoes e nada se resolve.. nem sei bem porquê tanto embrulho...
pensdora

 
Às 19 fevereiro, 2006 22:17 , Anonymous Maria Papoila disse...

Cada vez maior a embrulhada e um procurador geral que enrola e enrola...Porquê? Tudo muito estranho...

 
Às 19 fevereiro, 2006 22:46 , Blogger lazuli disse...

É triste este caso mas tem de ser olhado com atenção. Nesta história não há inocentes. A classe política não tem o monopólio da corrupção e da falsidade.
Infelizmente em muitos outros aspectos da vida portuguesa isso também acontece, no dia a dia, na ânsia do protagonismo, dum palco num lugar "importante". Os valores de “sucesso” na nossa sociedade são muito – esses sim – generalizáveis.
Sobre o Procurador em concreto, não sei. Há dados contraditórios e não é busca a um jornal, na presença dum juíz, que é suficiente para mandar o homem para a rua.
Mas numca coisa estou de acordo: liberdade de expressão sim. E punição real aos jornalistas que violem o sigilo profissional, idem aspas.

Beijos, letrasaoacaso....

 
Às 19 fevereiro, 2006 23:43 , Anonymous delta disse...

Boa noite :-) Passei para deixar este link http://nunocabruja.blog.pt/ Gostaria muito que fosses até lá. O tempo não é muito mas espero voltar aqui em breve, com mais calma. Beijinhos e tudo de bom

 
Às 20 fevereiro, 2006 00:03 , Blogger Betty Branco Martins disse...



Li o comentário da Fernanda. E estou plenamente de acordo com ela.

Liberdade de expressão sim! mas não se pode esquecer de maneira alguma, a outra parte, que é: o violar do o sigilo profissional, claro que aí, a lei tem que se fazer cumprir.


(neste momento estou a fazer uma verdadeira aula de yoga para estar ao computador e ainda por cima às escondidas, pois estou proibida, neste estado em que me encontro, de pé partido e algumas escoriações :(((

Beijinhos

 
Às 20 fevereiro, 2006 08:22 , Blogger Micas disse...

A Lazuli e a Betty já disseram tudo, peço desculpa mas vou fazer das palavras delas minhas também.
Beijos e boa semana

 
Às 20 fevereiro, 2006 12:44 , Blogger Peter disse...

"letras":
"É elementar, meu caro Watson", diria o Sherlock Holmes, não há quaisquer dúvidas que:
"alguém quer esconder coisas."
Como dizes

 
Às 20 fevereiro, 2006 16:36 , Blogger Lady disse...

De tudo só retiro uma conclusão: pagarão aqueles que não puderem defender convenientemente, o que significa dinheiro e poder a rolar.
Inocentes são as criancinhas e mesmo assim, nem todas.

Beijinhos

 

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